Há 76 anos, a Força Expedicionária Brasileira forçou a capitulação de 20 mil soldados alemães na Itália. Meu tio Hugo, 1º tenente, de quem orgulhosamente herdei o nome, estava lá no Dia da Vitória. Ele me relatou que passou a madrugada com seu pelotão trocando tiros com os alemães. Estava em uma ravina, tão perto dos inimigos que escutava o general alemão negociando a rendição. Quando amanheceu, desceu com o pelotão da ravina para participar do grande dia.  Poderia ser um dos soldados que aparecem nessa foto.

De acordo com o relato que me restou na memória, os alemães colocaram o melhor uniforme  para uma rendição com dignidade. Os pelotões, um a um, se apresentavam aos aliados. Cantavam hinos marciais e marchavam em passo de ganso. Paravam diante de um oficial (geralmente americano), batiam continência, o comandante entregava sua pistola e os soldados entregavam os fuzis.

Tio Hugo tomou a Lugger de um oficial como troféu de guerra. Merecia. Afinal, fazia parte do Regimento Caçapava, que esteve na vanguarda em quase todos os combates na Itália. E seu pelotão, por sua vez, esteve na vanguarda da vanguarda, combatendo ao lado do Pelotão de Montanha americano, conquistando casamatas alemãs e abrindo caminho para as tropas aliadas.

Na batalha de Castelnuovo, por ex., os americanos foram dizimados ao tentar conquistar uma casamata na montanha. Então o tenente Hugo subiu lá com seu pelotão. Na metade do caminho já havia perdido metade dos homens. Mas conquistou.

A 128ª Divisão de Infantaria era a última tropa do III Reich ainda intacta. Havia recebido ordens de Hitler para deixar a Itália e seguir para a Áustria a fim de tentar resistir ao avanço dos russos. A missão dos brasileiros era impedir que os alemães atravessassem os Apeninos. Missão cumprida.

O tenente Hugo manteve a Lugger lubrificada até o final da vida. Da última vez que o visitei, aos 95 anos, estava de pé, com a pistola apontada para uma parede do apartamento, atirando a seco (sem bala, é óbvio). Concedia entrevista a um historiador militar. Faleceu um ano depois, sereno.

(A foto do oficial alemão, veio junto com o texto a seguir que recebi pelo WhatsApp. Texto sem assinatura do autor.  Paulo Guilherme Franco Ferreira informa que o oficial alemão que entregando as armas é o Coronel Otto van Kleiber). 

A trajetória da Força Expedicionária Brasileira, durante os combates na Segunda Guerra Mundial, reservou momentos marcantes. Uma dessas ocasiões ocorreu entre os dias 29 e 30 de abril de 1945, quando a FEB forçou a rendição de quase 20 mil soldados inimigos, a maioria deles da 148ª Divisão de Infantaria do Exército da Alemanha. Essa foi a única unidade alemã a render-se integralmente no Teatro de Operações do Norte da Itália antes do armistício de 2 de maio daquele ano. Um feito memorável dos nossos pracinhas, que cruzaram o Atlântico para lutar contra o nazifascismo e pela liberdade.

A rendição da 148ª DI ocorreu no contexto da ofensiva final de 1945, que culminou com as Tomadas de Monte Castello (21 de fevereiro) e Montese (14 de abril). Já fragilizado por quase seis anos de guerra, o Exército Alemão estava se desmantelando e em rota de fuga pelo norte da Itália, rumo à fronteira com a Áustria. Com o objetivo de cortar a retirada do inimigo, o comandante da FEB, General Mascarenhas de Moraes, decidiu aproveitar grande parte das viaturas orgânicas da Artilharia Divisionária para o transporte da infantaria brasileira.

A ocupação de Vignola marcou o início das ações, que empurraram as tropas inimigas para o norte. A perseguição teve como desfecho o cerco dos alemães nos arredores da cidade de Fornovo di Taro. A 148ª DI alemã tinha à sua frente o 1º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria (6º RI), enquanto o 11º RI estava posicionado à retaguarda. O comando da FEB ordenou o ataque, bombardeando o inimigo com a artilharia, enquanto os alemães revidavam com seus canhões. Na tarde do dia 27 de abril, o comandante do 6º RI, Coronel Nelson de Mello, aceitou o oferecimento do padre Dom Alessandro Cavalli para mediar o cessar-fogo.

Depois de contatos com o General Mascarenhas, foi enviado um ultimato aos alemães. O conteúdo do documento, escrito em italiano pelo padre, era um chamado ao bom senso das tropas cercadas, já sem munição e sem meios de reação. Os apelos surtiram efeito. Na noite do dia 28 de abril, teve início o processo de rendição. Os entendimentos foram realizados no Posto de Comando do 6º RI. Logo após, o Coronel Nelson de Mello deixou o PC e deslocou-se para o Quartel-General da Divisão para comunicar a decisão do comandante da 148ª DI alemã, sendo autorizado pelo General Mascarenhas de Moraes a receber a rendição incondicional.

O processo durou da meia-noite às 5h30 do dia 29 de abril. Ficou estabelecido que a artilharia brasileira cessaria fogo. As unidades alemãs apresentar-se-iam às 13h, entregando, inicialmente, seus feridos, única exigência dos alemães, que foi aceita pelo comando da FEB por questões humanitárias.

Cerca de 20 mil homens, a maioria da 148ª DI, além de integrantes da 90ª Divisão Panzer Granadier e de italianos da Divisão Bersaglieri (San Marco e Monte Rosa), foram encaminhados para grandes áreas descampadas da região de Ponte Scodogna. Os soldados alemães, em grandes filas, depuseram as armas observados pelos pracinhas brasileiros. Posteriormente, foram removidos para os campos de prisioneiros de guerra em Modena e em Florença, mantidos pelo Exército Norte-Americano.

A rendição foi finalizada às 18 horas do dia 30 de abril.