Nunca antes na história deste país houve um Congresso Nacional tão favorável ao presidente-eleito. A bancada pró-Bolsonaro que emergiu das urnas em 2018 só encontra paralelo no Congresso eleito em 1970, em 2/3 favorável ao presidente Médici — e ainda assim estávamos em uma ditadura militar e, ademais, em pleno “milagre econômico”. A bancada eleita em 1986, durante o Plano Cruzado, também começou governista, mas acho que não chegava a 2/3, a conferir.

Em 2018, o brasileiro optou pelo azarão Bolsonaro por razões diversas e por uma plêiade de governadores bolsonaristas de carteirinha como Dória, em São Paulo (que já rompeu), e Zema, em Minas (que continua aliado). Abertas as urnas, os deputados federais pró-Bolsonaro somavam 315. Bastava uma conversinha aqui e outra acolá para chegar aos 342 necessários para aprovar reformas constitucionais.

No Senado, Bolsonaro tinha maioria ampla, mas por conta de 1/3 da bancada que permaneceu, a situação era um pouco menos favorável. Faltavam oito senadores para completar os 2/3. Mas também havia muitos senadores dispostos a conversar, começando pelo DEM e pela maioria do PSDB.

Onde foi que desandou?

Observando o outrora, tudo indica que tenha começado a desandar entre março e abril de 2019, quando Bolsonaro anunciou que não daria cargos no governo para a bancada aliada. Ele havia herdado 120 mil cargos de confiança; com os cortes de Paulo Guedes, ainda restavam 100 mil cargos, sendo que pelo menos 50 mil poderiam ser preenchidos por aliados de fora das carreiras do Estado.

Em paralelo, por conta de mesquinharias em colégios eleitorais da Barra da Tijuca e imediações, áreas hoje dominadas pelas milícias reais, as chamadas “milícias virtuais” bolsonaristas começaram a atacar implacavelmente o deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados escolhido justamente por Bolsonaro.

Como reação, Maia propôs à bancada de parlamentares descontentes a reorganização do velho Centrão, inventado ainda nos tempos da Constituinte. Ainda em maio de 2019, o incipiente Centrão aprovou o Orçamento Impositivo, amarrando o governo às vontades do Parlamento.

Assim, muito rápido, apenas cinco meses depois de tomar posse, Bolsonaro assistiu escorrer por suas mãos sua maior fonte de poder — uma maioria parlamentar raras vezes conquistada na história do Brasil. A partir de então, a relação entre Executivo e Legislativo só piorou. O presidente, que começou com 2/3, terminou seu primeiro ano de mandato com cerca de 10% do Congresso.

Entre março e abril de 2020, início da pandemia, os filhos de Bolsonaro tentaram empurrá-lo para um confronto perigoso com o Congresso e o Supremo a fim de tentar ganhar poderes excepcionais. Mas não deu certo; o Exército não aderiu à aventura. Ao contrário, os generais mandaram o presidente se compor com o Congresso e arrumar uma base parlamentar de sustentação política.

Em maio de 2020, Bolsonaro tentou se recompor distribuindo cargos a um punhado de parlamentares fisiológicos descontentes, que logo se autodeclararam Centrão. Mas a conta começou a ficar muitas vezes mais cara. Se há dois anos bastaria acomodar apoiadores políticos dos deputados em cargos de confiança intermediários, os chamados DAS, em nível de assessor (DAS-3), coordenador (DAS-4) ou no máximo de diretor (DAS-5), a partir de então Bolsonaro passou a ser obrigado a entregar a políticos procurados pela polícia joias da coroa, como o Banco do Nordeste e o banco do MEC, o FNDE com orçamento de R$ 30 bilhões ao ano, dentre outros.

Na virada de 2021, apareceu um novo problema: o comando da Câmara e do Senado. Bolsonaro fez apostas pesadas em um fisiológico de raiz do baixo clero, Artur Lira, discípulo de Eduardo Cunha — e foi obrigado a engolir um mineirinho come-quieto (e neófito) no Senado. Para eleger o discípulo de Cunha, fez promessas pesadas de verbas, ministérios e cargos no governo.

Até agora não cumpriu; fica empurrando com a barriga o cumprimento das promessas aguardando que os parlamentares desistam. O resultado prático dessa política errática foi, até agora, a imposição ao Executivo de um Orçamento inexequível e, pior!, uma CPI sobre a Covid.

Vamos ver onde isso vai dar. Mas está com cheiro de debandada para qualquer candidato à Presidência que se apresente viável.