Por: Dario Regoli

Terminei esta semana de reler (isso, reler) as 660 páginas de uma obra prima sobre um dos episódios mais obscuros da história recente do Brasil, a Guerrilha do Araguaia.

Pra quem não sabe, meio século atrás 79 jovens cheios de ideologia foram lançados à própria sorte na floresta amazônica na esperança de promover revoltas populares e instalar uma ditadura do proletariado no Brasil. 59 foram mortos pela repressão política.

Sempre gostei de fuçar a história da ditadura militar brasileira. Em quase 30 anos li dezenas de livros, garimpei centenas de documentos, me enfiei dias a fio em arquivos públicos e escrevi dúzias de matérias sobre esse tema, tanto que me deram até um Vladimir Herzorg.

Ao longo desse tempo, tive o cuidado de buscar narrativas de ambos os lados.

Entre aqueles que chamam 64 de golpe, visitei obras e entrevistei autores como Jacob Gorender, Leandro Konder, Alfredo Sirkis, Audalio Dantas entre outros. Do lado dos que usam a palavra revolução, Claudio Guerra, Brilhante Ustra, Sebastião Curió e mais uma turma da pesada do mesmo naipe.

De tanto pesquisar, hoje ficou difícil acreditar mais neste ou naquele lado.

Talvez por isso que elejo Borboletas e Lobisomens, do colega jornalista Hugo Studart, a obra mais completa e isenta de todas que li até hoje sobre a Guerrilha do Araguaia.

Escrita sem revanchismo, sem paixões, militância ou “viés ideológico”, o livro mostra o quanto esse episódio foi surreal, bizarro, criminoso e patético. Não há mocinhos ou bandidos, só vítimas.

Borboletas e Lobisomens mostra, acima de tudo, como os extremismos podem ser perigosos.

Reler a obra de Studart foi uma maneira de ligar pontos. Me remeteu também a um passado pessoal que poucos conhecem. Servi as Forças Armadas nos estertores da ditadura e durante um período fui lotado na Segunda Seção, o serviço reservado ligado ao CIE, o antigo Centro de Informações do Exército.

Ironicamente, foi na enfadonha rotina de expediente administrativo no QG do Ibirapuera que tive acesso a documentos desse período que o livro trata. Como ainda não imaginava um dia ser jornalista, aquele tesouro histórico na época não passava de papel velho para arquivar sob ordem do tenente ao qual eu, um mero soldado, era subordinado.

Eram diversos relatórios, alguns com carimbo de ‘secreto’.

Lá estavam detalhes sobre a Operação Marajoara e a Primeira Operação Limpeza. Respectivamente, ocorrida no final de 1973 e responsável pela prisão e execução covarde dos últimos guerrilheiros no Araguaia por tropas oficiais; e a segunda, em 1976, a ordem de exumação dos restos mortais desses mesmos “subversivos” (largados em covas rasas na floresta), para que seus ossos fossem incinerados e os vestígios dos excessos cometidos, apagados.

Na papelada havia nomes, datas, informes de execução, locais de desova, etc. E eu sequer me dei ao trabalho de ler, já que estava mais preocupado em saber se ficaria de serviço no fim de semana no quartel limpando banheiro caso não terminasse a “missão arquivo”.

Mal sabia eu que esses documentos poderiam ajudar famílias que até hoje reclamam o paradeiro de seus entes queridos. 

Simplesmente enfiei tudo nas caixas dos escaninhos empoeirados e fim, já que esse era meu trabalho e sobre o qual todo militar da S2 é proibido de comentar ou fazer muitas perguntas.

Soube bem mais tarde que uma segunda Operação Limpeza, ocorrida nos anos 80, deu fim em boa parte desses documentos. Com isso, sem provas documentais, até hoje o Exército nega que tenha havido violação de direitos humanos em Araguaia.

Mas enfim, o que não entendo é como até hoje esse assunto não foi discutido abertamente no país. Impressão é que os dois lados querem que seja esquecido, já que ambos remoem suas culpas.

Temos que falar sobre isso nas escolas. Revelar para essa geração o que aconteceu 50 anos atrás no Sul do Pará.

E contar o porquê de até hoje todos se fazerem desentendidos quando se fala nisso.

Sempre que líderes caolhos, movidos por ideologias extremistas (fardadas ou não) se aproveitam do comportamento cego de massas, alguém lá na ponta vai pagar o preço. E sofrer.

Como sofreram aqueles jovens sem muito juízo mas cheios de ideais que queriam um Brasil mais justo e foram abandonados por seus líderes intelectuais para morrer longe de casa, com medo, doentes, famintos, torturados e fuzilados.

E como viraram vilões os soldados que nem sempre sabiam em quem estavam atirando e o porquê, mas que cumpriam ordens vindas de velhos gagás de quarto estrelas, sentados em gabinetes a centenas de quilômetros dali.

Devem ser julgados pela História aqueles que vivem de teorias reacionárias ou revolucionárias, que gostam de falar alto, mas que na hora que o pau come, fogem para debaixo da cama.

Borboletas e Lobisomens, de Hugo Studart, Editora Francisco Alves. Tem nas americanas.com e custa 79 pilas.