Como foi a morte de JK

Escutei uma entrevista na CBN (ou BandNews?) de uma suposta historiadora que lançou um livro “bombástico” assegurando, com provas cabais, definitivas, que Juscelino teria sido assassinado pela ditadura militar. Ora, há muito não escutava tanta besteira por segundo. Ao final, foi lhe perguntado por quais razões os militares teriam matado JK. Ela respondeu: Inveja. Estariam incomodados com o sucesso dos Anos JK. Não é piada, é livro de suposta História. Delírio que só serve para abafar avaliações sérias sobre erros e acertos do regime militar. Eis os pingos nos iis:

1 – Juscelino nunca foi um inimigo mortal dos militares. Egresso do PSD, partido que gerou o MDB e PMDB, era para ser apenas mais político de oposição, como Tancredo e Ulisses. O problema é que JK ambicionada ser candidato à Presidência em 1966. Como Carlos Lacerda, da UDN, “revolucionário” de primeira hora em 1964. Então Castelo Branco cassou ambos, JK e Lacerda, dentre outros. No caso de JK, cassado por suposta corrupção — ou melhor, acusado de ter deixado sua panela roubar na construção de Brasília. Logo passaria por grandes dificuldades financeiras.

2 – Auto-exilado em Portugal, JK teve que trabalhar na empreiteira de uma amiga para tentar pagar as contas. Era o presidente da empresa. Mas sentiu-se muito humilhado e pediu as contas em dois ou três meses. De volta ao Brasil, exilou-se em seu sítio em Luziânia, perto de Brasília.

3 – Era 1969 quando num certo domingo de chuva JK resolveu visitar Brasilia. A tal “ditabranda” acabara de virar ditadura com o AI-5, de dezembro de 1968. Os militares não queriam nenhum tipo de ameaça por perto. Jk então pegou o jipe, dirigido pelo motorista Geraldo, e aproveitou a chuva para visitar a cidade que construíra. Parou na Praça dos Três Poderes e chorou. Sua amiga Vera Brant soube e contou para o jornalista Carlos Chagas, que publicou um artigo memorável no Estadão. Foi uma comoção na corte.

4 – Os próprios militares ficaram comovidos, mesmo os mais duros. Então mandaram um recado para Juscelino. Ele poderia frequentar Brasilia à vontade, não seria incomodado. Mas deveria evitar eventos políticos. Mandaram que se restringisse a eventos sociais. Dias depois houve o primeiro teste. JK apareceu de surpresa em uma festa de formatura no Iate Clube. Assim que adentrou no salão, começaram a aplaudí-lo. Então todos começaram a cantar Peixe Vivo, não paravam mais de cantar, nem JK de chorar.

5 – JK mudou-se de vez para seu aparamento na Superquadra Sul 208, em um edifício que tem seu busto na frente da portaria. E passou a frequentar de forma intensa a vida social da corte militar. Só festas, nada de comício. E assim foi a vida de JK por seis ou sete anos consecutivos, até o dia de sua morte, em 1976. Quase todos os dias alguém lhe oferecia uma festa em Brasília. E ele amanhecia no pilotis nos blocos cantando Peixe Vivo.

6 – Quando 1976 chegou, a linha-dura militar já havia extirpado as guerrilhas urbana e rural. Ao longo de 1975, passaram a perseguir implacavelmente o Partido Comunista Brasileiro, PCB, de linha pacífica, que não ameaçava o regime. Foi nesse contexto que morreram Wladimir Herzog, em fins de 1975, e Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976. A morte de Fiel foi a gota d’água que faltava para que o presidente Ernesto Geisel começasse a amordaçar a linha-dura e desse início à sua Abertura — lenta, segura e gradual, como anunciou.

7 – O regime militar vinha até nadando de braçada. Criaram o Milagre Econômico, no qual o país chegou a crescer a taxa de 14% ao ano, e permitiu que o país subisse de 47ª economia do planeta para 7ª. Era uma performance desenvolvimentista maior do que os Anos JK. Contudo, começavam os sinais de esgarçamento no sistema. O crescimento econômico ainda era grande, mas as taxas vinham diminuindo e havia sinais de crise à vista. Na política, a Arena foi derrotada pelo MDB de cabo a rabo nas eleições de 1974.

8 – Para completar, a Frente Ampla de oposição cogita em 1976 reaglutinar uma velha aliança entre JK, Lacerda e Jango. Foi quando os três faleceram, em meses distintos. Jango, que vivia no Uruguai se entupindo de picanha e costela gordurosas, morreu de infarte. JK, de acidente de carro. Lacerda morreria um ano depois. Foi nesse contexto que Carlos Heitor Cony escreveu um artigo cogitando a estranha coincidência da morte dos três em um curto período de tempo. Mais recentemente, no novo contexto das Comissões da Verdade, a teoria da conspiração tomou conta do Brasil. A Comissão Nacional da Verdade concluiu que a morte de JK foi acidente. A CV de São Paulo, sem investigar, concluiu que JK foi assassinado.

9 – Ora, e como foi o acidente (ou incidente) que levou à morte de JK e de seu motorista Geraldo? Ele estava em SP e alucinou para ver a amante no Rio. Os amigos (e Geraldo) fizeram de tudo para demovê-lo da ideia de viajar de noite pela Via Dutra. No céu, anunciava-se uma grande tempestade. Juscelino quis ir de qualquer jeito.

10 – Quando passava por Rezende, a tempestade estava extremamente forte. Não dava para ver nada à frente. Então um ônibus comercial bateu na traseira do Opala de JK, que atravessou a pista e bateu de frente em um caminhão, que arrastou o carro por uns 100 metros ou mais. De acordo com o motorista do ônibus, Josias Nunes de Oliveira, em depoimento em 2013, o Opala vinha na pista da direita e o ônibus na pista da esquerda. Então apareceu uma curva à direita. O ônibus começou a fazer a curva. Mas o Opala de JK, que estava um pouco à frente, não viu a curva por conta da chuva forte e seguiu em frente, sem fazer a curva. Foi assim que o ônibus bateu na traseira do Opala, que atravessou para a outra pista e bateu de frente no caminhão.

11 – Os militares já haviam matado entre 350 e 400 inimigos (“terroristas”) entre 1968 e janeiro de 1976. Tinham técnicas avançadas de simular “acidentes”, dentre elas, uma injeção letal, aplicada no meio da rua, na multidão, que provocava infarto fulminante. Tinham como maior inimigo Leonal Brizola, que já havia estado na mira do serviço secreto português, a Pide — mas que os generais decidiram dar ordens de poupá-lo. E tinham em JK um mero adversário, ora adormecido. Enfim, eles já estavam se preparando para entregar o poder quando morre JK.

12 – Aí fico cá a imaginar por qual razão, ao invés de aplicar uma injeção letal, eles organizaram o plano escalafobético de assassinar JK simulando acidente automobilístico. Devem ter descoberto que JK decidiu de última hora enfrentar uma tempestade na perigosa Via Dutra. Devem ter advinhado que o Opala iria ultrapassar o ônibus pela direita naquele ponto exato perto de Rezende. Por fim, só podem ter infiltrado um agente como caminhoneiro para bater no Opala de JK no exato instante que o ônibus esbarrou na traseira do Opala, jogando-o para a pista oposta. Tudo cronometrado.

Esses milicos deviam ser mesmo geniais. Não dá para compreender como é que, tão geniais em planejamento estratégico de um assassinato, conseguiram perder o poder para um grupo que tem, entre seus quadros, supostas historiadoras que dão entrevista alegando que assassinaram JK por inveja!

Por Hugo Studart