Foi Platão, como sempre Platão, quem apresentou o conceito da “nobre mentira”, aquela que concederia aos governantes o direito de simular e de dissimular, tal como um médico mente aos pacientes, ou como se mente às crianças. Contudo, coube a Maquiavel reelaborar o conceito, estabelecendo os fundamentos da ideia de “Razões de Estado”, legitimando a dissimulação e a falsidade dos governantes como nova tradição do pensamento moderno. Em seus Comentários Sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel aconselha os príncipes a se resguardar dos perigos interno e externo, “não deixando para trás nenhum caso documentado de um e de outro”.

Norberto Bobbio, um dos mais profícuos pensadores contemporâneos, debruçou-se sobre o tema, que prefere tratar por arcana imperii – expressão criada por Tácito para definir os mistérios do Estado e as autoridades ocultas. Em “O Futuro da Democracia”, Bobbio também apresenta o conceito do criptogoverno, que consistiria de um “conjunto de ações realizadas por forças políticas eversivas que agem na sombra em articulação com os serviços secretos”. Segundo Bobbio, é importante compreender que na categoria dos arcana entram dois fenômenos diversos, porém estreitamente coligados:

“O fenômeno do poder oculto ou que se oculta e o poder que oculta, isto é, que se esconde escondendo. O primeiro compreende o tema clássico do segredo de estado, o segundo compreende o tema igualmente clássico da mentira lícita e útil (lícita porque útil) que nasce, nada mais nada menos, com Platão. No estado autocrático, o segredo de estado não é a exceção, mas a regra.”

No ensaio “A Mentira na Política”, Hannah Arendt mostra que a veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e que mentiras, embustes e auto-embustes foram encarados como instrumentos justificáveis nesses assuntos:

“Sigilo – diplomaticamente chamado de ‘discrição’ e de arcana imperii (os mistérios do governo) – e embuste, ou seja, a falsidade deliberada e a mentira descarada, são usadas como meios legítimos para alcançar fins políticos desde os primórdios da história documentada. (…) A negação deliberada dos fatos – isto é, a capacidade de mentir – e a faculdade de mudar os fatos – a capacidade de agir – estão interligadas; devem suas experiências à mesma fonte: imaginação.”

Swergio Pistone resume a questão: “Das teses da doutrina da Razão de Estado, esta tradição afirma que a segurança do estado é uma exigência de tal importância para os governantes que, para a garantir, são obrigados a violar normas jurídicas, morais, políticas e econômicas que consideram imperativas, quando essa necessidade não corre perigo.”

(Hugo Studart- Trecho da Introdução do livro “A Lei da Selva”)