O filósofo francês Paul Ricœur, que enfrentou ao longo de toda a juventude a dor da ausência do pai, estudou esse fenômeno. Ele nasceu em 1913. Um ano depois seu pai seguiria para uma daquelas fétidas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Aguardou-o com ansiedade até o final os conflitos. Muitos pais retornariam com vida. Ou em caixões. Mas Ricœur-pai permaneceria ausente. Desaparecera exatamente no Dia da Vitória. Assim, o sentimento de ausência tornou-se a maior presença em sua vida. Os restos mortais só seriam encontrados em 1932. Ricœur-filho forjou todo o seu pensamento em uma constante contra a violência.

“Meu pai morreu por nada” – escreveria mais tarde.

Está em Platão o primeiro registro dessa questão. Ricœur foi buscar em um dos diálogos de Sócrates, O Teeteto, inspiração para tratar da imagem-recordação (eikôn) a fim de sublinhar um grande paradoxo. Qual seja, o de que o eikôn é a presença na ausência, é a presença na alma do homem de uma coisa ausente. A esta característica da memória, Aristóteles contribuiu com outra: existe na memória uma linha de fronteira entre a imaginação e o phantasma.

O conceito da presença na ausência é distinto do sentir falta. O português guarda o termo saudade para expressar essa sensação de faltar. A saudade, o sentir falta, relaciona-se à nostalgia, que tanto pode provocar alegria, quanto melancolia. No caso, um pai falecido em decorrência de doença, pode até mesmo haver o inconformismo com os desígnios do Destino.

Na saudade, também pode haver a sensação de que algo está errado; quando um filho é levado prematuramente em acidente ou doença, por exemplo. No caso dos desaparecidos políticos, resta nos familiares a sensação do ilicitamente subtraído. É como se fosse um roubo. O vazio se apropria das famílias, as questões emocionais ficam eternizadas e, sem respostas, a dor passa a ser rotina.

A presença na ausência, por sua vez, está relacionada à memória como recordação. A ausência é “presentificada” pela lembrança. Só se pode sentir a presença de ausência de algo tangível, que existiu, ou que poderia ter existido. Um pai jamais avistado, como o de Ricœur, mas que a qualquer momento pode retornar (ainda que dentro de um caixão) e, contudo, nunca aparece. Ou um irmão há muito desaparecido, um filho que não se sabe estar vivo ou morto, mas que perambula – na lembrança – pelos cômodos da casa da família, como um fantasma entre os vivos.

Trecho do livro: “Borboletas e Lobisomens”.