Tudo indica que Paulo Guedes tenha virado um cadáver insepulto
Bolsonaro, com seu jeito tosco de se expressar, hoje acertou duas balas de prata no centro do alvo:
1) O plano Guedes pós-pandemia consiste tentar tirar dinheiro dos pobres para os paupérrimos. E nada de exigir contribuições dos bancos ou do mercado especulativo.
2) Bolsonaro cobrou um plano econômico que leve o Brasil a começar a produzir e a gerar empregos. Mas Guedes ainda não incorporou a seu dicionário expressões como “emprego”, “trabalho”, “produção”, “desenvolvimento”, “crescimento”. Só pensa nos bancos.
Guedes tomou o poder acumulando nada menos que seis ministérios (Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento, Trabalho, Previdência e Administração). Mas fracassou na gestão dessas pastas. Não conseguiu cooptar os servidores de carreira. Ao contrário, os incitou a viverem em Operação Padrão, por vezes Tartaruga. Tem que esquartejar. O tal Ministério da Economia não deu certo nem vai dar.
Guedes conseguiu a incrível façanha de nos apresentar, em 2019, todos os indicadores econômicos entre 50% e 100% piores do que os deixados por Henrique Meirelles. Atenção: refiro-me ao ano passado, pré-pandemia. Este ano, deve conseguir a façanha de combinar recessão com inflação.
Antes da pandemia, o plano econômico de Guedes consistia em:
1) Cortar e vender; vender e cortar. Mas não conseguiu redução significativa nos gastos públicos. Nem com as privatizações. Sua lista de vendas é tomada de estatais estratégicas, como os Correios, que precisam ser bem geridas, não liquidadas.
2) Reformas estruturais. De fato, são essenciais. Mas os projetos preparados pela equipe econômica são completamente dissociados da realidade política brasileira. Desde o início o governo perdeu a primazia da pauta e do conteúdo final dos projetos. O Congresso só aprova o que quer e quando quer. Guedes acredita que com essas reformas, algum dia, sabe-se lá quando, os investimentos retornem ao mercado brasileiro.
Depois da pandemia, todos os governos relevantes do Planeta Terra tiveram que fazer duas mudanças de rumo essenciais:
1) Grandes gastos públicos com forte viés social para a pura e simples sobrevivência da população, deixando em segundo ou terceiro plano as demandas do mercado financeiro. No Brasil, Guedes e equipe estão apegados ao tal “teto” dos gastos. Pior, passa o tempo inteiro tentando tirar dinheiro dos pobres para dar aos paupérrimos, segundo as palavras de Bolsonaro. E nos bancos, nada?
2) Todas as economias relevantes do mundo, a começar por Estados Unidos e União Europeia, já formulam novas políticas econômicas baseadas na “reindustrialização”, ou seja, levar de volta indústrias e empregos que nos últimos 30 anos vinham sendo transferidos para a China. Mas Guedes continha sem receber os presidentes da CNI e da Fiesp e mantém um aspone sub do sub do sub, graduado em turismo (ou algo assim), tocando o outrora Ministério do Desenvolvimento (Indústria e Comércio). É um acinte ao setor produtivo e ao trabalho.
A política de Guedes diante da pandemia é, em essência, dar mais dinheiro para os bancos. Primeiro, nem cogita debater sobre os R$ 530 bilhões destinados este ano ao mercado financeiro a título de amortização da dívida. Mais: liberou R$ 1 trilhão adicionais para os bancos, dinheiro do compulsório.
Por esse conjunto de razões, a ala militar do governo aliou-se a alguns ministros com sensibilidade social, como da Infraestrutura e do Desenvolvimento Regional, para fazer um plano econômico alternativo, batizado de Pro Brasil, fundamentado no velho e bom New Deal de Roosevelt, ou ainda nos planos de investimentos públicos do regime militar de 64. Bom o ruim, pelo menos é algo concreto.
O mercado financeiro há muito já assimilou a queda de Guedes. Esse negócio de bolsa cai ou dólar sobe nada tem a ver conosco, nada, absolutamente nada. São apenas jogadas artificiais de espertalhões para ganhar milhões diários de otários que se arriscam na bolsa.
O que nos interessa de fato, de real, de concreto, são as duas expressões pronunciadas hoje por Bolsonaro: crescimento e emprego.
Guedes fracassou e Bolsonaro precisa de um novo ministro para a segunda metade de seu mandato — condição essencial para tentar a reeleição. Ele vinha tentando segurar Guedes até as eleições deste ano. Mas parece que não está aguentando nem até lá.
O melhor para o bem de todos e felicidade geral da nação é que Paulo Guedes peça pra sair. E possamos finalmente dizer: Tchau, querido!
Por Hugo Studart