A imagem acima é do médico infectologista e pneumologista Ênio Studart, desde quinta-feira preso na Penitenciária de Benfica, Rio de Janeiro, incomunicável e inafiançável, sob a acusação de ter ameaçado com arma um paciente infectado com Covid que se recusou a usar máscara.

Informo aos amigos que o preso em questão é meu primo. Ele trabalha há 40 anos na pesquisa da Aids, cuidando de indigentes soropositivos, primeiro no Hospital do Caju, já fechado; nos últimos anos, no Hospital dos Servidores. Também tem uma clínica particular na Barra da Tijuca, onde trata daqueles que pagam suas contas para que continue cuidando dos indesejados e dos esquecidos. Há meses está sob forte tensão, na linha de frente da guerra contra o Covid.

Recapitulando o caso ora em questão:

1) Na última quinta-feira, atendeu na clínica da Barra um paciente infectado com Covid-19. Trata-se de um empresário da Baixada Fluminense, Luizmar Quaresma Brum, dono de shopping center, padarias, lojas de roupas, de material de construção e outros negócios.

2) O paciente recusou-se a usar máscara. Houve de fato um bate-boca. Os dois, médico e paciente, ficam muito alterados e há uma “troca de insultos”, segundo a versão do empresário. Ainda não sabemos dos detalhes, pois ele está incomunicável até para a família. De acordo com a acusação do paciente à polícia, o médico teria tirado o jaleco para brigar, empunhado uma arma e lhe ordenado que fosse embora. De acordo com o advogado, o médico não teria empunhado arma alguma. Mas perdeu o controle emocional.

3) Ele é atirador desportivo; tem todos os documentos do Exército e estava indo para o Clube de Tiro depois do trabalho. Ainda segundo o advogado, as armas estavam dentro de seu carro, no 4º subsolo da garagem.

4) Ênio andava extremamente nervoso por conta da combinação do sistema hospitalar inoperante, da corrupção dos governantes, da irresponsabilidade de muitos pacientes e, ainda, pela falta de segurança para os profissionais da Saúde que estão lidando com o Covid. Ele mora no Recreio dos Bandeirantes em uma casa de rua, não em condomínio. Dias antes um vizinho do quarteirão foi assaltado e executado dentro de casa. Ele tem três filhos. Para a família, ele está sendo testado bem acima dos limites suportáveis a um ser humano normal.

5) Após o bate-boca, o médico foi se apresentar na delegacia mais próxima para relatar o incidente. O empresário chamou a polícia à clínica; apareceram rápido dois camburões. Na delegacia, fizeram revista no automóvel do médico e encontraram duas pistolas, munição e pende de carregar. Ele não estava com os documentos do porte de arma, que aliás já foram encontrados em sua residência. Venceram em abril, mas por conta do isolamento, todos os portes de arma foram automaticamente prorrogados até fins de setembro.

6) Em algum momento, um dxs delegadxs de plantão lhe exigiu 30 mil reais, a título de “fiança”, mas em “dinheiro vivo”.  O médico não quis pagar fiança em “dinheiro vivo”; parece que não entendeu como funciona o sistema policial  e judiciário do Rio: em dinheiro vivo. Foi quando delegadx decidiu determinar sua prisão inafiançável e incomunicável, sob a acusação de porte ilegal de arma e de ameaça. Assim, foi recolhido imediatamente à Penitenciária de Benfica, onde permanecerá incomunicável e inafiançável até a audiência de custódia com um juiz, que poderá ser nesta segunda-feira, ou não.

7) A imprensa está apresentando o médico como um doido. O promotor já se pronunciou. Foi implacável com o médico e complacente com a versão do paciente irresponsável e daquelx delegadx inclemente que pediu 30 mil, em dinheiro vivo, a título de fiança.