Por Hugo Studart

Não é preciso experimentar certas bizarrices para saber que não gostamos. Mas amigxs de esquerda me criticaram muito por eu ter escrito que “não assisti e não gostei” da participação no Roda Viva do influencer digital Felipe Neto.

Ora, ora, tal qual na política, não precisamos experimentar sexo sado-masoquista, necrofilia ou coprofilia para descobrir se vamos gostar (ou não). É não, não e não — e ponto final!

Como já relatado, fui apresentado a esse influencer há um pouco mais de dois anos pelos filhos adolescentes de uma ex-namorada. Eles também amavam video-clips coreanos, um horror. Mas eram garotos ótimos, preciso reconhecer.

Felipe fazia o papel de palhaço debilóide estilo Tiririca. Tinha uns 10 milhões de seguidores e vinha fazendo todo tipo de idiotice histriônica para se aproximar da estrela da ocasião, Whindersson Nunes, um comediante muito mais sóbrio nas ironias, então com uns 20 ou 25 milhões de seguidores.

Eis que, depois da ascensão de Bolsonaro, o Tiririca digital resolve se apresentar com um verniz de esquerda politicamente correta e, surpresa!, ultrapassa 30 milhões de seguidores.

O fato dele ter chegado ao Roda Viva não nos obriga sequer a assisti-lo. Também não gosto de Anitta sem ao menos tentar escutá-la. Idem para o influencer predileto do Carluxo, um olavete chamado Leandro Ruschel, que também nunca li e não gostei. Tem muitas outras sub-celebridades no mundo digital.

Eles não servem sequer para tentar acessar a cabeça de meus três filhos mortadelas. Graças da Deus, são todos intelectualmente consistentes. O mais velho tem viés humanista e consome Tolkien e Hesse; outro, segue de paixão o anárquico José Celso Martinez Corrêa; a caçula, estuda gênios da arte contemporânea como Duchamp e Oiticica.

Sou um tradicionalista até mesmo com a asa esquerda, confesso. Aos amigos que quiserem dar um mergulho em esquerda consistente, permitam-se passar minha lista de sugestões:

Pensadores – O anarquista Proudhon e o marxista Walter Benjamin são imbatíveis. Observem que omiti Marx.

Históricos – o capitão-camarada Prestes é inigualável, apesar dos muitos erros; Brizola precisa ser respeitado, idem apesar dos erros.

Militância – Sigo o Fernando PN Gabeira Gabeira e Cesar Benjamin, ambos ex-guerrilheiros do MR-8. Pela coragem do outrora, sobretudo, pela lucidez intelectual do agora.

Próximos – amo os amigos comunistas camaradas Luís Mir e Mario Nelson Duarte, ambos pela consistência histórica e política. Também admiro pela capacidade crítica dos social-democratas (centro esquerda) professores Cristovam Buarque, Bolívar Lamounier, Carmen Lícia Palazzo e Paulo Roberto de Almeida, sendo o último um liberal com viés gouche.

Assim sendo, carxs amigxs, por favor, pelo amor de Deus, não me cobrem a involução intelectual ou política. Pois usar o pouco tempo do qual dispomos com Filipe, Anitta ou Leandro é masoquismo. Reverberá-los é sadismo. Apreciá-los é coprofilia.