É bom lembrar que o Brasil tem dono. E neste instante eles decerto já estão a conversar sobre a sucessão presidencial de 2022 e, ainda, sobre como chegar até lá. Quem são eles, afinal?

Mestre Raymundo Faoro descreveu-os no clássico “Os Donos do Poder”. Eram outros tempos. Os acadêmicos os tratam por establishment. Prefiro chamá-los de Donos do Brasil.

Observando-se a História, constatamos que os Donos do Poder são aqueles que controlam as armas e o dinheiro. Os demais, incluindo o presidente da República, operam para eles no Executivo, Legislativo e, também, no Judiciário — sobretudo no Supremo.

Apenas 33 grupos empresariais, talvez 35, fazem parte de oligopólios que controlam 2/3 da economia. Em 2014, financiaram 2/3 das eleições presidenciais e dos partidos. Mas em 2018, completamente acossados pela Lava Jato, eles perderam boa parte do controle. O fato mais relevante foi a eleição de um outsider para a Presidência da República.

A quase totalidade dos nossos presidentes estavam inseridos no Poder e no controle do governo. Fernando Henrique e Lula são exemplos. Outros, jamais compreenderam a engrenagem. Collor e Dilma estavam fora do eixo enquanto presidentes. No caso de Collor, há muito já tomou a lição. Dilma parece ainda estar no ar.

Nosso atual presidente dá sinais de que não tem ciência nem tenência do verdadeiro Poder.

Aqueles que detém as armas estão unidos como raras vezes estiveram na História do Brasil. E também empoderados. Estão (ou estiveram) ombro a ombro com o presidente, pois sabem que o atual governo tem uma imagem indissociável da reputação das Forças Armadas. Mas há fortes indícios de fadiga de material.

Aqueles que detém o dinheiro estão divididos como raras vezes na História. Os bancos estão no poder absoluto desde a ascensão de FHC. Nunca estiveram tão fortes como agora com um dos seus como czar da Economia. Guedes só trabalha para os bancos, com os bancos e nos bancos.

O setor produtivo, com indústrias e construção civil, está derretendo. No final do governo Dilma, a indústria chegou ao nível de participação no PIB igual ao de Vargas 2, pré JK. Paulo Guedes não deu a menor importância para eles. Já caíram para a era Vargas 1. Já se articulam para construir uma nova candidatura, uma tal de terceira via, muito mais contra Guedes do que contra Bolsonaro.

Em meados de 2019, os capitães da indústria pediram ajuda aos donos das armas em nome da velha aliança que os levou ao poder em 1964. Estão juntos desde então.

O Agronegócio, a terceira força econômica, ainda não tomou posição — se ao lado dos bancos, ou das indústrias. Não arrisco prognóstico.

O Congresso Nacional é apenas um teatro. É lá que ocorrerá o desenrolar do enredo, tendo o Supremo como palco coadjuvante. Neste momento, Suas Excelências deixaram Suas Sapiências tomarem o protagonismo, mas trata-se de uma anomalia histórica, logo o enredo volta ao eixo central da trama.

Quanto aos atores, os ilustres inquilinos do Congresso Nacional, até recentemente poderiam ter sido comprados. Estavam baratos, em liquidação. Mas agora o contexto mudou. Eles podem até ser alugados, mas o preço subiu a valores indecentes. O presidente precisa pagar. Faz corpo mole, tenta adiar, mas terá que honrar as promissórias políticas que assinou para chegar inteiro a 2022.

O pior é que, como no exemplo de Dilma, eles se alugam, mas por vezes não entregam a mercadoria. Pelo menos 2/3 deles vão seguir as ordens dos patrões, os Donos do Poder.