Por Hugo Studart

Eis uma tentativa de síntese do quadro político do momento, com recapitulação dos fatos:

1) Bolsonaro vem conduzindo mal a crise do coronavírus; em razão disso, vem perdendo boa parte da classe média, aquela que, de acordo com clássico Helio Jaguaribe, “é o pêndulo do sistema” — a mesma que, na reta final, lhe deu a vitória em 2018.

2) De acordo com as pesquisas Ipespe/XP, Bolsonaro estaria no momento no patamar de 50% de rejeição e 25% de aprovação. Teria desabado 14 pontos percentuais em um pouco mais de dois meses. Observem que usei os condicionais “estaria” e “teria”. Trata-se de um indício, não de uma verdade absoluta — como se em política houvessem verdades.

3) De acordo com o analista Marcos Coimbra, do Vox Popoli, tende a cair até o patamar de 20%. Esse seria seu piso; daí para frente, não cairia mais. Sim, Coimbra é primo do Collor e fez pesquisas sob encomenda do PT na Era PT. Mas isso não invalida sua previsão. Lembro que 20% representam uns 20 milhões de eleitores e 40 milhões de cidadãos. Ainda assim é uma base significativa. Mas insuficiente para uma reeleição.

4) Político é um bicho esperto. Em Brasília, o piorzinho deles é apenas deputado federal eleito. Lá atrás, ainda em março, eles farejaram oportunidade de se dar bem, tiraram poderes do Executivo e passaram a ameaçar seriamente Bolsonaro com o impeachment. Mais que isso, acalentaram um golpe parlamentar com a reeleição do Rodrigo Maia e a implantação na marra de um semi-parlamentarismo, ou um presidencialismo desdentado. E vão continuar ameaçando até que recebam tudo o que desejam em verbas e cargos. É um jogo mafioso, mas esse é o jogo o qual Bolsonaro conhece bem há uns 30 anos.

5) O Supremo entrou no mesmo jogo do Congresso a fim de enfraquecer o presidente e puxar o poder para Suas Sapiências. E o Supremo deve continuar ameaçando com o impeachment para manter Bolsonaro acuado.Por que só Guedes pode derrubar Bolsonaro

Eis uma tentativa de síntese do quadro político do momento, com recapitulação dos fatos com previsões sobre o futuro:

1) Bolsonaro vem conduzindo mal a crise do coronavírus; em razão disso, vem perdendo boa parte da classe média, aquela que, de acordo com clássico Helio Jaguaribe, “é o pêndulo do sistema” — a mesma que, na reta final, lhe deu a vitória em 2018.

2) De acordo com as pesquisas Ipespe/XP, Bolsonaro estaria no momento no patamar de 50% de rejeição e 25% de aprovação. Teria desabado 14 pontos percentuais em um pouco mais de dois meses. Observem que usei os condicionais “estaria” e “teria”. Trata-se de um indício, não de uma verdade absoluta — como se em política houvessem verdades.

3) De acordo com o analista Marcos Coimbra, do Vox Popoli, tende a cair até o patamar de 20%. Esse seria seu piso; daí para frente, não cairia mais. Sim, Coimbra é primo do Collor e fez pesquisas sob encomenda do PT na Era PT. Mas isso não invalida sua previsão. Lembro que 20% significa uns 20 milhões de eleitores e 40 milhões de cidadãos. Ainda assim é uma base significativa. Mas insuficiente para uma reeleição.

4) Político é um bicho esperto. Em Brasília, o piorzinho deles é apenas deputado federal eleito. Lá atrás, ainda em março, eles farejaram oportunidade de se dar bem, tiraram poderes do Executivo e ameaçaram seriamente Bolsonaro com o impeachment. Mais que isso, acalentaram um golpe parlamentar com a reeleição do Rodrigo Maia e a implantação na marra de um semi-parlamentarismo, ou um presidencialismo desdentado. E vão continuar ameaçando até que recebam tudo o que desejam em verbas e cargos. É um jogo mafioso, um teatro, mas esse é o jogo o qual Bolsonaro conhece bem há uns 30 anos. Ele não adestrou o Congresso fez a reforma política quando podia fazer, assim que entrou e estava extremamente forte; agora não tem mais poderes para tal.

5) O Supremo entrou no mesmo jogo do Congresso a fim de enfraquecer o presidente e puxar o poder para Suas Sapiências. E o Supremo deve continuar ameaçando com o impeachment para manter Bolsonaro acuado. Faz parte do teatro. Bolsonaro também não fez a reforma do Supremo quando podia e agora não pode mais. Vacilou.

6) De início, Bolsonaro reagiu com a radicalização. Muitos analistas avaliaram que estaria tentando o golpe. Seus filhos e seguidores, de fato, pregaram a volta do AI-5, fechamento do Congresso e do Supremo. Mas não ouso afirmar que Bolsonaro queria o golpe, mas apenas que teria dado a entender e se excedido em seu jeitão espontâneo de ser.

7) O ministro da Defesa e os comandantes das Três Forças Armadas negaram-se, pública e peremptoriamente, a participar de qualquer aventura. E também enviaram emissários ao Congresso e ao Supremo sugerindo, gentilmente, que baixassem a bola. E mais: os generais com assento no Palácio, autodenominados “Gabinete Moderador”, aconselharam Bolsonaro a se acertar logo com o Congresso, dentro das regras da democracia participativa. Bolsonaro está “seduzindo” os ilustres parlamentares com promessas de cargos e de verbas. Ademais, os generais estão forçando uma reforma ministerial (eles chamam de ‘ajustes”) para acomodar indicados políticos e melhorar a performance do governo como um todo.

8) Neste momento, estão quase todos os vetores políticos de volta ao jogo de desde sempre — o toma lá, dá cá — e a favor do presidente. O único ainda fora da curva parece ser Sua Sapiência Celso Melo. Há a possibilidade de estar cumprindo um papel acertado com seus pares, qual seja, manter o presidente acuado ao longo de 2019.

9) Bolsonaro tem a hegemonia das ruas. Lembrando que são entre 20% e 25% do eleitorado (uns 25 milhões) dispostos a fazer passeatas toda semana, se preciso for. Ele tem, sobretudo, aquele povão que anda de ônibus e come em marmita. Apoio forte, quase incondicional. Por outro lado, a maioria de 50% que ora o rejeita, está podendo permanecer em casa, em isolamento, se queixando do presidente. Mas é certo que um dia voltarão às ruas. Bolsonaro pode ter a grande mídia contra, mas sem dúvida emergiu das pendengas com Sergio Moro com a hegemonia da narrativa. Ahh, tem robôs ajudando. É óbvio que tem, mas o PT também teus seus robôs.

10) Em síntese, o quadro neste momento é que a favor de Jair Bolsonaro. Quase todos os vetores políticos estão a seu favor. Contudo, o vetor determinante é a economia. Nesse aí, o ministro para quem deu seis ministérios em um só, além de carta branca, está perdendo de lavada, com todos os indicadores econômicos entre 50% e 100% piores do que os que recebeu de Henrique Meirelles. Mais que isso: seu plano para enfrentar a crise decorrente do Coronavírus é prosseguir no mesmo caminho, rumo ao desastre, empanturrando os bancos de dinheiro e negando a existência de expressões como “produção” e “trabalho”.

Em setembro, quando a crise do coronavírus se for e a primavera chegar, é provável que o Brasil tenha mais de 50 milhões de desempregados. A partir daí, tudo pode acontecer. A começar pela inversão da hegemonia da narrativa e das ruas, aquilo que os especialistas chamam de opinião pública. É possível, inclusive, Paulo Guedes conseguir derrubar Bolsonaro. Ou não reelegê-lo.

Mas como dizia o velho senador Magalhães Pinto:

“Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito; olha de novo e já mudou”.