… mas agora o divino ser que criou isso foi ver Deus de perto.

Se passou a vida toda não prestando muita atenção em Deus, mas com inspiração divina permanente, em 2019 passou a acreditar existir “outras coisas inexplicáveis entre o céu e a terra”. Ele era uma dessas ‘coisas”. 😞

No fundo, o que acredito do episódio é que seres magistrais (e esses podem ser encontrados em qualquer camada social) saem da vida aos poucos, são tomados por sensações de estarem mesmo em ritual de despedida daqui pra ir para um lá já participado, sentem o sublime chegando e enxergam isso com muita clareza. Voam.

Tenho vontade de voar. Mas não sou um ser magistral. Mas ter vontade talvez já seja um ato magistral. Se não se é um ser, atitudes podem dizer muito sobre nossas intenções.

Há vôos e vôos, Hugo, escolha o teu.

“Estou sentindo profundamente a morte do Ennio Morricone. Como se fosse alguém do meu sangue. Aqui entre nós, ele, em 2019, começou a ter “sinais” que o tempo dele estava encerrando. Apesar da idade e lucidez, simplesmente sentia isso. Juntei algumas economias e cavei a oportunidade de vê-lo, ainda que por minutos. Eu pensei: melhor arriscar agora, pois nós nunca sabemos quando as partidas acontecem. E precisava estar no mesmo local que ele para me curar também dos tempos da vida. As obras dele têm esse grau de profundidade. Muita gente gasta horrores com terapias, fármacos controlados. Eu investi na mais pura arte para me trazer um tanto de volta.
As pessoas não vão para a Disney? Pois é. O Ennio Morricone foi a minha Disney. Ele é um extraterrestre. Fui pra outra galáxia atrás dele. E consegui. Ontem foi possível. Hoje não mais. A vida é um sopro, como disse Niemeyer.
Vou encomendar uma missa de 7° dia. Pra você ver o grau do sentimento. Na missa terei que pedir pro padre dizer Ennio somente, senão nem o padre vai entender.
Perdas. Mas ninguém disse que o Reino é daqui. Ao contrário. O único alguém confiável para essa afirmação disse, inclusive, que não é.”
Por Adriana Arantes