Dá vontade de soltar palavrões contra essas elementas, Luciana Noethen, Janaína Silva Rettich e Rachel Assad da Cunha. Mas ficam subentendidos para não configurar injúrias.

A delegada LUCIANA FERNANDA NOETHEN, da 16ª DP, da Barra da Tijuca, trancou o médico infectologista Ênio Studart dentro de uma cela tomada de fezes e urina. Havia fezes até nas paredes. Ele ficou cerca de oito horas nas fezes, de pé, ao lado de quatro outros presos, suspeitos de crimes graves.

O médico passou oito dias preso, incomunicável e inafiançável, acusado de ter ameaçado um paciente infectado com Covid-19 que se recusava a usar máscara.

Patricinha da Barra, a delegada Luciana Noethen especializou-se em apurar problemas envolvendo sua turma de emergentes, crimes passionais da classe média ou porte de drogas de famosos e outras diatribes das subcelebridades que gravitam em torno da Globo. Por método, chama a imprensa primeiro e escuta a versão dos suspeitos depois.

Doutora Noethen também sofre de fortes problemas de visão quando tem que observar os crimes de bandidos pés-de-chinelo, traficantes, bicheiros que tomaram conta da Barra e, principalmente, milicianos que estão com tudo dominado no Recreio dos Bandeirantes.

Recapitulando o caso do médico Ênio Studart. Depois de bater boca com o paciente (trocaram injúrias recíprocas, mas não se tocaram), o médico infectologista procurou espontaneamente a polícia para fazer um Boletim de Ocorrência. Relatou que foi agredido primeiro e ameaçado pelo paciente infectado, que disse ser policial, anunciou que estava armado e que iria lhe arrebentar.

O paciente Luizmar Quaresma Brum, com fortes ligações políticas na Assembleia Legislativa e que tem em seu CPF uma série de empresas da Baixada Fluminense, como shopping center popular, construtoras e redes de padarias e lojas de material de construção, disse que o médico teria lhe ameaçado com arma.

A delegada preferiu considerar somente na versão do empresário. Revistou o automóvel do médico e encontrou duas armas e munição. Ele explicou que era atirador desportivo e, antes de seguir para o trabalho, foi treinar no Clube de Tiro. Tinha os documentos do Exército em casa. Os policiais não revistaram nem o empresário nem seu automóvel.

A delegada então pediu “fiança” de R$30 mil, mas tinha que ser “em dinheiro vivo”. O médico não deu. Foi então preso em flagrante pela delegada, que o colocou por toda a noite em cela de fezes, ao lado de outros quatro suspeitos. No inquérito, foi enquadrado por porte ilegal de arma de fogo e por ameaça.

Aproveitou para convocar a TV Globo e outras emissoras, o jornal O Globo e outros veículos de imprensa de somenos importância. Pela manhã, o médico foi encaminhado para o presídio de Benfica, onde ficaria sob custódia aguardando a triagem.

A promotora de Custódia, JANAÍNA SILVA RETTICH, foi absolutamente implacável em seu parecer. Recomendou que fosse indeferido o pedido do advogado de relaxamento da prisão e liberdade provisória. Mais, pediu a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, ou seja, prisão por tempo indeterminado.

Juíza de Custódia de plantão, RACHEL ASSAD DA CUNHA, atendeu ao parecer da promotora. Além de considerar um “perigo para a sociedade” o médico que há 40 anos atua na linha de frente do combate à Aids, à tuberculose e agora ao Covid, argumentou a plantonista que mantê-lo na cadeia o ajudaria a se preservar da doença. E decretou sua prisão por tempo indeterminado, encaminhando o médico para a Penitenciária de Bangu.

“Converto a prisão em flagrante em prisão preventiva, como forma de garantia da ordem pública”, sentenciou a plantonista  Rachel Assad da Cunha.

Em Bangu, em uma cela solitária, em determinado momento o médico demonstrou sinais de estar emocionalmente abalado. Foi quando alguém que estava por perto jogou uma corda para dentro da cela. Justificou:

“Tai para te ajudar”

Como ainda há juízes (e promotores) no Rio de Janeiro, na terça-feira um novo promotor examinou o caso e pediu o relaxamento da prisão do médico. Na quinta-feira, novo juiz mandou soltá-lo — ambos merecem texto só para eles.

O médico infectologista Ênio Studart foi libertado no final da tarde de quinta-feira. Assim que deixou o presídio de Bangu, avisou um rosto amigo que estava a esperá-lo. Desabou a chorar. Decerto é humano.

EM TEMPO – O médico volta a trabalhar neste final de semana. Nenhum paciente desmarcou as consultas ou os exames. As consultas, obviamente, foram desmarcadas pela secretária pelo período no qual esteve preso. Mas os exames prosseguiram. Ele vai aproveitar o recolhimento em casa para analisar exames e emitir laudos médicos.