Sim, é meu primo. Aliás, muito querido. Os amigos estão a me perguntar qual a ligação com o médico do Rio de Janeiro acusado de sacar uma arma contra um paciente. Que Merda! 

Que Merda que podemos cometer sob a pressão dessa praga do Apocalipse. Eninho, é assim que sempre o chamamos, está na linha de frente do combate ao Coronavírus. Tem 60 ou 61 anos. Sempre foi doce, meigo, educado, emotivo e bom. Extremamente bom.

Formou-se em Medicina pela UFRJ. Muito cedo, foi para a linha de frente no tratamento à Aids. Pesquisava sobre tuberculose em soropositivos. Enquanto seus colegas buscavam atuar na Zona Sul carioca, ele saia de Ipanema, onde foi criado, para cuidar de indigentes com Aids nos hospitais públicos. Virou referência em pneumologia.

Depois montou sua própria clínica na Barra da Tijuca, contudo, jamais deixou de cuidar dos desfavorecidos. Tratou com extremo carinho minha mãe, aliás, sua madrinha. Era da sua índole que acabasse também na linha de frente no combate à peste atual.

Não sei em qual momento passou a usar armas. Suponho que seja consequência da violência que assola o Rio. Seu habitat hoje é terra de ninguém. Tinha porte de arma. Virou atirador desportivo. Andava extremamente nervoso por conta da encruzilhada da peste sem controle com a desídia dos governantes.

Ontem um de seus pacientes com Covid recusou-se a usar máscara durante a consulta. Discutiram. O médico perdeu o controle e teria sacado a arma, de acordo com o paciente. Que merda! Ainda não conheço os detalhes da discussão, mas é provável que o paciente irresponsável tenha sido a gota d’água do que vem passando naquela zona de guerra, com sistema inoperante, staff ignorante e falta de segurança para os profissionais da saúde.

Foram ambos para a delegacia. A polícia encontrou duas armas no seu carro. Ele estava a caminho do Clube de Tiro. Ênio foi preso em flagrante, acusado de ameaça e porte ilegal de armas. Que merda, que merda!

Tudo indica que ele tenha errado. Mas que atire a primeira pedra quem não ficaria extremamente sensível na linha de frente do combate a esta peste sem controle. Assim, caros amigos, evitem julgamentos implacáveis, mais que isso,  perdoem de antemão esse grande médico que sempre arriscou a própria vida em nome da Vida. Ele está sendo testado bem acima dos limites suportáveis a um ser humano.

Na foto, estamos eu e Ênio no casamento de uma tia. Ele, à direita.

EM TEMPO – conversei há pouco com meu tio Enio, pai do Eninho. Segundo me explicou, as armas estavam dentro do carro, na garagem, quatro andantes abaixo do consultório. Ele iria para o estande de tiro treinar. Disse que o filho não sacou arma para ninguém, mas que teve um bate-boca pesado com o paciente, no qual ambos perderam as estribeiras. Que o paciente é amigo da delegada, que atestou sua versão. Eninho continua preso. O advogado vai tentar audiência  com o juiz para segunda- feira.