* Texto escrito em 2018.

 

O jornalista Cláudio Camargo reclama da desinformação (ou informação pela metade) no obituário de Agildo Ribeiro. O JN de sábado dizia simplesmente que ele era “filho de militar”. Ora, lembra Cláudio Camargo, “Agildo Barata foi um dos tenentes liderados por Juarez Távora, participando ativamente das revoluções de 1930 e 1932. Mas ele se destacaria sobretudo no levante comunista de 1935 realizado no 3º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro, na Praia Vermelha. Ficou preso por dez anos e em 1947 se elegeu vereador pelo PCB do RJ. Rompeu com o Partidão em 1956, depois das denúncias dos crimes de Stalin, e morreu em 1968. Será que não dava para apurar melhor?”

Acrescento:

1) A batalha da Praia Vermelha foi sanguinária, e Agildo Barata Ribeiro foi o comunista que mais se destacaria pela coragem.

2) Depois da Intentona, Agildo foi dado como “morto” pelo Exército.

3) Contudo, sua esposa passou a receber a pensão de “viúva”. E Agildo Barata Ribeiro Filho, assim que teve idade, foi aceito no Colégio Militar do Rio de Janeiro, interno, na condição de “Gratuito Órfão”, com todas as despesas pagas pelo Exército. Ficou interno no CM até o 3º ano científico.

4) Trocando em miúdos, por conta da Intentona, o Exército o deu como “morto”. Contudo, o mesmo Exército amparou sua família por reconhecer e respeitar sua bravura em luta.

5) Na crise do Partidão, resultado da denúncia de Krushov sobre os crimes de Stalin, Agildo Barata foi um dos principais líderes da ala “jovem” que exigia debates. Foi decisivo nas pressões terríveis que levaram Luís Carlos Prestes a rever seus próprios conceitos e abandonar o stalinismo. Tenho um longo texto sobre a participação de Agildo.

Enfim, caros amigos, como bem observa Cláudio Camargo, Agildo Ribeiro não era “filho de militar” — uma banalidade que os jornalistas da Globo levaram ao JN. Era muito mais do que isso.

O grande comediante era, sim, filho de um dos ícones da Nossa Revolução (uso aqui a expressão do mestre Sergio Buarque de Holanda, em Raizes do Brasil, para expressar nosso processo lento e gradual). O pai de Agildo Ribeiro foi um dos ícones do tenentismo. E, simultaneamente, um dos líderes dos comunistas.

No início da vida artística, Agildo optou pelo sobrenome Ribeiro, o mesmo que usava no Colégio Militar. Mas entre 1989 e 1990 protagonizou na TV Manchete o programa “Cabaré do Barata”, decerto uma homenagem ao militar-comunista.

Vá em paz, Agildo Filho, ao encontro do teu pai.

Em tempo: duas informações adicionais que descobri depois de publicar o texto:

1) A rua Barata Ribeiro, que corta Copacabana de ponta a ponta, é uma homenagem a Cândido Barata Ribeiro, médico, senador, líder abolicionista e prefeito do Rio, falecido em 1910. Sempre bem humorado, Agildo Ribeiro gostara de se referir à rua como a “Rua do Vovô”.  Na verdade, era de seu trisavô.

2) General-presidente Ernesto Geisel era muito amigo e colega de Agildo Barata na Escola Militar de Realengo. No ápice da ditadura, em 1968, Geisel foi visitar seu velho amigo um pouco antes de morrer. Sinal claro de que o velho militante comunista sempre foi respeitado pelos colegas do Exército até o fim da vida.