Hugo Studart https://hugostudart.com.br Mais história, mais conteúdo. Tue, 26 Nov 2019 13:21:48 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.1.3 https://hugostudart.com.br/wp-content/uploads/sites/46/2019/02/cropped-favicon-32x32.png Hugo Studart https://hugostudart.com.br 32 32 144858947 Como atravessar as sombras do Palácio do Planalto https://hugostudart.com.br/2019/04/28/que-situacao-para-esse-governo/ https://hugostudart.com.br/2019/04/28/que-situacao-para-esse-governo/#respond Sun, 28 Apr 2019 03:15:13 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50177 O que se sabe até agora e o que se pode dizer do conflito armado dentro do Palácio do Planalto, que colocou de um lado o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, de outro o vice-presidente, general Hamilton Mourão:

1) Tem uma bomba econômica e social que pode explodir. Já estamos com algo entre 25 e 30 milhões de desempregados e subempregados, e se o crescimento for mesmo zero, como já têm consultorias prevendo, pode descarrilhar para 40 milhões. Nesse caso, será a maior crise da nossa história.

2) Tem um presidente da República que chegou ao poder praticamente sozinho, contra tudo e contra todos os vetores relevantes do establishment. Segundo suas próprias palavras, não nasceu para ser presidente, mas para ser militar. De qualquer forma, tudo indica que esteja dando o melhor de si e ainda tem o voto de confiança da maioria dos eleitores. De concreto, o governo até agora tem um plano financeiro de ajuste fiscal da escola monetarista, que passa pela reforma da Previdência, mas nenhum projeto de produção econômica e de emprego. Ademais, o presidente ainda não conseguiu forjar um projeto estratégico coerente e um rumo visível para seu governo. Muito menos organizar uma maioria política. Por isso o caos aparente.

 

3) Tem um Congresso Nacional tomado por marinheiros de primeira viagem e hegemonicamente dominado por organizações criminosas. Suas práticas já foram chamadas ironicamente de “franciscanas” (é dando que se recebe), mas que desde a Era FHC vem sendo tratada com certa naturalidade sob o nome pomposo de “presidencialismo de coalizão”, forjando escândalos como o do Mensalão e do Petrolão. Tudo indica que a maioria do atual Congresso não está nem aí para as grandes prioridades nacionais. Ao contrário, buscam se locupletar. Muitos deles estão chantageando o governo em busca de cargos para saquear a coisa pública. O pior é que tem ministro relevante que acha isso natural e pragmático como estratégia de aprovação da pauta das reformas estruturais necessárias.

 

4) Tem um vice-presidente de personalidade extremamente forte, espírito independente, eloquente em suas ideias e que já declarou em entrevista seu projeto (legítimo) de se candidatar à Presidência. Esse vice tem informações privilegiadas sobre um possível Apocalipse em andamento. Por temperamento, desde antes de tomar posse o vice vem apresentando opiniões dissonantes às do presidente e se descolando da imagem do titular. Como resultante prática, o vice vem se credenciando politicamente perante à maioria de centro, com viés para a centro-esquerda. Ele não o faz com discrição, ao contrário. Há muito que ele emite a impressão de que se apresenta como solução viável para o caso do titular se inviabilizar. A solução Mourão já virou até conversa de botequim. Tem até políticos articulando o parlamentarismo, no qual o vice seria o primeiro-ministro.

 

5) Por esse conjunto de razões, há um grupo significativo de pessoas que cercam o presidente, começando por seus três filhos fiéis-escudeiros, que acreditam que o vice estaria conspirando para derrubar o titular. Não estaria apenas tentando se descolar, se viabilizar, criar uma boa imagem para as eleições de 2022. Mas sim conspirando para precipitar um eventual impeachment, ou o parlamentarismo. Os filhos estariam convencidos, por exemplo, que o ex-ministro Bebianno estaria nessa conspiração contra o presidente. Por isso foi demitido.

 

6) Diante desse clima pesado, os filhos (e talvez o próprio presidente) estão reagindo do jeito que eles sabem: com máxima transparência na busca do apoio de seus eleitores de raiz, fazendo uso de franco-atiradores kamikazes como Marco Feliciano e Olavo de Carvalho. Mourão, por sua vez, tem se apresentado como “O Pacificador”, tal qual Caxias, buscando aplainar arestas, como a criada com os árabes por conta do anúncio da mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. Ou a missão de consertar o Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País) do chanceler Ernesto Araújo na questão da Venezuela.

 

CONCLUSÕES E CONSELHOS:

 

7 – Bolsonaro & Filhos – Esqueçam os eventuais erros ou supostas ambições do Mourão, parem de lavar roupa suja em público e usem 100% do tempo para atravessar o Vale das Sombras. E daí que ele se disse a favor do aborto? E daí que ele tenha acenado com palavras amenas ao Jean Willys, o bobo da corte da esquerda? É quase certo que o vice esteja de fato tentando ajudar, talvez esteja se deixando embevecer pela vaidade, pois o poder é afrodisíaco – como observava o velho Ulysses Guimarães. Mas é quase impossível que esteja mesmo conspirando. Pois ele é acima de tudo um militar forjado e identificado com a Instituição chamada Exército Brasileiro. Ademais, está ciente que o Destino lhe colocou no posto de vice com a missão histórica de resgatar a imagem das Forças Armadas. O mais inteligente a fazer é puxar Mourão para ser o braço esquerdo de Bolsonaro, designar funções específicas ao vice e lhe dar algumas missões relevantes, tal qual a da Venezuela. De qualquer forma, deixem o assunto “ambições do Mourão” para ser tratado em 2022.

 

8 – Mourão – Controle um pouco seu temperamento idealista e voluntarista. Inspire-se desavergonhadamente em Marco Maciel, o vice de FHC. Pelo menos até que a poeira baixe, até que a relação com o presidente e sua família (“meu sangue”, como ele definiu), não fale, não apareça, não converse. Cumpra a missão de ser o “sub” de Bolsonaro, como ele definiu. Fato é que vice precisa ser discreto. E apoie o presidente com esforço redobrado para que ele atravesse o Vale das Sombras. Busque ser o “O Pacificador” somente quando o presidente pedir. Em 2022 (ou 2026), o Sr. poderá ser o candidato in pectore de Bolsonaro, caso esteja escrito em teu Destino.

 

9 – A herança maldita que temos que enfrentar requer reformas muito profundas e medidas amargas. Em uma democracia, só um governo de “salvação nacional” (ou “união nacional”) conseguirá aprovar a pauta. Significa que o clima geral precisa ser de pacificação, tendendo ao consenso. Mas o clima é de discórdia, de divisão, de desconfiança e de perseguição. A começar pela família do presidente com seu vice. É hora de buscar cooptar os melhores quadros da nação. Presidente, livre-se urgente dos seus ministros xing ling, como esses do Itamaraty e do Turismo (de doidivanas, deixa só a Damares, que caiu no gosto do eleitorado conservador), e recomece com quadros de alto nível. No Senado, temos pelo menos quatro grandes políticos querendo ajudar: os senadores Tasso Jereirassi, Esperidião Amin, Antônio Anastasia e Simone Tebet. Na burocracia estatal (Forças Armadas, Itamaraty, Fazenda, etc) tem outros tantos. Inspire em Castelo Branco e cerque-se dos melhores homens e mulheres disponíveis na nação.

 

10 – Srs. Presidente & Vice – Escutem mais os conselhos moderados de Augusto Heleno, Villas-Boas e Santos Cruz, dentre outros. Sobretudo o sábio, sereno, seguro e sofisticado gênio estratégico de VB. E encontrem urgente um novo conselheiro político e o instalem no Palácio, com sala ao lado do gabinete do presidente, melhor ainda se puder entrar sem bater. Algum pensador relevante, conservador obviamente, mas nada de gurus ou guris. Sugiro cá o professor Paulo Kramer, que esteve em vossas fileiras, por sinal, contudo não está mais. Só assim conseguiremos atravessar o Vale das Sombras.

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Lula e o Prometeu acorrentado https://hugostudart.com.br/2019/04/28/50171/ https://hugostudart.com.br/2019/04/28/50171/#respond Sun, 28 Apr 2019 03:00:54 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50171  

Lula e o Prometeu acorrentado

A entrevista do Lula lembra muito o mito retratado por Ésquilo na peça “Prometeu Acorrentado”. Prometeu é o personagem principal da mitologia clássica, o titã predileto de Zeus, até que roubou o fogo sagrado do Conhecimento e entregou para os homens. Zeus fica furioso e o condena a viver a eternidade acorrentado ao Tártaro. Na peça de Ésquilo, de início somos levados a estabelecer forte empatia com o titã, principal responsável pela criação da Civilização. Chegamos a acreditar que Prometeu, o Condutor da Luz, ama a Humanidade mais do que os deuses.

Até que o mensageiro Coro aparece para informar que Zeus está disposto a perdoá-lo, a reduzir sua pena e até a soltá-lo, desde que admita seus erros e volte a obedecer o sistema estabelecido pelos deuses. Mas Prometeu não se curva, em hipótese alguma. Não admite erro algum. Ao contrário, reafirma seus atos e coloca toda a culpa em Zeus e nos deuses.

É nesse momento que o drama tem uma virada. A empatia com o público acaba e vislumbramos nu, sem máscaras, de corpo inteiro, um Ser arrogante, soberbo, vaidoso, escroque, uma empáfia sem fim. Somos levados à conclusão de que Prometeu é mantido acorrentado não pelo erro de entregar o fogo sagrado aos homens, pois esse crime Zeus estava há muito disposto a perdoar. Mas pela soberba, pela determinação de continuar afrontando as leis dos deuses com máxima a arrogância.

Seu Destino é terrível. Todos os dias os abutres aparecem para devorar seu fígado. É no fígado que guardamos as emoções negativas, o ódio, o rancor, a inveja e outras químicas pesadas. À noite, o figado se regenera, para no dia seguinte os abutres voltarem para devorá-lo.

A mitologia hebraica tem um personagem muito semelhante, Lúcifer, que era arcanjo predileto de Deus até que roubou o fogo sagrado da consciência e entregou aos homens — e por essa razão Deus o condenou a passar a eternidade preso na Terra, entre os homens. A Bíblia hebraica quase nada fala desse Condutor da Luz. Não sabemos, assim, qual o Destino final do ex-arcanjo.

No mito grego, contudo, o titã Prometeu termina acorrentado ao Tártaro, cultuando a soberba, em chororô e mimimi eterno contra os supostos erros alheios. Mas nada de fazer autocrítica.

 

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A ARTE DA GUERRA NO GOVERNO BOLSONARO https://hugostudart.com.br/2019/04/15/a-arte-da-guerra-no-governo-bolsonaro/ https://hugostudart.com.br/2019/04/15/a-arte-da-guerra-no-governo-bolsonaro/#respond Mon, 15 Apr 2019 14:24:02 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50147 Uma breve análise das táticas de guerra do atual governo

 

Há muito tempo que os executivos descobriram a adaptação das estratégias militares para o mundo dos negócios. Vale o mesmo para o governo e a política.

O núcleo militar no Palácio (sob a liderança dos generais Heleno, Santos Cruz e Villas-Boas) optou pela estratégia do cerco, a mesma que Aníbal e Átila usaram em seus respectivos cercos à Roma. Lenta, gradual e segura, busca poupar recursos e vidas das tropas aliadas. Mas também busca poupar adversários a fim de usá-los nas próprias fileiras. Alexandre da Macedônia e Júlio César era especialistas nessa estratégia.

Foi por isso que os generais convenceram Bolsonaro a não fazer terra-arrasada na tomada do poder. Entraram no governo apenas com Secretários Nacionais e os principais diretores de área. A ordem geral era identificar os melhores quadros da administração e ir trocando a turma aos poucos.

Quando ficou patente que o colombiano Ricardo Vélez não servia para ministro da Educação, os generais poderiam tê-lo trocado imediatamente por algum quadro mais qualificado que estava à mão. Contudo, optaram pelo cerco, demitindo todos os seus principais assessores e aguardando que se rendesse espontaneamente, ou seja, aquela máxima “pede prá sair”, não deu certo, apenas esticaram a crise para além do suportável e o colombiano agarrou-se ao cargo de forma patética.

Onyx Lorenzoni, por sua vez, tem um estilo completamente diferente do núcleo duro dos generais: a guerra relâmpago, tipo blitzkrieg de Hitler, inspirada na estratégia de Juliano César quando deixou a Gália e navegou pelo Danúbio para a conquista relâmpago de Constantinopla. No dia que tomou posse, Onyx demitiu todos, absolutamente todos os assessores do Ancien Regime. Atirou primeiro e perguntou depois. Ernesto Araújo está fazendo o mesmo no Itamaraty.

No caso da Conquista do MEC, Onyx deu lições de Arte da Guerra nos generais. Eles estavam há semanas avaliando os melhores nomes para o MEC sem chegarem a um nome perfeito. O próprio Onyx já havia se insinuado para o cargo.

Na tarde de domingo, quando Bolsonaro, irritado com os políticos cogitou entregar o ministério de porteira fechada para o guru Olavo de Carvalho, Onyx sacou seu assessor Abraham Weintraub do bolso do colete e o emplacou de susto. De início, seria em aliança com os olavistas e militares. No terceiro dia, antes que os demais aliados acordassem, Onyx conquistava a porteira fechada, nomeando primeiro (e perguntando depois) todos os secretários nacionais do ministérios.

Nesse caso do MEC, Onyx fez uso da mesma estratégia de Alexandre quando derrotou pela primeira vez o rei Dario III na Batalha de Issos. Tinha apenas 25 mil homens contra um exército 150 mil persas, e ainda estava em posição tática de inferioridade, ao pé do morro. Alexandre mandou os hoplitas da infantaria ateniense marcharem para a esquerda, atraindo o exército persa. Quando avistou o rei Dario a descoberto, lançou-se à frente das cavalarias tebana e macedônica direto ao rei.

Paulo Guedes tem uma terceira estratégia, que lembra as de Napoleão, num meio termo entre o cerco e as conquistas relâmpago. Ele gostaria de aproveitar esse início de governo para promover uma revolução na gestão administrativa, enxugando a máquina ao mínimo do mínimo, expurgando as nomeações políticas, privatizando tudo o que for possível no menor espaço de tempo possível.

Ou seja, estabelecendo com a nova ordem com rapidez e nomeando o maior número possível de pessoas da sua confiança nos postos chaves, exatamente como fez Napoleão. Mas também, pragmaticamente, aproveitando os melhores quadros técnicos da antiga administração em aliança do novo com algo do velho, como fez Napoleão. Mas Guedes ainda não conseguiu convencer Bolsonaro a seguir por esse caminho.

Aguardemos os próximos capítulos dessa Arte da Guerra.

 

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Bolsonaro tem razão sobre a ideia do perdão sem esquecimento do holocausto https://hugostudart.com.br/2019/04/13/bolsonaro-tem-razao-sobre-o-perdao-e-o-esquecimento-do-holocausto/ https://hugostudart.com.br/2019/04/13/bolsonaro-tem-razao-sobre-o-perdao-e-o-esquecimento-do-holocausto/#respond Sat, 13 Apr 2019 21:11:45 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50137 A polêmica da hora sobre Jair Bolsonaro diz respeito a uma observação sobre a possibilidade de perdoar o holocausto nazista – “mas não podemos jamais esquecer”, ressalvou. O presidente está certo ao fazer a distinção entre perdão, memória e esquecimento. O que ele disse encontra-se em consonância com os pensamentos de Platão e de Santo Agostinho, com as formulações do arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz e presidente da Comissão da Verdade e da África do Sul, além de pensadores como Hannah Arendt e Paul Ricoeur, este, referência na Justiça de Transição de todo o mundo.

De acordo com a ideia cristã inicialmente proposta por Desmond Tutu e aprofundada filosoficamente por Paul Ricoeur, a anistia é uma decisão política de impor o esquecimento coletivo sobre determinados assuntos como forma da sociedade seguir em frente. Já o perdão, é uma decisão emocional exclusivamente individual, que guarda uma relação intrínseca com a memória. Ou seja, é possível perdoar individualmente, como um bom cristão, contudo, politicamente, não se deve esquecer, ao contrário, é preciso rememorar. É provável que em suas considerações sobre o holocausto, Bolsonaro tenha se inspirado apenas em princípios cristãos, sem tecer qualquer relação com filósofos como Platão ou Ricoeur.

Em meu livro mais recente, “Borboletas e Lobisomens – Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia”, trato exatamente desse tema: as relações entre memória e esquecimento, anistia e perdão. Abaixo, reproduzo um trecho do Capítulo 21, “O Passado nos Assombra”, que cabe como uma luva para auxiliar nos debates:


Memória e esquecimento

Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Nietzsche – são muitas as contribuições dos pensadores clássicos sobre memória, esquecimento e perdão. Faz-se necessário, obviamente, revisitá-los, cada um em seu próprio momento da discussão. Mas venho abordar o tema com ênfase especial no pensamento de Paul Ricœur, buscando auxílio em Hannah Arendt.

Meio século depois da morte de Walter Benjamin, Paul Ricœur procurou decifar o enigma da representação do passado no presente. Ele parte da ideia de que a memória é sempre seletiva; e de que o homem vive, em sua passagem pela Terra, uma incessante dialética entre a recordação e o esquecimento. Cada indivíduo participa, simultaneamente, de vários campos da memória, conforme a perspectiva que se coloca e a sua retrospecção.

Em sua última obra, A memória, a história e o esquecimento, Ricouer trata do mito e da mimesis. Uma das contribuições de Paul Ricœur para a historiografia foi estudar uma das questões delicadas da Filosofia: o esquecimento. É difícil pensar sobre esquecimento sem reduzi-lo ao simples “apagar”, à não-memória.

Ricœur se propôs a pensar no tema a partir da perspectiva do esquecimento proposital e das conveniências políticas. Ou seja, quando uma sociedade prefere esquecer certos acontecimentos do passado em nome da pacificação ou das conveniências presentes ou futuras, como foi o caso da Alemanha no pós-guerra, que desejava esquecer a tragédia do nazismo. Ou da França no mesmo período, que também não queria lembrar-se do governo colaboracionista de Vichy, ou da violenta repressão política na Argélia. Ou mesmo do Brasil, quando determinado segmento político impôs uma “lei do esquecimento” para anistiar os atos de exceção do regime militar de 1964, no caso, a Lei de Anistia, de 1979.

Em fins dos anos 1990, Ricœur começou a refletir sobre essas questões a partir da experiência política da África do Sul, que havia criado a Comissão da Verdade e Reconciliação para apurar os crimes políticos do regime segregacionista instaurado desde 1949, o apartheid. O governo, presidido por Nelson Mandela, propunha a reconciliação nacional. Para isso, buscava perdoar e reintegrar parte dos algozes do apartheid a fim de seguir em frente.

Os parentes das vítimas, por sua vez, exigiam apuração dos crimes e punição. Mandela chamou o arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz de 1984, para presidir uma Comissão da Verdade e Reconciliação. A fórmula encontrada foi permitir o perdão aos algozes, desde que contassem o que realmente sabiam. Ou seja, como morreram as vítimas do regime, e onde estariam os restos mortais dos desaparecidos.

Tutu buscou um diálogo entre o princípio cristão do perdão com memória como categoria política, ou seja, a necessidade de rememorar certos acontecimentos do passado para que não se repitam no futuro. Em sua derradeira obra, A memória, a história, o esquecimento, Ricœur vai além e propõe uma dialética do lembrar e do esquecer para tratar de questões como a anistia e o perdão político.

Nessa dialética, tanto o lembrar quanto o esquecer operam segundo o que o presente quer para si agora e no futuro. Ele distingue anistia do perdão. Para ele, o perdão é categoria não jurídica, não pode ser imposto com base numa lei. O perdão é uma decisão exclusiva do indivíduo atingido, que pode decidir por esquecer ou lembrar, por perdoar ou não perdoar.

Mas a anistia pode ser imposta por lei. Geralmente a anistia tem por objetivo cicatrizar à força; é uma trégua para que determinadas sociedades possam continuar fluindo e as pessoas vivendo seus cotidianos. Assim, a anistia, segundo a proposta de Ricœur, seria o esquecimento imposto, uma amnésia coletiva, que impede uma reelaboração do passado. A anistia impediria o perdão. Para haver perdão, é preciso extrair mágoas. Portanto, só a narrativa e a memória permitem o perdão.

Em síntese, de acordo com a ideia cristã inicialmente proposta por Desmond Tutu e aprofundada filsoficamente por Paul Ricoeur, a anistia é uma decisão política de impor o esquecimento coletivo sobre determinados assuntos. Já o perdão é uma decisão emocional exclusivamente individual, que guarda uma relação intrínseca com a memória.


O passado nunca está morto

Antes de Ricœur, Hannah Arendt já reivindicava a importância de questões como memória, esquecimento e perdão na vida pública. Quando teceu A Condição Humana, em 1958, lembrou no capítulo “A irreversibilidade e o poder de perdoarque haveria o efeito político do perdão. Depois trataria do mesmo assunto na obra Eichmann em Jerusalém. Arendt tece considerações fortes sobre aquilo que ela diz ser possível, caso haja a possibilidade de punir. Não haveria perdão sem punição, porém o ato de perdoar serviria para desfazer as coisas do passado.

Em seus textos mais recentes, das décadas de 1960 e 1970, ela discute questões como valores permanentes, o certo e o errado, o passado e o presente, a memória e o esquecimento, a culpa e o silêncio, responsabilidade e julgamento dos agentes do Estado por crimes políticos. Ou seja, nesses últimos escritos, Arendt tinha a intenção de salvar os fenômenos morais e, citando uma célebre frase de William Faulkner, mostrar ao mesmo tempo em que “o passado nunca está morto, nem sequer é passado”. Arendt:

“Em outras palavras, é bem verdade que o passado nos assombra; é função do passado assombrar a nós que somos presentes e queremos viver no mundo como ele realmente é, isto é, como se tornou o que é agora”.

(Hugo Studart)

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Ações da esquerda armada endureceram regime militar, diz professor https://hugostudart.com.br/2019/04/05/acoes-da-esquerda-armada-endureceram-regime-militar-diz-professor/ https://hugostudart.com.br/2019/04/05/acoes-da-esquerda-armada-endureceram-regime-militar-diz-professor/#respond Fri, 05 Apr 2019 17:43:40 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50127 Historiador lembra que PC do B foi fundado contra Goulart em 1962, dois anos antes de sua queda, e acha que redemocratização resultou da luta pacífica dos civis

Por José Nêumanne, publicado no jornal Estadão

Hugo Studart, autor do livro Borboletas e Lobisomens, revelou que, ao contrário do que se propalou, a esquerda armada não reagiu ao endurecimento do regime militar, mas o contrário. Segundo ele, “o Partido Comunista do Brasil, o PC do B, foi fundado em 1962, em pleno governo democrático de João Goulart, com um programa-manifesto que denunciava o governo burguês de Jango e pregava a luta armada contra ele”. Na edição desta semana da série Nêumanne Entrevista, ele lembrou que “o PC do B enviou seus primeiro militantes para treinamento na Academia Militar de Pequim em fevereiro de 1964, ainda no governou de Goulart, com o objetivo de pegar em armas contra a democracia. Observando o outrora com os olhos de agora, dá para concluir que as organizações da luta armada foram vetores importantes para o endurecimento do regime e a instauração da ditadura militar. E que foi a luta pacífica sob a égide do MDB de Ulysses Guimarães e do Partido Comunista Brasileiro, o velho Partidão, a principal responsável pela redemocratização”. Nas suas contas, na luta militantes de esquerda mataram de 140 a 150 militares, civis e companheiros “justiçados”  e os militares, cerca de 350 guerrilheiros de esquerda.

Hugo, com orientandas na Universidade Católica de Brasília, que lhe davam cartaz por ele já ter trabalhado em redações. Foto: Acervo pessoal

O historiador Hugo Studart tem protagonizado um fenômeno curioso diante da atual conjuntura política brasileira, tomada pelo radicalismo ideológico entre extrema direita e extrema esquerda, em que os dois lados tentam distorcer o passado e recontá-lo segundo as conveniências do presente: o equilíbrio na busca pela verdade histórica. Seu livro mais recente, Borboletas e Lobisomens – Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia (Francisco Alves Editora), lançado em outubro passado em São Paulo, é um exemplo desse equilíbrio. Por conta dos segredos incômodos que revelou sobre o modo como o Exército exterminou os guerrilheiros, tem provocado reação da direita mais extremada. Paradoxalmente, vêm da extrema esquerda as reações mais violentas – manifestos, atos públicos de repúdio e até piquetes contra os lançamentos – por causa de segredos que os comunistas vinham tentando manter ocultos. A obra, um calhamaço fundamentado em mais de 15 mil páginas de documentos secretos da ditadura e em quase 150 depoimentos orais de sobreviventes, de guerrilheiros, em apenas três meses chegou à terceira edição. Seu livro anterior, A Lei da Selva, no qual revela as estratégias militares na guerrilha do Araguaia, é recordista como referência no livro oficial do governo brasileiro sobre mortos e desaparecidos no regime militar, Direito à Memória e à Verdade, com 53 citações em verbetes, e é apresentado como obra referência pelas bibliotecas de 22 universidades estrangeiras, como Harvard, Yale e Princeton, nos Estados Unidos, e Cambridge, na Inglaterra. Jornalista investigativo ao longo de quase 30 anos, Studart atuou como repórter, editor, colunista e diretor nos principais veículos do País, como O Estado de S. PauloFolha de S.PauloVeja IstoÉ. Também recebeu prêmios como o Esso e o Abril de Jornalismo e Wladimir Herzog de Direitos Humanos. Em determinado momento, foi migrando de jornalista para professor e historiador. Detentor do título de doutor em História pela Universidade de Brasília, atuou como professor de instituições como Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, Universidade Católica de Brasília, Ibmec e, atualmente, é professor convidado da UnB, onde ministra o curso de História da Ditadura e da Luta Armada no Brasil. É, ainda, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia de Letras de Brasília.

Nêumanne entrevista Hugo Studart

Hugo com a filha Natasha no lançamento de Borboletas e Lobisomens em Brasília. Foto: Acervo pessoal

Nêumanne – O que o levou a deixar o jornalismo profissional para se dedicar à carreira acadêmica?

Hugo – Parte de nossa vida é traçada pelas escolhas puramente humanas, aquela máxima “aqui se planta, aqui se colhe”. Outra parte, acredito, faz parte do Destino. Tempos atrás eu trabalhava como diretor de uma grande empresa de conteúdo digital. Então a bolha da internet estourou e voltei desempregado para Brasília. Um antigo professor da universidade me deu emprego de professor numa faculdade privada. Descobri que a sala de aula é uma paixão profunda, glutona. Então fui terminar meu mestrado e fazer o doutorado como requisitos. Optei pela História, e não pela comunicação, que seria o caminho natural. Foi nesse momento que também descobri a paixão pela História, algo de infância, mas que havia sido adormecido pelo jornalismo. Por mais de dez anos busquei conciliar jornalismo com sala de aula. Houve um momento em que optei por entrar por inteiro na História e na vida de professor. Acredito que seja o Destino traçando meu rumo.

Para ver Hugo em Conversa com Bial clique aqui

N – Qual é a diferença fundamental que encontrou entre testemunhar e relatar acontecimentos e entrevistar personagens e pesquisar documentos e buscar testemunhos vivos para resgatar momentos mais obscuros no tempo?

H – Costumo instigar meus alunos a buscar um diálogo entre jornalismo e História fazendo uso de uma expressão do filósofo Walter Benjamin: o jornalismo é a História do agora, da mesma forma que a História é o jornalismo sobre o outrora. Só se consegue fazer jornalismo interpretativo se houver o entendimento do passado, ou seja, quanto mais amplo e profundo o conhecimento histórico, melhores são a compreensão do presente e a prospecção do futuro. Além disso, a metodologia e a pesquisa do jornalismo são muito mais dinâmicas, eficientes e consolidadas que as da História. Para se ter ideia, o jornalismo reconhece a validade das entrevistas orais desde o início do século 19, enquanto na História ainda é forte a resistência aos testemunhos e grande o fetiche por documentos, documentos esses quase sempre forjados e conjurados, jamais precisos. Enfim, a pesquisa histórica ainda tem muito a aprender com a apuração jornalística, da mesma forma que o jornalismo precisa da História para compreender o presente e analisar as perspectivas futuras.

Hugo com Jadiel Camelo, parceiro na pesquisa de campo feita no território da guerrilha no Araguaia. Foto: Acervo pessoal

N – O que despertou seu interesse na história trágica da guerrilha rural do PC do B na região do Araguaia, em plena guerra suja travada pelos grupos armados de esquerda contra as Forças Armadas do Estado brasileiro, naquela conturbada segunda metade do século 20? E o que têm que ver borboletas e lobisomens com isso tudo?

H – Eu estava apurando, como jornalista, a morte da guerrilheira urbana Iara Iavelberg, que era amante do capitão guerrilheiro Carlos Lamarca, quando cheguei a um coronel que resguardava em casa um acervo fantástico de documentos do Araguaia. Foi então que comecei a pesquisar sobre o tema, ainda em 1998. Mais tarde, ao entrar para o mestrado em História pela Universidade de Brasília (UnB), optei pelo tema, tendo como corte pesquisar como os militares conseguiram derrotar a guerrilha rural. A dissertação virou livro, A Lei da Selva, que foi muito premiado na época e acabou sendo adotado como livro-referência por 22 universidades estrangeiras, como Harvard, Yale e Princeton, nos Estados Unidos, e Cambridge, na Inglaterra. No caso do livro Borboletas e Lobisomens – Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia, ele é produto da minha tese de doutorado, também pela UnB. A ideia era tecer um díptico, como duas tábuas independentes que formam um quadro só. A Lei da Selva trata da guerrilha sob o ponto de vista dos militares. Já em Borboletas e Lobisomens os guerrilheiros são os protagonistas da mesma história.

Hugo com o livro Borboletas e Lobisomens, sucesso literário e acadêmico, editado pela Francisco Alves, no lançamento em Brasília. Foto: Acervo pessoal

N – Como o senhor conseguiu pistas para abordar um assunto polêmico e guardado sob sete capas, por um lado, e oculto por trás de uma cortina de mistificação ideológica, por outro?

H – É um fato curioso que, terminada a guerrilha, nem os militares revelaram como venceram, nem o PC do B contou como perdeu. O partido só começou sua abertura a partir de 1996, ainda assim de forma lenta, segura e gradual, revelando seus arquivos somente para historiadores ideologicamente confiáveis (para eles, é claro). Paradoxalmente, as principais revelações estão vindo de militares. Desde a virada do ano 2000, uma dúzia de militares já abriu seus acervos privados para pesquisadores e jornalistas, como é o caso do coronel Lício Maciel. Ou ainda escreveram seus próprios livros, como no caso do coronel Djalma Madruga. Da minha parte, consegui que o então ministro da Defesa Nélson Jobim permitisse o acesso aos arquivos secretos do antigo SNI (Serviço Nacional de Informações) e do Cisa (Centro de Informações da Aeronáutica). Mas os melhores documentos ainda são os revelados pelos acervos privados de militares. Acabei conseguindo reunir um acervo entre 15 mil e 20 mil páginas de documentos secretos, que fundamentaram minhas pesquisas.

Hugo na sala de aula na UnB com colegas, ambiente pelo qual trocou as redações dos periódicos em que trabalhou. Foto: Acervo pessoal

5 – Quais foram os maiores obstáculos que encontrou para conseguir as informações de que precisava para pintar o retrato exaustivo e completo que terminou por conseguir fazer?

H – Outro paradoxo é que, apesar de existirem milhares de páginas de documentos disponíveis, a quase totalidade deles tem pouca serventia. Há um mito muito grande em torno desses tais documentos secretos da ditadura. Não há grandes revelações nesses papéis, mas fragmentos dispersos, como cacos de cerâmica da arqueologia que necessitam de uma boa interpretação para deles se extrair alguma informação interessante. Enfim, esses documentos apontam pistas e indícios de fragmentos de História. Esse foi o maior obstáculo, a imprecisão documental sobre fatos realmente relevantes, apesar de o acervo disponível ser enorme. Contornei os obstáculos com a experiência de repórter investigativo, recorrendo a depoimentos orais de militares, de guerrilheiros sobreviventes e de moradores da região. Só assim foi possível  tecer uma boa trama histórica.

Hugo na reserva indígena Sororó, na região da guerrilha do PC do B no Araguaia. Foto: Acervo pessoal

N – O que aproveitou de sua experiência de repórter no trabalho de campo de sua pesquisa e que vícios da imprensa o atrapalharam no mesmo mister?

H – Sem dúvida, foi a experiência das entrevistas orais que mais me ajudou, as técnicas e a experiência na abordagem e na persuasão das fontes. Não é fácil convencer um militar, há 40 anos em obsequioso silêncio, a revelar em detalhes como torturou e matou um guerrilheiro. E consegui inúmeros relatos na primeira pessoa do singular, usando como metodologia revelar o nome daqueles que eram oficiais, mas preservando sigilo dos subalternos que apenas cumpriam ordens. Um caso bem difícil, presente em Borboletas e Lobisomens, foi o relato de um militar sobre como executou a guerrilheira Áurea Elisa Valadão. Havia bem uns dez anos que mantínhamos contatos periódicos, mas ele não me havia contado nada. Eu estava atrás dos chamados mortos-vivos, os guerrilheiros que fizeram delação premiada e trocaram de identidade. Sabia que havia uma mulher, mas não quem. Um dia, saindo da aula na universidade, apareci de surpresa na casa desse militar. Ele me recebeu no portão. Fui logo dizendo: “Hoje você vai cantar”. Essa expressão era usada pelo pessoal da repressão que interrogava prisioneiros, significa falar, contar o que sabe. “Tem uns dez anos que almoçamos na churrascaria Pampa, tomamos muito uísque e até agora você não me contou nada. Fulano já cantou, sicrano já cantou, só falta você”. Ele baixou a cabeça e me mandou entrar. Tomamos umas quatro ou cinco doses de uísque falando banalidades. Mais de uma hora depois, ele me chamou para um quarto reservado e perguntou: “O que você quer saber?”. Comecei a perguntar e ele a responder. Foi o depoimento mais revelador e surpreendente de todos. Só um repórter investigativo teria conseguido estabelecer a empatia necessária. Se eu tivesse chegado com gravador e questionário, como ensinam as técnicas rígidas da história oral, teria sido rechaçado.

Para ver entrevista de Hugo para Augusto Nunes clique aqui

N – Concluído seu livro de 858 páginas, um portento, quais são as suas conclusões pessoais a respeito da contribuição dos grupos armados da esquerda para o recrudescimento da repressão do regime autoritário ou a reconstrução da democracia, tal como foi empreendida depois de esmagado militarmente o movimento?

H – Se me permite uma retificação, a tese de doutorado é que tem esse absurdo de páginas. O livro tem apenas 660 páginas, bem mais leve, pois extraí muita citação teórica e diálogo acadêmico com pena dos leitores. Sobre a pergunta em si, lembro que o marco inicial da luta armada é o atentado ao Aeroporto de Guararapes, no Recife, em julho de 1966, que pretendia matar o então ministro da Guerra, Arthur da Costa e Silva, mas acabou matando dois inocentes e ferindo 14 pessoas. Foi um desastre sob o ponto de vista político e histórico. O presidente Castelo Branco era um democrata moderado, tão moderado que hoje seria do DEM. Ainda era um regime civil-militar, com viés autoritário, mas que poderia verter para a democracia liberal plena. Mas aquele atentado provocou a ascensão da linha dura militar ao poder. Ato contínuo, começaram a proliferar novas organizações da luta armada, como a ALN (Ação Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, e a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), do capitão Carlos Lamarca, com atentados terroristas. Os generais foram reagindo com o endurecimento, até a instauração do regime autocrático, a ditadura pura e simples, a partir do AI-5 (Ato Institucional n.º 5). A esquerda alega hoje que pegou em armas como reação à ditadura, tese essa inicialmente apresentada pelo historiador Jacob Gorender. Contudo outros historiadores, como Daniel Aarão Reis e Luís Mir, apresentam a tese de que o projeto da luta armada é anterior e quase nada tem que ver com o movimento de 1964. Ou seja, que os guerrilheiros não eram reacionários, mas, sim, protagonista daquele tempo, reacionários eram os militares. Alinho-me a essa tese, tanto que o Partido Comunista do Brasil, o PC do B, foi fundado em 1962, em pleno governo democrático de João Goulart, com um programa-manifesto que denunciava o governo burguês de Jango e pregava a luta armada contra ele. Lembro que o PC do B enviou seus primeiro militantes para treinamento na Academia Militar de Pequim em fevereiro de 1964, ainda no governou de Goulart, com o objetivo de pegar em armas contra a democracia. Observando o outrora com os olhos de agora, dá para concluir que as organizações da luta armadas foram vetores importantes para o endurecimento do regime e a instauração da ditadura militar. E que foi a luta pacífica sob a égide do MDB de Ulysses Guimarães e do Partido Comunista Brasileiro, o velho Partidão, a principal responsável pela redemocratização.

Hugo autografa seu livro sobre guerrilha, alvo de protesto veementes dos dois lados da luta. Foto: Acervo pessoal

N – Até que ponto, a seu ver, a experiência amarga do campo de batalha inóspito levou as Forças Armadas, em geral, e o Exército Brasileiro, em particular, a adotarem a sábia, sensata e prudente atitude de garantia da ordem no Estado de Direito, papel fundamental, segundo o testemunho do mais lúcido sobrevivente desse entrevero, o jornalista e político Fernando Gabeira, em sua colaboração nos meios de comunicação?

H – É pacífico que as Forças Armadas, vitoriosas no campo de batalha, perderam a guerra da História para aquilo que os militares chamam hoje de guerra cultural, ou guerra de narrativas. Aliás, eles foram e ainda estão sendo massacrados pelas esquerdas nos campos da cultura, educação, comunicação e diretos humanos. Os militares estavam desde 1985 aquietados nos quartéis, em silêncio obsequioso, batendo continência aos civis, inclusive a comunistas como Aldo Rebello, do PC do B, que foi ministro da Defesa. Até que apareceu o fenômeno Bolsonaro e eles retornaram à ribalta. Mas, conforme suas palavras, Nêumanne, eles permanecem adotando a sábia, sensata e prudente atitude de garantia da ordem no Estado de Direito. É público que, no meio do caminho, se cogitou de três golpes de Estado, sendo um deles um golpe jurídico. O primeiro foi quando a então presidente Dilma propôs ao general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, a decretação do estado de defesa para impedir a votação do impeachment. Depois o mesmo Villas Bôas impediu que o Supremo libertasse Lula, o que provocaria uma convulsão social com desfecho imprevisível. Por fim, por ocasião do atentado ao candidato Jair Bolsonaro, ele segurou o ímpeto das tropas de virar a mesa. Por isso Villas Bôas é tão festejado como um fiador da democracia. Mas ele não é voz isolada, ao contrário, representa a opinião hegemônica das Forças Armadas nessa opção sábia, sensata e prudente de se perfilar pela garantia da ordem no Estado de Direito, como bem observou Gabeira.

Hugo com mascote da Brigada de Infantaria na Selva em Marabá, capital da guerrilha, durante viagem de pesquisa historiográfica. Foto: Teresa Sobreira

N – Como o senhor observa e interpreta a tentativa nostálgica, que os historiadores chamam de “retrotopia”, de reescrever a experiência dramática daqueles anos, enfrentando a historiografia reconhecida, tida pelos novos ocupantes do poder na República como crônica fictícia dos derrotados, sob a égide de Jair Bolsonaro, negando o golpe de Estado e a natureza ditatorial do regime militar?

H – É de George Orwell a máxima: “Quem controla o passado controla o futuro, quem controla o presente controla o passado”. Bolsonaro dá mostras explícitas de profunda preocupação pela reconquista dos corações e mentes dos brasileiros por meio da hegemonia na cultura, na educação e na comunicação, aquele projeto de Gramsci ao qual o presidente tanto se refere com ojeriza. Avalio, contudo, que não seja uma boa estratégias essa opção pela negação, muito menos pela reinterpretação histórica, como essa do chanceler Ernesto Araújo de dizer que o nazismo seria de esquerda. Se Bolsonaro quiser “controlar o passado”, conforme a expressão de Orwell, o melhor caminho me parece ser encarar uma nova Comissão da Verdade, contabilizando as vítimas dos dois lados da luta. É quase certo que acabe chegando a uma conta próxima a 140 ou 150 vítimas na esquerda, ante 350 vítimas entre militares. Se quiser mesmo ganhar a guerra de narrativas e a hegemonia cultural, o presidente vai precisar implementar projetos consistentes na educação, na cultura e na comunicação.

Hugo com Ena Galvão, confreira na Academia de Letras de Brasília, na livraria.Foto: Acervo pessoal

N – O senhor se surpreendeu com a reação indignada dos que se sentiram traídos por seu trabalho imparcial, e, a partir de sua experiência nesse campo, o senhor está disposto a relatar a nossos leitores quais poderão vir a ser, a seu ver, as consequências da guerra ideológica que pode vir a ser travada nos câmpus universitários e no ambiente da educação em geral, no Brasil, neste momento em que a saída do estágio de indigência total dos níveis de ensino é comprometida pela resistência da esquerda e da direita, incapazes de abrir mão de seus mitos para o cumprimento do papel basilar do Estado e dos educadores em sua missão de lecionar e preparar as gerações do futuro para lhe darem acesso a uma sociedade civilizada?

H – De fato, houve uma forte reação negativa da parte do PC do B contra meu trabalho, tanto que eles já divulgaram 23 manifestos, mais de quatro horas de gravação e fizeram quatro atos públicos de repúdio, incluindo um piquete contra o lançamento do livro no Rio de Janeiro. A razão? Ora, ousei revelar alguns fatos incômodos à narrativa do partido, como a existência dos mortos-vivos, aqueles que fizeram delação premiada e trocaram de identidade, ou a existência de uma guerrilheira infiltrada que foi responsável por pelo menos cinco mortes, mas hoje ocupa posição de relevo na hierarquia do Grupo Tortura Nunca Mais. Por outro lado, revelei detalhes de 22 execuções de prisioneiros pelos militares. Busquei ser equilibrado, jamais neutro. É justamente isso que está faltando nas universidades brasileiras, equilíbrio e sensatez intelectual, sobretudo a convivência pacífica com a diversidade de ideias. Mas isso não deve acontecer tão cedo. As universidades tendem a virar uma espécie de bunker da resistência da esquerda a este governo, talvez até do próximo. Desde os anos 80, a universidade brasileira vive a era do pensamento único. A bibliografia hegemônica e, por vezes, absoluta em alguns campos do pensamento oscila entre autores marxistas e estruturalistas. Foram praticamente banidos os pensadores da liberdade e da democracia. Nem me refiro aos conversadores ou aos de direita, mas aos liberais. De uns tempos para cá, muitos estudantes universitários observam que há uma dissonância entre a realidade do mundo e o que apregoam os livros e os professores. Mas não têm contraponto bibliográfico, não têm outras referências que os auxiliem a formar outro ponto de vista. Então acabam caindo no niilismo. O mesmo fenômeno ocorre no ensino básico. Foram banidos dos currículos escolares todos os clássicos da literatura, sobretudo os autores e obras que tratam dos conceitos de povo brasileiro e de Nação brasileira, como Monteiro Lobato, Machado de Assis, Érico Veríssimo e, no caso das universidades, Gilberto Freyre e até Darcy Ribeiro. Simplesmente foram banidos. Não adianta enviar memorando às escolas mandando cantar o Hino Nacional. Precisa é lembrar que, como ensinou Lobato, “um país se faz com homens e livros”. Se Bolsonaro e seus generais quiserem de fato vencer a tal guerra cultural, precisam enviar Machado e Veríssimo às escolas. O resto é consequência. E não adianta esperar resultados imediatos, são árvores que vão demorar umas três décadas para dar frutos.

No Araguaia, Hugo tentou entender por que, “terminada a guerrilha, nem os militares revelaram como venceram, nem o PC do B contou como perdeu”. Foto: Acervo pessoal
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Hugo Studart, objeto de estudo https://hugostudart.com.br/2019/04/05/hugo-studart-objeto-de-estudo/ https://hugostudart.com.br/2019/04/05/hugo-studart-objeto-de-estudo/#respond Fri, 05 Apr 2019 16:12:55 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50124 Vocês podem não acreditar, mas eu fui objeto de uma tese de doutorado da UnB. A doutora Maria Mônica Pinheiro Cavalcanti resolveu estudar como emerge a criatividade profissional. Então elegeu dois casos. Minha cabeça foi escarafunchada, meus escritos e minha história de vida, meus impactos emocionais diante os momentos de vida que geraram produções significativas. Dra. Mônica defendeu a tese “O desenvolvimento da criatividade profissional: compreensões possíveis na perspectiva da subjetividade”, na Faculdade de Educação da UnB. Acabo de ser presenteado com um exemplar. Com direito a estojo de marcação com caneta de ponta de pérola.

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1964-1985: O SALDO DO FRATRICÍDIO https://hugostudart.com.br/2019/04/01/1964-1985-o-saldo-do-fratricidio/ https://hugostudart.com.br/2019/04/01/1964-1985-o-saldo-do-fratricidio/#respond Mon, 01 Apr 2019 20:10:20 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50117 Entre 1985 e 2014 ocorram três esforços concentrados de inventariar os mortos e desaparecidos da ditadura militar. A cada nova contagem apresentada pelos partidos e grupos de esquerda, os militares reagiram apresentando novas listagens das vítimas do terrorismo, ao qual tratarei abaixo por vítimas das esquerdas:

1º INVENTÁRIO

Projeto Brasil: Nunca Mais (1985)
301 vítimas da repressão militar
99 vítimas das esquerdas

2º INVENTÁRIO

Direito à Memória e à Verdade (2007)
357 vítimas da repressão militar
117 vítimas das esquerdas

3º INVENTÁRIO

Comissão Nacional da Verdade (2014)
434 vítimas da repressão militar
127 vítimas da esquerda

OBSERVAÇÕES
1) Avalio que tanto a contagem das esquerdas quanto a dos militares contenham imprecisões e demandem atualizações.

2) Há exageros gritantes nas contas da Comissão Nacional da Verdade, (CNV). Me parece que o inventário de 2007, promovido pelo Secretário de Direitos Humanos do governo Lula, Paulo Vannuchi, seja o mais próximo da realidade, ainda assim com alguns exageros, como a inclusão do Frei Tito que suicidou-se em 1981, em Paris, quase três anos depois da Anistia e da volta dos exilados; ou de uma menina de 17 anos que se entregou em paixão a um militante de esquerda, ele caiu na clandestinidade logo depois e ela entrou em depressão profunda até falecer no hospital.

3) Lembro que o livro Borboletas e Lobisomens – Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia, de minha autoria, fundamentado na pesquisa de cerca de 15 mil páginas de documentos, desvela novas mortes (ou sobrevivências) de guerrilheiros, de militares e de camponeses que altera essas contas. Assim, a pesquisa aponta que, dos 5 guerrilheiros desaparecidos na guerrilha rural, 29 tombaram em confronto na mata, 22 foram executados, um foi justiçado pelos próprios companheiros e sete fizeram delação premiada e sobreviveram com novas identidades. São os chamados “mortos vivos”. Também informa sobre pelo menos 10 moradores da região mortos pelos militares e cinco pelos guerrilheiros. Por fim, 10 soldados mortos pelos guerrilheiros.

4) Dessa forma, deve-se tirar oito guerrilheiros da conta dos militares e acrescentar 10 camponeses. Igualmente, deve-se acrescentar um companheiro, cinco camponeses e 10 militares na conta das esquerdas.

5) Em síntese, o saldo fratricídio mais próximo à realidade seria:
358 vítimas dos militares
143 vítimas das organizações da esquerda
Total: cerca de 500 vítimas dois dois lados da luta
2,5 vítimas dos militares para casa 1,0 das esquerdas

6) Se o Exército abrir os chamados mortos-vivos da guerrilha urbana, ou seja, cerca de 30 desaparecidos que teriam feito delação premiada e trocado de identidade (um segredo de Polichinelo que não interessa a nenhum dos lados mexer), essa conta pode chegar a cerca de 320 x 145 (em números arredondados), um saldo de 465 vítimas (de ambos os lados), ou ou 22 vítimas por ano daquela loucura ideológica ocorrida entre 1964 e 1985.

Eis minha contribuição ao debate.
(Hugo Studart)

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Curso História da Ditadura Militar no Brasil https://hugostudart.com.br/2019/04/01/curso-historia-da-ditadura-militar-no-brasil/ https://hugostudart.com.br/2019/04/01/curso-historia-da-ditadura-militar-no-brasil/#respond Mon, 01 Apr 2019 03:49:24 +0000 https://hugostudart.com.br/?p=50106 Iniciada o curso da História da Ditadura Militar no Brasil. As aulas ocorrem sempre às terças -feiras no turno noturno na Faculdade de História da Universidade de Brasília (UnB).

O curso ocorre  de 19 de março à 12 de julho de 2019.

 

 

 

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A prisão de Temer e o Espírito do Tempo https://hugostudart.com.br/2019/03/21/o-espirito-do-tempo/ https://hugostudart.com.br/2019/03/21/o-espirito-do-tempo/#respond Thu, 21 Mar 2019 17:51:38 +0000 http://hugostudart.com.br/?p=50094 Uma presidenta impichada

Dois ex-presidentes presos

Quatro ex-governadores presos Dezenas de deputados e senadores presos

Centenas de empresários e grandes executivos presos

Um outsider eleito

As massas exigindo ministros do Supremo presos O fenômeno foi chamado por Hegel de Espírito do Tempo. Não há como escapar do curso dos grandes acontecimentos da História.

 

Hugo Studart

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Afinal, 1964 instaurou um regime militar? https://hugostudart.com.br/2019/03/21/golpe-ou-contragolpe-um-das-questoes-dos-debates-das-redes-sociais/ https://hugostudart.com.br/2019/03/21/golpe-ou-contragolpe-um-das-questoes-dos-debates-das-redes-sociais/#respond Thu, 21 Mar 2019 17:44:34 +0000 http://hugostudart.com.br/?p=50086 O uso da expressão “ditadura militar” ao invés de “regime militar”  virou um dos temss favoritos de discussão nas redes sociais. Afinal foi “ditadura” ou “regime”, se foi “golpe” ou “contragolpe”? Podemos dividir o período em três fases bem distintas:

GOLPE OU CONTRAGOLPE? – Há indícios de que João Goulart planejava dar um golpe de Estado a 1º de Maio de 1964, instaurando uma uma república socialista. Se algum dia a hipótese vier a ser comprovada documentalmente, significa que Jango iria dar o golpe e a reação militar foi contragolpe. Até lá, devemos permanecer com o senso comum de golpe.

REGIME CIVIL-MILITAR – A expressão “civil-militar” foi criada pelo brazilianist René Dreifuss na obra “1964: A conquista do Estado”. A história é a seguinte: depois que o general Mourão entrou com suas tropas no Rio de Janeiro e o presidente João Goulart fugiu para São Borja, RS, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presidência da República (com o presidente dentro do Brasil). Ato contínuo, instalou na Presidência o deputado Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara. Nesse caso, foi um golpe civil, que por uns 20 anos se autodeclarava “Revolução”. Em 11 de abril, o Congresso Nacional elegeu indiretamente o marechal Castelo Branco, que já estava na reserva, portanto, era quase um civil. Castelo, um liberal clássico e moderado, tomou posse a 15 de abril, dando início ao “Regime Civil-Militar”, com Executivo forte, Legislativo fraco e Judiciário tendendo à independência.

DITADURA MILITAR – A partir de julho de 1966, com o atentado terrorista ao Aeroporto de Guararapes, Recife, a linha dura militar vai tomando conta do governo. O regime autocrático, ou seja, a ditadura descarada, tem início a 13 de dezembro de 1968, com a assinatura do AI-5, que suspendeu as garantias constitucionais, como o habeas corpus, e instaurou medidas ditatoriais como a censura à imprensa, a cassação de opositores políticos e, pior, a tortura e morte dos militantes da luta armada. Os últimos atos da ditadura foram a morte sob tortura do jornalista Vladimir Herzog, em setembro de 1975, e logo depois do operário Manoel Fiel Filho, em janeiro 76.

ABERTURA – A partir da morte de Fiel, o presidente Ernesto Geisel começa a enquadrar a linha dura militar e a promover a “abertura lenta, segura e gradual”, segundo suas palavras. Ainda ocorreram alguns retrocessos, como o pacote político de abril de 77, que criou os senadores biônicos (indicados). Geisel escolheu como sucessor um general comprometido com a redemocratização, João Figueiredo, que promoveu a Anistia e as eleições livres para governador, mas fez tudo para evitar as eleições presidenciais diretas. Ao fim e ao cabo, Figueiredo recusou-se a entregar a faixa presidencial para o senador José Sarney e deixou o palácio pela porta dos fundos.

Em conclusão, o Regime iniciado em 1964 não foi monolítico, precisando ser compreendido por três fases bem distintas: civil-militar, ditadura militar, abertura e redemocratização.

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