Por Hugo Studart
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Esta mulher bonita de olhos verdes chama-se Margarida Studart, minha quase-santa mãezinha, cronista e contista, com preferência pelos eróticos. Não sei quantos anos tinha nessa foto. Mas decerto já criava os cinco filhos, todos homens e mulheres de bem. Vocação de matriarca, era dura conosco na questão dos estudos.
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Tem cerca de um mês que estou com um pé de volta à casa da mãe. A secretária que dormia lá foi embora; minha irmã arrumou uma diarista de sua confiança.
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Como sou o único filho solteiro, me ofereci para dormir com dona Margot por uns dias a fim de lhe dar os remédios e fazer companhia à noite nesses tempos de isolamento.
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Então passei a usufruir do maior dos luxos: três refeições por dia, com almoço de comida caseira, sentado a mesa com uma excelente narradora de causos. E mais! Sem ter que cozinhar ou lavar pratos e panelas. A Lu tem até lavado e passado minha roupa.
Eis que de repente me vejo, aos 59 anos, de volta à casa da mãe. O mais grave, com uma vontade danada de esticar um pouco mais essa situação vexatória. Afinal, como há décadas que só como na rua, fazer três refeições em casa, sem precisar cozinhar e lavar, acabou virando um grande luxo.
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Dias atrás comentei à mesa:
“Vim pra cá dizendo que iria cuidar da mãe e acaba que a mãe está cuidando de mim”.
Retrucou na hora:
“Eu não, não cuido mais de ninguém. Quem está cuidando de você é a Lu.”