Vou em breve ao Mato Grosso, ainda em junho. Há muito acalendo essa vontade, desde que meu pai, Velho Bugre, faleceu. Brinco que sou sertanejo, pois nasci em Parnamirim, Natal, e minha mãe é cearense. 

Mas também sou da selva!

A família paterna é de Cuiabá e de Cáceres, Pantanal. Por parte da avó, somos descendentes de índios. Muitos pensam que somos bororos, como Rondon. Mas Velho Bugre descobriu há uns três ou quatro anos que somos bakairi. Restam menos de 900 bakairis, concentrados em duas aldeias perto de Cuiabá.  

Meus avós migraram para o Rio de Janeiro quando os filhos mais novos eram crianças ou adolescentes. Foi por lá que estudaram, trabalharam, casaram e criaram seus filhos. Assim, a maior parte dos primos irmãos é carioca, alguns paulistas ou do Mato Grosso do Sul. 

Somos muitos primos, quase 40, mas poucos de nós sabemos algo relevante sobre nossas raízes pantaneiras — raízes “selvagens”, a depender do ponto de vista.

Em 2017 acompanhei Velho Bugre em sua última viagem. Foram dois dias em Cuiabá, dois no Pantanal e uma passagem rápida por Cáceres, onde ele passou a infância. Pouco deu para ver, ouvir ou conhecer.

Desde então vinha sendo azucrinado pelo comichão de conhecer minhas raízes paternas. Decidi que chegou a hora. 

Vou a Cáceres. Já estou combinando a viagem com as primas Olga Maria Castrillon Mendes e Vanilda Dantas. O objetivo é prosear e conhecer histórias da família e do pantanal. Se der, passear de chalana. Quero colher subsídios para terminar o livro de memórias do Velho Bugre.

Também consultei um amigo da Funai sobre visitar uma aldeia bakairi. Só que agora os índios não podem receber visitas. É melhor que seja assim.

Afinal, posso até ser da Selva. Mas busco ser um bom selvagem.