Nosso atual presidente não tem ciência nem tenência do verdadeiro Poder

 

Ainda não dá para saber ao certo se o homem fica ou vai, como fica (se ficar) ou quando vai (se de for).

Mas é bom lembrar que o Brasil tem dono. E neste instante eles decerto já estão a conversar. Quem são eles, afinal?

Mestre Raymundo Faoro descreveu-os no clássico “Os Donos do Poder”. Eram outros tempos. Os acadêmicos os tratam por establishment. Prefiro chamá-los de Donos do Brasil.

Observando-se a História, constatamos que os Donos do Poder são aqueles que controlam as armas e o dinheiro. Os demais, incluindo presidente da República, operam para eles no Executivo, Legislativo e, também, no Judiciário — sobretudo no Supremo.

Apenas 33 grupos empresariais, talvez 35, fazem parte de oligopólios que controlam 2/3 da economia. Em 2014, financiaram 2/3 das eleições presidenciais e dos partidos. Mas em 2018, completamente acossados pela Lava Jato, eles perderam boa parte do controle. O fato mais relevante foi a eleição de um outsider para a Presidência da República.

A quase totalidade dos nossos presidentes estavam inseridos no Poder e no controle do governo. Fernando Henrique e Lula são exemplos. Outros, jamais compreenderam a engrenagem. Collor e Dilma estavam fora do eixo enquanto presidentes. No caso de Collor, há muito já tomou a lição. Dima parece ainda estar no ar.

Nosso atual presidente dá sinais de que não tem ciência nem tenência do verdadeiro Poder.

Aqueles que detém as armas estão unidos como raras vezes estiveram na História do Brasil. E também empoderados. Estão (ou estiveram) ombro a ombro com o presidente, pois sabem que o atual governo tem imagem indissociável da reputação das Forças Armadas. Mas há fortes indícios de fadiga de material.

Aqueles que detém o dinheiro estão divididos como raras vezes na História. Os bancos estão no poder absoluto desde a ascensão de FHC.

Setor produtivo, com indústrias e construção civil, está derretendo. No final do governo Dilma, indústria chegou ao nível de participação no PIB igual ao de Vargas 2, pré JK. Paulo Guedes não deu a menor importância para eles.

Em meados de 2019, os capitães da indústria pediram ajuda aos donos das armas em nome da velha aliança que os levou ao poder em 1964. Estão juntos desde então.

Agronegócio, a terceira força econômica, ainda não tomou posição — se ao lado dos bancos, ou das indústrias. Não arrisco prognóstico.

Congresso Nacional é apenas um teatro. É lá que ocorrerá o desenrolar do enredo, tendo o Supremo como palco coadjuvante.

Quanto aos atores, os ilustres inquilinos do Congresso Nacional, até recentemente poderiam ter sido comprados. Estavam baratos, em liquidação. Mas agora os contexto mudou. Eles podem até ser alugados, mas o preço subiu a valores indecentes. O presidente precisa pagar.

O pior é que, como no exemplo de Dilma, eles se alugam, mas por vezes não entregam a mercadoria. Pelo menos 2/3 deles vão seguir as ordens dos patrões, os Donos do Poder.

(Hugo Studart)