Por Hugo Studart
Poucos sabem, mas o líder político Leonel Brizola não se chamava Leonel. Nasceu Itagiba. Em 1923, quando tinha 1 ano, seu pai morreu degolado em uma daquelas revoltas armadas que sempre assolaram os pampas. Fazia parte das tropas de um caudilho maragato, o general Leonel Rocha. Itagiba passou a infância brincando de peleias; ele sempre era, com muito orgulho, o general Leonel. Aos 13 anos, quando foi para a cidade aprender a ler e escrever, teve que se registrar. Quando o escrivão lhe perguntou o nome, não tergiversou: Leonel de Moura Brizola.
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Acabo de ler a primeira referência a Leonel, o ídolo de Itagiba. A história se passa no conturbado governo de Artur Bernardes (1922-1926), quando explodiram revoltas armadas contra as oligarquias da Velha República para todo lado: Rio de Janeiro, com os 18 do Forte, Rio Grande do Sul e São Paulo, desencadeando a coluna de “revoltosos” liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, chefiada pelo major Miguel Costa e tendo como seu adjunto o capitão Luiz Carlos Prestes (movimento este que restou registrado pela História como Coluna Prestes).
A revolta dos pampas foi a pior, uma verdadeira guerra civil, desencadeada quando o caudilho Borges de Medeiros consegue se reeleger, na esteira de Bernardes, para o sexto mandato como presidente do Rio Grande. A guerra civil, iniciada em janeiro de 1923, espalha-se pelo Estado, da Serra Gaúcha até a fronteira com a Argentina. Foram 13 batalhas, quase todas lideradas pelo general Honório Lemes. Leonel Rocha era um dos comandantes “revolucionários”, que liderou uma batalha na região de Carazinho, onde nasceu Brizola.
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Em dezembro de 1923 o presidente Bernardes conseguiu negociar um acordo, com armistício e anistia, no qual a Constituição gaúcha fora alterada para impedir a reeleição de Borges de Medeiros (com a vitória politica dos rebelados, abriu-se caminho para que em 1927, em conluio oligarquico e fraude nas urnas, escolhessem governador o jovem ministro da Fazenda, um tal de Getúlio Vargas).
Mas muitos já haviam sucumbido com a revolução de 1923, dentre eles Brizola-pai. Contudo, naquela “revolução” seria forjada, ainda criança, um dos mais relevantes líderes políticos da história brasileira.
Votei em Brizola, sempre no primeiro turno, em 1989, 1994 e 1998. Hoje lamento o legado de caos que deixou em sua passagem pelo Rio de Janeiro. Foi ele quem permitiu que o tráfico tomasse conta dos morros cariocas. Um mal até hoje não consertado.