Por Hugo Studat
Mestre Akira Kurosawa tem um personagem em sua obra prima Dersu Uzala que bem ilustra a história do amigo que acabamos de perder,

Egon Valmor Somnitz

. O corpo Egon foi encontrado ontem à tarde em seu quarto. Vivia há muito em solidão e melancolia. O isolamento imposto por essa peste lhe foi cruel. Falecera há quatro dias; um vizinho teve que arrombar a porta.

Dersu Uzala era um caçador dos confins da Sibéria, último remanescente de sua etnia. Passou a vida em companhia tão somente dos seres das estepes, “gente” como os animais, o fogo e o vento. Em 1900, um capitão do Exército russo o encontra e o recruta como guia na missão de fazer a topografia dos últimos pontos da Sibéria.
De determinado ponto do enredo, o grupo acampa no quintal de um chinês solitário. O personagem havia perdido a esposa há 50 anos; ela o traíram e fugira com seu próprio irmão. Então entrara em melancolia profunda. Estava há 50 anos em silêncio, triste, em uma choça perdida no meio do nada. Dersu pede aos soldados que não interrompam o silêncio do chinês.
Mas à noite o grupo canta em volta da fogueira. Ao amanhecer, o chinês procura o capitão para agradecer pela Vida e se despedir. A música o tirara da melancolia. Ele já estava com a mochila nas contas; decidira retornar para casa.
Egon era funcionário aposentado do Banco de Brasília, BRB. Ocupara cargos relevantes como executivo. A primeira vez que lhe visitei em casa, tomei um susto. Não havia móveis, apenas uma cadeira mambembe à frente de uma mesa velha e barata em sua cozinha. Era divorciado, tinha uma filha que, acredito, não o visitava. Pensei que a separação tivesse sido recente. Não, já fazia mais de 15 anos que estava assim. Como no caso do chinês de Kurosawa, algo de essencial havia se rompido em seu coração.
Conhecemo-nos em uma pequena confraria que procura se encontrar mensalmente, umas 15 ou 20 pessoas a tomar uísque, fumar charutos e falar temas por vezes relevantes, outras, só banalidades. Era um homem essencialmente bom, que transbordava carência e solidão — mas sobretudo bondade.
Nunca nos contou sua história. Mas buscamos abraçá-lo com carinho. Forçamos encontros em sua casa vazia. Um dos nossos, Marcelo, ungido com uma família grande, unida e alegre, o adotou com mais ênfase. Egon passou alguns Natais e Anos Novos com a família de Marcelo.
Havíamos decidido que, dentro de um ano, seria ele o novo presidente de nossa confraria. Exalava felicidade. Parecia o chinês de Kurosawa pronto a voltar à Vida. Então veio a peste e paramos de nos encontrar.
Ainda não sabemos como Egon faleceu. Há indicios de que tenha caido da cama e batido a cabeça. Ninguém para socorre-lo a tempo.
O ser humano não está preparado para viver sozinho como os lobos. Precisa de família.
(Optei por não publicar a foto de Egon. Mas uma imagem do chines de Dersu Uzala).