O vôo da despedida

 

Por Hugo Studart

 

Jonas Alves Corrêa, 87 anos, deita à terra nesta terça-feira, às 11h, no Campo da Esperança, em Brasília, cercado pelos filhos, netos, bisnetos e pelos muitos e muitos amigos leais que colecionou pelo caminho. Na sequência, dá início seu último voo em direção a uma terra desconhecida onde habitam os aventureiros, os aviadores e as velhas águias que cumpriram sua missão na Terra.

Nasceu às 6h da manhã de 21 de junho de 1933, em Cuiabá. Caçula de 12 irmãos, criado em Cáceres, Pantanal, cresceu vendo a chalana vindo e fluindo pelo rio Paraguai. Mas gostava mesmo era de se sentar em uma barranca para assistir aos pousos e decolagens dos hidroaviões alemães Junker JU-87, do Sindicato Condor, mais tarde rebatizado de Varig.

Sempre soube que viria a ser aviador. Assistiu orgulhoso seu irmão mais velho, Hugo, seguir para a Guerra na Itália como um dos Voluntários da Pátria. Acompanhava com atenção todas as notícias que vinham do front. Passou a colecionar figurinhas de aviões militares que chegavam nos Junkers. Foi nessa época que decidiu ser aviador militar.

Quando o tenente Hugo retornou da guerra, levou o irmão caçula para estudar no Rio de Janeiro. Tinha então 14 anos. Aos 15, entrou para a Escola Preparatória de Cadetes, em Barbacena. Nunca mais retornaria para casa.

Foi piloto por 38 anos, desde que solou pela primeira vez um Fairchild T-19, em 1953, quando Cadete da Escola da Aeronáutica, no Rio de Janeiro, até 1991, tempos em que se divertia como instrutor e checador do Aeroclube de Brasília.

Saiu Aspirante na turma de 1955. Pilotou dez aeronaves distintas, aqui grafadas da forma como os aviadores os tratavam: T-19; North American T-6; C-41 Paris; Beech Aircrafth C-45 e C-45T; B-25 Michell; B-26 Invader; Douglas C-47 ou DC-3; Avro 748; HS-125 e Bandeirante C-95.

Foi instrutor de voo como Primeiro-Tenente, quando chegava a fazer até 40 pousos por dia. Seu último voo na ativa foi em 1980, como coronel, quando cumpriu a missão de ir a Santiago fazer uma demonstração do Bandeirante Cargueiro para a Força Aérea do Chile. Possui mais de 6 mil horas de voo registradas em caderneta.

Idealista desde criança, participou ativamente das ações e conspirações políticas protagonizadas pelo Partido Fardado. Quando cadete, já discutia política. Era um nacional-desenvolvimentista. Em 1954, já aspirante, estava na Guarda de Honra dos funerais de Getúlio Vargas. Quando tenente, participou do levante de Jacareacanga contra o governo Juscelino. Em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros, esteve na esquadrilha que partiu ao Sul para bombardear Leonel Brizola — ato que não viria a acontecer. Capitão, foi um dos primeiros a aderir à “Revolução” de 1964.

De acordo com seu livro de memórias A Grande Viagem (ainda não publicado), eram dois os grupos políticos na Força Aérea: os “gregórios”, legalistas, em referência ao fiel cão de guarda de Vargas, Gregório Fortunado, e os “nacionalistas”, que seguiam a liderança do brigadeiro Eduardo Gomes. Nem precisa explicar de qual lado estava o jovem Bugre.

Sempre teve dois ídolos, Eduardo Gomes e Cândido Rondon. No governo Castelo Branco, teve a sorte louca de trabalhar como assistente do ministro Eduardo Gomes. Esteve entre os oficiais que fundaram o Serviço Nacional de Informações, o SNI. Mais tarde, tenente-coronel, foi o primeiro chefe de Operações do Centro de Inteligência e Segurança da Aeronáutica, o CISA-Brasília.

Seu nome nunca foi citado em depoimento, documento ou livro sobre a repressão política durante a ditadura. Apareceu pela primeira vez no livro Borboletas e Lobisomens, no Apêndice III, “Militares na Guerrilha”. Foi ele próprio quem escreveu o texto com o qual gostaria de ser lembrado como oficial de Informações:

“Era o chefe da Seção de Operações do CISA em Brasília durante a repressão no Araguaia. Entrou para a área de informações em 1967. A partir de 1968, passou a organizar redes de informantes, treinou civis e militares em operações de inteligência. Era especialista em recrutar militantes das organizações de luta armada, como de infiltrar agentes. Acompanhou os conflitos no Araguaia desde a primeira fase, a partir de Brasília. A partir da Segunda Campanha, começou a enviar agentes de busca, em sistema de rodízio, para apoiar o CIE na prospecção de informações junto à população local. Esteve uma vez na área como observador. Como assessor direto do brigadeiro Vassallo, mantinha-o informado sobre o que ocorria no Araguaia”.

Deixou a ativa três anos antes da hora com a missão de participar de um projeto ultra-secreto da Força Aérea, a construção da bomba atômica, cujas pesquisas se davam em São José dos Campos, SP, e os testes na Serra do Cachimbo, MT. Em 1984, exatos 30 anos de participar dos funerais de Vargas, deixaria para sempre o Partido Fardado.

Ainda trabalhou na Infraero e no Departamento de Aviação Civil. Mas já não respirava política. Apenas se divertia como instrutor de voo do Aeroclube de Brasília.

Na vida pessoal, teve dois casamentos, primeiro com Margarida Studart, com quem conviveu por 25 anos e teve cinco filhos: Carlos Hugo, Astrid, Andrea, Rodrigo e Anelisa, todos homens e mulheres de bem, todos os cinco professores; além de 14 netos e dois bisnetos. Depois, manteve uma longa união estável com Maria Lúcia Kalif, quase 30 anos. Criou três enteados, Iana, Brenda e Bruno, todos pessoas de bem.

Plantou dezenas de árvores na infância no Pantanal. Escreveu dois livros, “História de Aviador” (2016), e “A Grande Viagem” (ainda não publicado).

Chegou aos estertores da vida sábio, sereno e suave. Na politica, cada vez mais moderado, quase um tucano da ala conservadora de Geraldo Alckmin.

Enfrentou quatro incidências de câncer. Venceu três. O derradeiro foi no fígado. Vinha há mais de três anos fazendo quimioterapia. Desde o Dia dos Pais, agosto de 2020, vinha cogitando parar a químio e deixar a Vida seguir seu fluxo natural. Na semana passada, escreveu à filha Andrea que estava se sentindo fraco, que estava recebendo seu “aviso prévio”.

Conversamos ao telefone na quinta feira. Falamos da conjuntura política. Não demonstrou sinais de fraqueza — nunca demonstrava na frente de homens. A noite, foi ao hospital. Retornou para casa. No sábado, manifestou dores pela primeira vez. Foi ao hospital e tomou analgésico. Dormiu em casa. Às 4h30 de domingo, levantou-se bem pior. O enteado Bruno o ajudava a caminhar quando faleceu. Morreu de pé, como lhe convinha. Não chegou a cair no chão. Foi acomodado na cama, serenamente.

Estava enfim cumprida a longa missão do Velho Bugre. Agora, inicia seu último voo rumo às terras dos aventureiros, dos aviadores e das águias.