Guedes fica, mas o Brasil precisa de um plano efetivo

Paulo Guedes foi a presença dissonante no pronunciamento de hoje do presidente, cercado por todos os ministros. Não pela indumentária, mas pelo fato de ter sido o único a não aplaudir o chefe. Boatos no mercado de que estaria para sair. Há pouco confirmei que deve ficar, pelo menos mais um tempo.
Mas está praticamente certo que seu ministério será mesmo esquartejado. São seis ministérios nas mãos de um só ministro (Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento, Previdência, Trabalho e Administração). Os generais pressionam muito Bolsonaro pela divisão de poderes de Guedes. Ele está quase cedendo, mas ainda não fechou.

O que estaria por trás? Aproveito para republicar artigo de minha autoria que escrevi hoje bem cedo, antes da saída de Sérgio Moro ocupar todas as atenções:

Disputa entre os Donos do Poder

Paulo Guedes, desde o inicio, tem um plano coerente para tentar ajustar a economia por meio do incentivo aos bancos. O mercado financeiro amou e ainda confia nele.

Mas nunca fez uso da expressão “emprego” e relegou o setor produtivo, sobretudo indústria, ao zero à esquerda. Não recebia sequer o presidente da CNI, nem da Fiesp, que eram obrigados a enviar emissários para chorar diante do sub do sub do sub de uma tal Secretaria de Produtividade, sucessora do outrora poderoso Ministério da Indústria e Comércio, rebatizado de Desenvolvimento.

A indústria pediu socorro aos generais do Palácio em nome da velha aliança firmada em 1964, que desaguou no Milagre. Generais e industriais nada conseguiram com Guedes. Mas pelo menos o Exército criou plano estratégico de tentar ressuscitar as industrias química e bélica.

E agora, diante do Apocalipse Econômico Global, Guedes apresentou um plano emergencial liberal que, em sintese, consiste em ajudar os bancos para que emprestem dinheiro a juros menores às empresas. Isso mesmo! Tentar retomar a economia incentivando um pouquinho as empresas por meio dos bancos.

Metade do Orçamento da União já ia para os bancos a título de amortização da divida pública. Agora, segundo admitiu o próprio Guedes, deve chegar a 80%. Essa é a solução Guedes: bancos.

O setor produtivo está furioso. Como resposta, esta semana o general Braga Neto, da Casa Civil, anunciou um plano de reconstrução do pais por meio de obras públicas ou privadas. Sem a presença de Guedes ou de qualquer assessor da Economia. Foi chamado de Plano Marshall, ainda que esteja mais para o New Deal de Roosevelt.

Agora temos um governo bipolar. De um lado, controlando as fortalezas burocráticas de seis ministérios (Fazenda, Planejamento, Desenvolvimento, Previdência, Trabalho e Administração), temos o representante dos bancos. Conta com o apoio incondicional do setor financeiro, que tem o presidente da Câmara como outro representante.

Do outro lado, ressurgindo a velha aliança entre militares, industriais e empreiteiras, que buscam a retomada do poder e o tradicional projeto nacional-desenvolvimentista. Contam com a hegemonia no Senado e com outras fortalezas ministeriais, como Infraestrutura, Energia e Tecnologia, redutos militares. Como tática, tentam convencer o presidente a fazer uma reforma ministerial na qual lutam por esquartejar a Economia em quatro pastas.

O grande problema desse “Plano Marshal” é que ainda é muito rudimentar.

Cesar Benjamin, atento analista econômico, o compara ao PAC de Dilma. “Na verdade, ele não apresentou plano nenhum (acho que ele mesmo reconhece isso). E suspeito que ele e sua equipe não saibam fazer nada que mereça este nome. Como, aliás, o PT também não sabia”.

O agronegócio, ao que tudo indica, ainda não tomou posição.

No meio, um presidente da República que emite indícios de que ainda não teria entendido o que realmente está em jogo. Ora tem dito aos generais: “Deixa o Guedes”; ora se mostra irritado com a falta de resultados de seu superministro. Ainda não se sabe para qual lado vai pender. Ou quando.

Enquanto isso, deflagra novas brigas desnecessárias dentro do próprio governo e ações fisiológicas junto aos parlamentares para tentar alugar o apoio da maioria deles e evitar a corrosão de seu poder. Tudo indica que vai conseguir. Ainda que o preço de hoje esteja três vezes maior do que há um ano.

(Hugo Studart)