Lembro, preliminarmente, que a expressão “terceira via” vem sendo usada pelo centro liberal moderado, também chamado de establishment ou esquemão político, como reação aos tempos de radicalização.

A eleição de 1989, por exemplo, começou com o radical Leonel Brizola com mais de 60% das intenções de votos. Discutia-se quem seria o sparring de Brizola, se o doutor Ulysses, Aureliano Chaves ou Jânio Quadros, pois 110% dos analistas acreditavam que aquela ainda seria uma eleição da velha geração. Em março, um outsider doidivanas, governador da pequena Alagoas, pontuou no patamar de 5%, se não me engano. Em abril, dobrou para o patamar de 10% (a conferir, escrevo de memória). Aí foi subindo, subindo… e a eleição radicalizou entre o esquerdista Brizola e o outsider de ultra liberal Collor, estigmatizado como de ultra direita. O establishment passou então a discutir a “terceira via”. Guilherme Afif apresentou-se, inventaram a eleição de Silvio Santos… até que fecharam acordo com Mário Covas, que em fins de setembro lançou seu Manifesto do Capitalismo, redigido pelo lobista Jorge Serpa na mesa de trabalho de Roberto Marinho, com o dono da Globo e o candidato Covas assistindo ao escrevinhar. A “terceira via” Covas terminou bem, em quarto lugar. Mas não foi para o segundo turno. Brizola, por sua vez, perdeu a vaga para Lula faltando dois ou três dias para as eleições — talvez até mesmo na véspera, sábado.

A eleição de 1994, por sua vez, começou com Lula também com mais de 60% das intenções de votos. Ninguém queria ser o sparring do petista. Até que entre maio e junho arrumaram uma “segunda via”. Fernando Henrique era ministro da Fazenda e havia lançado mais um plano econômico que, à primeira vista, parecia absolutamente maluco, com uma tal de URV e umas tabelas que ninguém entendia. Seu problema é que não tinha a menor chance de ser reeleito senador por São Paulo e, pior, teria grandes dificuldades de virar deputado federal. Topou e foi lançado em junho. Em agosto, a tal URV virou Real, moeda forte, mais forte que o dólar. 1 real comprava 1 kg de frango.  Foi assim que o candidato do establishment levou no primeiro turno.

A eleição de 1998 foi barbada. Em 2002, Lula conseguiu se viabilizar como candidato oculto do presidente FHC, que traiu Serra, que era odiado pelos industriais e pelo mercado financeiro. O establishment então fechou acordo de convivência com o pragmático Lula.

Pulemos para 2018. Tal qual 1989, o pleito radicalizou com direita vs esquerda, sendo o candidato de direita um outsider doidivanas, sem partido e sem tempo na TV, tal qual Fernando Collor. Em março, Jair Bolsonaro estava no patamar de 5%. Em junho, com a Convenção que ungiu o general Mourão seu vice, dobrou para o patamar de 10%. Foi subindo e disparou depois da facada. O establishment fez de tudo para arrumar uma “terceira via”. Encontraram o doce e meigo governador Geraldo Alckmin. Todos os partidos que interessavam então cerraram fileiras com a “terceira via”. Alckmin tinha toda a prefeitada, hegemonia de deputados estaduais e federais e 2/3 do tempo na TV, cerca de 20 minutos. Terminou com menos de 5%.

Há fortes possibilidades da eleição de 2022 ser um misto dos pleitos de 1989 com 2018. Começa radicalizada. E o centro liberal, o establishment, apavorado e buscando uma tal “terceira via”. Só que não teremos apenas três candidatos, em hipótese alguma, mas uma dezena de nomes. Esse “terceira via” deverá ter uma grande malha de partidos políticos e grande tempo na TV. Pode até ser eleito. Contudo, o mais provável é que o candidato do esquemão termine como Alckmin. 

Se houver nome novo, deverá ser um outsider, como Collor e Bolsonaro, a surgir no firmamento lá por abril ou maio de 2022.  Se uma onda se formar, a tal “vontade geral”, parafraseando Rousseau, deverá aparecer depois de maio ou junho. Quem será esse nome? Ainda não conhecemos. As pesquisas qualitativas apontam apenas para um viés conservador. E para uma “grande mãe” (ou grande pai) que abrace com empatias os cerca de 30 milhões de desempregados, miseráveis e famintos que estarão vagando pelas ruas das grandes cidades.

É o que penso por ora. Mas política é como nuvem, cada hora está de um jeito…