por Hugo Studart
Andei refletindo sobre as razões pelas quais a Alteridade me enviou para esta Terra. Mais que isso, de uns tempos para cá ando pensando sobre o Propósito da Vida, aquelas indagações fundamentais da Filosofia: quem sou, de onde vim, para onde vou e, sobretudo, o que estou fazendo aqui? Qual meu grande sonho?
Mas quem controla as rédeas da Vida? O Criador? Ou seja, será que nossa História foi previamente escrita? Maktoub, maktoub! Ou somos produtos das escolhas essencialmente humanas, aquela máxima: aqui se planta, aqui se colhe? Existiria um meio termo entre os desígnos de Deus e a vontade do Homem?
Afinal, quem somos? Devemos questionar, em especial, para onde vamos? Ora, é preciso primeiro compreender, como registra Benjamin, que a estrada que nos leva ao futuro é a mesma que nos trouxe do passado. Por essa razão, para alcançarmos os objetivos a que nos propomos, para tentar materializar nossos sonhos e construir a própria História neste mundo, precisamos ter uma clareza sobre nossa trajetória que só pode ser obtida se recuperarmos o que deixamos atrás de nós exatamente nos lugares de onde viemos.
Assim, história de vida de cada Ser é um eterno ponto de encontro da recordação com a Esperança.
Pensem primeiro no tempo, meus queridos amigos. Tudo tem seu próprio tempo. E na Bíblia está escrito que há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e de sorrir; de falar e de silenciar. Mas há sobretudo o tempo de construir e tempo de desfazer.
Sempre gostei de observar o tempo passando. As estações do ano, muito marcantes. Tempo de seca e tempo de chuva, de plantar e de colher. É emocionante o tempo de florescer. As flores desabrocham com todas as cores, odores e sabores.
De todas as idiossincrasias do tempo, a alvorada é a mais significativa. Trata-se de um espetáculo tão lindo, mas que acontece justamente quando a maior parte das pessoas está dormindo. É naqueles instantes mágicos, quando a luz do Sol rompe as trevas da madrugada, quando emergimos das profundezas dos sonhos para as luzes da razão, que o ciclo da vida pode ser melhor compreendido.
O nascimento do dia é sempre intenso. Mas todo dia não é o mesmo tempo. Nem as mesmas emoções ou as mesmas lembranças. Como na conhecida metáfora do rio proposta por Heráclito, a paisagem é sempre igual, mas as águas de hoje jamais serão as mesmas de ontem.
Assim também é o nascer do Sol. Vem aspergindo esperanças. De trabalho, de amores, de acabar com todas as dores e colher apenas flores. Mas os frutos que desabrocharão amanhã vão depender das sementes que plantamos ontem.
Podemos plantar nosso Destino? Será que podemos controlar os acontecimentos do dia que chega? Até que ponto é possível participar da construção da trama da História?
Dormimos sem respostas. E na manhã seguinte queremos recomeçar. E nos cobramos pelo que não terminamos. Se levantamos todo dia, é porque refletimos sobre o passado. Buscamos em nossos erros e acertos a compreensão do presente com o objetivo de construir o futuro. Se caminhamos todo o dia, é porque nutrimos a Esperança de conhecer, ainda nesta vida, aquele maravilhoso lugar ao qual chamamos Paraíso.
Assim, quando o Sol desponta no horizonte e encontra algum idealista ou sonhador de pé, ocorre um fenômeno que parece físico, mas em verdade é metafísico – no qual as sombras do ontem projetam-se sobre o dia de hoje, apontando a direção das luzes do amanhã. Então passado, presente e futuro se entrelaçam, fazendo de toda alvorada a encruzilhada mágica da recordação com a Esperança.
E foi numa dessas alvoradas que levantei refletindo sobre meu propósito nesta vida. Qual meu grande sonho a ser materializado? Já fiz muitas escolhas. Algumas certas, outras erradas. Então, em um instante de sintonia com a Alteridade, uma encruzilhada mágica, me veio a resposta: ESCREVER. É isso que minha alma deseja fazer pelo resto da vida, todos os dias: apenas escrever.
Compreendam que, para mim, escrever é uma obsessão. O escritor pode até cometer seus textos com um amor cuidadoso e sereno. Até mesmo com paixão. Mas no caso daqueles nascidos com esse propósito, trata-se de uma paixão glutona, antropofágica, erótica, que o faz acordar de madrugada com um texto na cabeça e o arrasta para o computador. Que se apossa de sua alma e lhe toma a atenção por todo o dia (e a noite também). Que leva sua carne a esquecer de beber ou comer, que toca a chama dos dedos e salpica entusiasmo, como pimenta no regaço. Enfim, obsessão que leva o protagonista a sintonizar com uma inspiração divina, metafísica, que propicia a ligação da letra inicial com o ponto final.