Por  Hugo Studart
A releitura do livro O Partido Fardado, de Oliveiros Ferreira, me fez descobrir mais um fato a corroborar a velha máxima de Marx de que a “História se repete como farsa”. Nesse caso, a autenticidade da máxima vem da unção da história de Rodrigues Alves como presidente da República, em 1918 — e de Delfim Moreira como vice. Já a farsa, conclusao de minha mente inquieta, vem da unção de Tancredo Neves, em 1984 — e de José Sarney como vice, lançando trevas sobre Michel Temer, que também era o vice que ascendeu ao poder. São inacreditáveis as semelhanças.
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Ao final da Primeira Guerra, a República Velha estava completamente carcomida pela criação da classe média urbana e o início da industrialização. Aliás, a República já nasceu errada, substituindo uma monarquia que tentava ser vanguarda industrial por um conclave de oligarcas, que se feudalizaram nos Estados. Enfim, a República Velha já nasceu tão velha que, observando a História do alto, concluímos que a monarquia era vanguardista para seu tempo, apesar de todas as mazelas.
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O fato é que, em fins de 1917, as oligarquias entraram em um impasse de nomes sobre quem deveria ser o novo presidente da República. Tal qual aconteceu no final do governo do general Figueiredo, tal qual ocorreu no ocaso da Era PT, nenhum nome emergia como hegemônico. Tinha Rui Barbosa, baiano, mas era peremptoriamente vetado pelo Rio Grande do Sul. Tal qual ocorreu com Ulysses Guimarães em 1984, uma facção forte das oligarquias reinantes vetaram a velha Águia de Haia.
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Nesse contexto que as oligarquias tiveram a infeliz ideia de chamar Rodrigues Alves. Ele havia sido conselheiro do Império. Havia sido presidente da Província de São Paulo durante o Império e, depois, duas vezes presidente do Estado de São Paulo, já na República. Havia sido ministro da Fazenda e outros cargos. Havia sido Presidente da República entre 1902 e 1906.
Tancredo também havia sido ministro, chefe de Governo (como primeiro-ministro de Jango), senador, governador, etc, havia sido quase tanta coisa quanto Rodrigues Alves fora antes.
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No caso de Rodrigues Alves, já estava recolhido em seu sítio em Guaratinguetá quando, no início de 1918, as oligarquias decidiram que seria de novo presidente, o mandatário de “consenso”. Seu filho médico avisou que estava doente, que provavelmente não tomaria posse. Ainda assim foi “ungido” pelo Congresso Nacional, em eleição farsante, e a seguir ratificado pelas urnas, em outra farsa eleitoral.
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Assim foi eleito, tendo o governador de Minas Delfim Moreira como vice. Mas Rodrigues Alves não chegou a tomar posse, em 15 Nov 1918. Sua saúde se agravou ao longo do ano. Ademais, ainda teve gripe espanhola. Delfim tomou posse como vice. Rodrigues Alves morreria uns 40 dias depois, aos 70 anos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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No caso de Tancredo, ungido com 74 anos, em escolha indireta do Congresso Nacional, todos sabiam que tinha uma saúde frágil. Também não tomou posse, falecendo uns 40 dias depois de seu vice titubeante ser empossado.
Curiosamente, há algumas semelhanças entre os vices Delfim e Sarney. A principal delas é o fato de serem titubeantes e despreparados para o cargo. Delfim chegou ao poder em crise de demência e indícios de loucura; as oligarquias tiveram que escolher um novo presidente. Ficou apenas oito meses no cargo, com o poder sendo respondido, de fato, pelo ministro da Viação, seu velho amigo mineiro Afrânio de Mello Franco, pai de Affonso Arinos.
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No caso de Sarney, as oligarquias empoleiradas em 1985 decidiram, por consenso, que ele permaneceria respondendo pela Presidência. E assim foi feito, conduzindo o país para a transição política, que teve a Constituinte de 1988 como ápice — mas ao mesmo tempo empurrando tudo e todos para o abismo econômico e a hiperinflação⠀⠀⠀⠀⠀
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Em outra história que se repete como farsa, em 2014 uma outra presidente da República também tomaria posse em surto de esquizofrenia. E tal qual ocorreria com o presidente do outrora, Delfim Moreira, as oligarquias do agora decidiram que Dilma deveria deixar o poder, instalando no lugar um outro oligarca de confiança.
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O fato é que a Velha República começou a desmanchar em 1918, quando surge o tenentismo. O novo presidente instaurado, Epitácio Pessoa (tal qual Michel Temer), não estava à altura do cargo, não conseguiu compreender que o mundo já mudara e que a Presidência deveria ser exercita sob novos paradigmas.
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A República Velha só cairia 12 anos depois, com a Revolução de 1930 — muito mais radical e sangrenta do que o Regime Militar de 1964. É difícil saber exatamente quando a Nova República instaurada com a (quase) posse de Tancredo começou a ruir. A República Velha durou 41 anos. A Nova República já dura 35 anos…
Muitos esperavam que algo de relevante acontecesse já em 2018, 100 anos depois da (quase) posse de Rodrigues Alves. Mas aí o presidente eleito logo avaliou que seria melhor governar com o tal Centrão…