Compareci há pouco ao velório de dona Nazaré, mãe dos amigos Isabel e Theodoro Menck. Um evento singular, na sala do apartamento onde morava em Brasília. Ela, deitada em sua cama dos tempos de solteira, bela relíquia, crucifixo no alto da cabeceira, duas velas ao lado, cercada dos cinco filhos, muitos netos e bisneto. Estavam todos serenos.
Falecera ontem à noite, aos 93 anos, de causas naturais e esperadas. Estava a descansar no quarto quando sua vela apagou. Então filhos e netos foram estar a seu lado. Dormiram por lá mesmo, espalhados nos sofás.
Há muito que os filhos haviam decidido que a mãe teria a graça de fazer a Grande Passagem com máxima dignidade, no lar onde morava há 60 anos. Nazaré nunca gostou do ambiente de hospital. Usufruiu do direito de receber atendimento médico em casa.
E, ainda, teve a sorte louca de fazer a Passagem e os ritos fúnebres da forma como deve ser, seguindo a tradição mais antiga da Humanidade: na sala de visitas do próprio lar, cercada dos entes amados.
O nascimento é o grande momento das mães. Mas a morte é o instante maior do Ser. As decisões de Isabel, Theodoro e seus irmãos merecem aplausos efusivos, ainda maiores nesses tempos nos quais a peste vem maculando a dignidade dos mortos.
Em nome de suposta segurança sanitária, estão cometendo a indignidade de lançar sacos negros de carnes às covas sem os sagrados Ritos Fúnebres, sem as devidas honras, eivados de sensibilidades, muitas vezes sem testemunhas, enfim, corrompido das sacralidades. Estão coisificando a Condição Humana em nome de um vírus que é forte, sim, mas que deve de alguma forma contaminar entre um terço e metade da humanidade.
No ensaio O Narrador, Walter Benjamin reclama da frieza da morte moderna, na solidão de quartos cinzentos de hospitais. Os médicos, em nome de uma suposta ciência e da assepsia, renegam o mais relevante, os anseios da alma. Escreveu isso ainda na década de 1930, quando ainda não se intubava por qualquer razão, tirando o direito do passageiro de até mesmo se despedir dos entes queridos.
No mesmo ensaio, Benjamin lembra que a morte sempre foi um grande momento de aspersão de sabedoria, no qual o moribundo, sabendo da aproximação de seu Grande Dia, mandava chamar a todos para se despedir.
E vinha gente de longe para prestigiar o evento, no qual o protagonista, em geral deitado na sala de visitas, tinha a chance de declamar amores, perdoar rancores, falar de dissabores, conciliar, emitir lições sobre a vida que partia… e ficavam todos atentos às suas palavras, a seu Grande Momento, pois daqueles instantes finais muitas vezes emergia sabedoria.
Fiquei ao lado dos amigos velando Nazaré até às 20h, quando o carro da funerária chegou para levá-la. Deixei-os para que pudessem se despedir na intimidade do sangue. Amanhã terá um velório rápido, provavelmente vazio e frio, tal qual as autoridade sanitárias estão a exigir. Sempre com caixão fechado. Na sequência, ela será deitada à terra.
Pedi a Theodoro permissão para tecer algumas linhas sobre o velório da mãe para lembrar aos amigos como devemos honrar nossos mortos com sensibilidade. Ele agradeceu mesmo antes de ler.
Grande mulher, essa Nazaré criou filhos que a respeitam até depois da morte. Suba rápido com a Luz. E vá para uma morada de Paz.
(Hugo Studart)