Acabo de chegar em casa tomado de culpa. Já são mais de 22h. No início da tarde de hoje, estacionei o carro no Liberty Mall, centro de Brasília, a fim de participar da gravação de um vídeo. Um Sr. se ofereceu para lavar meu carro. “Quanto é?”. “20 reais”. Ok. Tirei os tapetes e tranquei o carro. Ele ainda me avisou que iria embora às 17h. Eu achava que retornaria bem antes.
O tempo foi passando, passando… Quando voltei ao carro, o Sr. ainda estava lá, só me esperando para receber seu dinheiro e voltar para sua casa na periferia. Pedi perdão, falei a verdade, que me esquecera por completo dele. Dei todo o dinheiro que tinha na carteira, só 30 reais.
Perguntei seu nome. “Jesus”. Deve ter uns 65 anos ou mais. Me ofereci para deixá-lo na rodoviária. Me disse que morre de medo de lá. Tomei coragem, pedi que colocasse a máscara e o deixei na avenida W-3. Me disse que hoje lavara quatro carros; voltaria para casa com 90 reais. Deixei-o no primeiro ponto. Ele agradeceu muito educadamente. Ao sair, borrifei álcool em tudo, no ar, minha cabeça, tudo!
Era meu dever pelo menos levá-lo para tomar o ônibus em local mais seguro. Ao longo de toda a tarde, tive várias chances de descer para lhe pagar. Mas aquele lavador de carros, para mim, era um homem invisível — e não um alguém que merecesse minha lembrança. Quando o revi, sequer me lembrava que era um senhor, quanto mais de seu rosto.
Anos atrás, li algo a respeito do conceito dos “homens invisíveis”, aquele exército de trabalhadores subalternos da megalópoles — lixeiros, varredores de rua, seguranças, guardadores de carro, balconistas, garçons, porteiros de edifício e afins. Para nós dos extratos mais favorecidos, eles não teriam rosto ou nome. Apenas nos são úteis, tais quais máquinas.
Quando li sobre os “invisíveis”, eu era o chefe da Sucursal em Brasília da revista IstoÉ-Dinheiro. Trabalhava lá uma senhora, faxineira e copeira. Me tratava como a um filho. Nunca lhe pedi nada, mas observou de quanto em quanto tempo eu tomava água ou precisava de café. E lá estavam água e café sem que eu pedisse. Observou como eu deixava minhas anotações na mesa. E no dia seguinte, a mesa estava limpa, com cada papel no mesmo lugar.
Mas eu nunca perguntara seu nome. Não tinha a menor ideia de nada a seu respeito. E já estava há quase dois anos naquela redação. Tomado de culpa, chamei a secretária

Suely Melo

e perguntei a respeito daquela senhora.

“Dona Zenalda” — revelou-me.
“Ahhh, Zenalda, Zenalda” — tratei de decorar.
A partir desse dia, passei a chamá-la toda hora pelo nome. “Por favor, dona Zenalda”. “Muito obrigado, dona Zenalda”. Era final do ano. Haveria festa de confraternização com amigo oculto. Então chamei dona Zenalda e avisei que estava convocada para a festa. Ela reagiu, disse que não precisava, que se sentia envergonhada e coisas assim. Pedi à Suely que fizesse uma gambiarra no sorteio para que eu pudesse dar o presente daquela “mãe invisível”.
A festa seria na casa da repórter

Cecilia Maia

, no bairro do Lago Norte. Chamei o motorista Marcão e pedi para que, na noite de sábado, pegasse dona Zenalda no final da Ceilândia e a levasse no Lago Norte. E depois a deixasse de volta em casa. Uns 150 km ida e volta. Ela foi. Levou o neto. Ficou quietinha no canto, acuada. Cecília, uma dama, fez o máximo para deixá-la à vontade. Não teve jeito. Foi um erro da minha parte, me toquei depois; teria sido melhor não forçar a barra para lavar minha culpa.

Desde então, venho sempre buscando dar visibilidade humana aos “invisíveis”. Pergunto o nome dos garçons, onde moram as balconistas, puxo conversa com os porteiros. Esqueço as informações assim que saio do restaurante. Mas graças à dona Zenalda, busco tratar com máximo respeito, ainda que por alguns minutos, esse exército de homens e mulheres que moram longe, acordam cedo, dormem tarde, trabalham muito e ganham pouco.
Hoje escorreguei no tomate. Não custava nada ter lembrado que havia um lavador de carros a quem eu devia 20 reais. Que Sr. Jesus me perdoe por ter chegado tão tarde em casa.
(Hugo Studart)
A imagem é uma obra do artista de rua Kevin Lee sobre a invisibilidade da pobreza. Me foi enviada por Paulo Lyra.