Apresento-vos, com amor e admiração, dona Margarida Studart — a Mulher que me forjou Homem. Algumas histórias da Margot:

1) Certa vez apanhei na rua e voltei pra casa chorando. “Volta lá e bate nele”. Argumentei que o moleque era mais velho e mais forte. Nem quis saber. Mandou voltar e chutar, usar pau, pedra, qualquer coisa. Mas eu tinha que criar coragem e enfrentar os mais fortes. Assim passou a ser feito.

2) Obrigava-nos a estudar, de segunda a sexta feira, pelo menos das 14h às 17h. E tomava a lição. Mesmo que não tivesse nada para estudar, éramos obrigados a estudar. Euzinho, sempre rebelde, recusava-me a cumprir ordens. Então, rebelado, lia a enciclopédia Barsa de forma aleatória. E estudava o Mapa Mundi. Foi assim que conheci nomes e capitais de todos os países do mundo.

3) Adolescentes, tínhamos hora para voltar para casa. Um dia ela foi me buscar na rua de camisola. Eu estava muito atrasado. Isso mesmo! Minha santa mãe apareceu de camisola na frente dos amigos. Morri de vergonha. Ela disse que era assim que iria me buscar quando eu me atrasasse.

4) Aos 18, arrumei namorada mais velha. Ela tinha 24. Então eu desaparecia na sexta-feira e só retornava pra casa na segunda cedo, me arrumava e corria para a universidade. Um dia ela me aguardava furiosa para informar que já tinha investigado a vida “dessa mulher”. Que era mais velha, que já fora casada, não servia pra mim, bla bla blá. Aí ela soltou: “Ela vai te viciar!”. Intrigado, perguntei: “Em que?”. Dona Margot: “Em sexo! Em sexo”. Então respondi: “Ora mãe, já estou viciado”.

5) Ela foi (e ainda é) assim com todos os cinco filhos. Na maior parte do tempo, dona Margarida é mãe — com todos os defeitos e qualidades. Vez por outra é sábia. São atributos absolutamente distintos. Suas lições de sabedoria são inusitadas, inesquecíveis.

6) Já foi a Margaridinha, contudo, muito cedo aquela menina falante, extrovertida e de personalidade forte, passou a ser chamada de Margot, nome muito mais adequado. Meu pai, entre acuado e irônico, a chamava de Margonça. Ela gosta do apelido.

7) Já cogitou ser freira, mas a madre do colégio interno, assustada com sua noviça rebelde, a mandou casar e ter filhos. Era antropóloga, 1º lugar no concurso federal; largou o emprego para seguir o marido militar, como era costume naquele tempo.

Queria ter 10 filhos; ficou em cinco. Depois que todos os rebentos se formaram e casaram, depois dos 50, virou contista. Escreve de forma extraordinária, histórias tal qual as de Nelson Rodrigues.  Só não gostei muito quando enveredou pelos contos eróticos. Passei a tratá-lo por “minha quase-santa mãezinha”. Ela acha que é irônico e não gosta.

9) Hoje, às vésperas de completar 84 anos, cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos, está com boa saúde, mente aguçada, cada vez mais sábia, serena e sensata.

10) Pelo sinais exteriores de vitalidade, tudo indica que ainda vai usufruir de muitos Dia das Mães.