Convivo há mais de 30 anos em dois meios deletérios, a política e o jornalismo, tomados pelo maquiavelismo vulgar, onde a covardia é aclamada como prudência, a falsidade é tratada por esperteza e a dissimulação é chamada de arte.

Contudo, fui criado e forjado dentro de valores tradicionais, família, estudo, trabalho, verdade, honestidade, dever, civismo. Tradições de família antigas — tanto de pai, quanto de mãe. Até hoje, por exemplo, não me sento à mesa sem camisa, ainda que esteja comendo sozinho. Nunca vi meu pai nu nem tirei a roupa na frente de meus filhos.

Isto posto, venho confessar que a morte do meu pai colocou-me em confronto com os meus próprios valores morais. Sua serenidade e sabedoria diante da iminência da morte aspergiu lições de vida em todos nós. A união de três dos irmãos. A solidariedade dos primos. A ansiedade dos velhos amigos. A ebulição de emoções positivas…

Antes dele, foram embora serenamente minhas duas referências éticas, os tios Hugo, aos 96, e meu padrinho Niel, aos 93. Depois dele, foi a vez de dois irmãos da minha mãe, tio Héber, em dezembro, e Gladio na semana passada.

Assim, nos últimos meses estive em convívio profundo com esse velho mundo que se vai.

Lembro que há situações extremas, como a do encarceramento ou da morte, em que a criatura se confronta com questões fundamentais. Então caem as máscaras e a introspecção torna-se inevitável. Essa solidão é produtora de desespero. Ou de poesia.

Da mesma forma, desespero ou poesia vêm em situações relevantes, como os ritos de passagem. Na próxima semana completo 60 anos, quando passo para a categoria dos anciãos.

Tudo isso me deixou emotivo, introspectivo. E vem me levando ao reencontro com aqueles mesmos valores nos quais fui forjado com muito cuidado por meus pais.

Assim, estou cá, diante de vocês, para reafirmar meus próprios valores. Sou família. E gosto da ética do estudo e do trabalho. Nunca achei que os fins justificam os meios. Sinto-me no dever de ajudar o próximo. E prefiro dizer a verdade. E fazer o certo porque é certo, independente das consequências.

Eis meu reencontro.