Maíra e Nayara sobreviveram à tentação do aborto. Suas identidades serão preservadas.

Maíra é fruto de um estupro violento. Sua mãe era adolescente. Foi atacada por bandidos. Não os conhecia, não soube quem eram, nunca mais os viu. Decidiu prosseguir com a gestação. Conheci Maíra quando tinha um pouco menos de 30 anos. Era a melhor amiga de infância da minha ex-mulher.

Sua beleza impressionava — mas esse detalhe físico não tem a menor importância. O relevante é que o amor entre mãe e filha irradiava na cidade do interior onde morava. Muito unidas, sempre cuidaram uma da outra. Eu a vi três vezes. Maíra se casou com um cara bom e teve filhos. Está com cerca de 50 anos. Todos sabem de sua história na cidade. Ela também.

Nayara foi minha aluna na universidade. Sua mãe era adolescente quando ficou grávida. Os pais fizeram de tudo para que abortasse. Ela fugiu. Só retornou para casa quando a criança nasceu.

Foi criada pelos avós. Adolescente, começou a trabalhar. Economizava o dinheiro da pensão. Quando a conheci, com 20 ou 21 anos, há havia comprado dois imóveis para alugar e fazer renda. Fazia parte de um desses movimentos de jovens católicos. Tinha um namorado de há muito. Soube que se casaram.

Quando vi Nayara pela primeira vez, de súbito lembrei-me de Maíra. Ainda não conhecia sua história pessoal. A recordação emergiu da extrema semelhança física entre elas. A começar pelos sorrisos tímidos e pelos olhos verdes.

As leis que regulamentam o aborto consideram como princípio o direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo, assim como o conceito do bem estar emocional da gestante, seus desejos e não-desejos.

Jamais ousei julgar quem optou pelo aborto. Devemos respeitar essa opção. É (quase) sempre uma grande dor para a mulher. Algumas carregam a culpa por toda a vida. Alguns homens também.

Mas as histórias de Maíra e Nayara levam a refletir sobre a possibilidade de haver Amor e Vida para além das gestações indesejadas.

(Hugo Studart)