Por Hugo Studart
Há uma clara dissonância entre o papa Francisco e grande parte de seu rebanho. Pior, com sua omissão à perseguição de cristãos pelo Islã, na Africa e na China; com seu silêncio diante do terrorismo contra os templos católicos no Chile; e por fim, com seu apoio ao reconhecimento do casamento entre homossexuais, dentre outras atitudes, há risco de que a dissonância se transforme em abismo.
O desconforto com o papa vem sobretudo dos mais conservadores, hoje, esmagadora maioria católica. Já se espalham até boatos pelo próprios católicos de que Bergoglio, além de marxista, seria o tal “Papa Negro”, o “Anticristo do Apocalipse”, até mesmo praticante de ocultismo e de satanismo. Obviamente, tudo delírio ou campanha difamatória de má fé, mas que ilustram o enorme desconforto de parte da Igreja com seu atual chefe. Paradoxalmente, Francisco vem sendo defendido com fervor por progressistas não católicos, ou católicos não praticantes.
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Cumpre esclarecer que Jorge Bergoglio tem uma trajetória política errática. Durante a ditadura militar argentina, esteve muito próximo dos generais, especialmente de um almirante da linha dura, mais tarde acusado de tortura e assassinatos de militantes da esquerda (era o vice do almirante Massera, ministro da Marinha, se necessário, pesquiso o nome dele).
Bergoglio foi acusado por seus próprios pares jesuítas de ter sido um colaborador da ditadura. Mas isso soa injusto. Parece que ele apenas optou por uma estratégia de redução de danos, usando do bom diálogo com o amigo almirante para tentar proteger seus padres, por um lado, e silenciando seus subordinados para não provocar a ditadura. Teria sido, enfim, uma espécie de resistência complacente.
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Quando caiu a ditadura, Bergoglio foi extremamente estigmatizado pelo clero progressista, acusado de covarde, fraco, até mesmo de colaborador. Então passa um bom tempo exilado nas bases, faz mea culpa, adere à Teologia da Libertação até ressurgir como bispo progressista na periferia de Buenos Aires. Aliás, com um belo trabalho social. Daí, é redimido, alça voo até ser ungido papa.
Fernando Meirelles retrata parte dessa trajetória no belíssimo filme Dois Papas. O diretor é extremamente indulgente com Bergoglio. Até aí, tudo bem, pois estamos falando de obra de arte.
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O problema é que Bergoglio pode estar cometendo um grave erro de liderança. Depois do conservador Wojtyla e do reacionário Ratzinger, tudo indica que o rebanho praticante seja hegemônicamente conservador. O atual papa foi eleito pelo cardeais justamente para conduzir uma guinada à esquerda. Mas há indícios de que estaria sendo por demais açodado. Talvez perdido. Seu reinado pode desandar em desastre.
(Hugo Studart, católico praticante, devoto dos franciscanos).