Virou questão de honra para o presidente Jair Bolsonaro se livrar do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Dias atrás, o filho Carlos, o Carluxo, invadiu o gabinete de Mandetta para tirar safisfação.

À saída, no hall que separa o ministro do chefe de gabinete, o Zero-Dois perdeu o controle e gritou: “Filho da puta, traidor, você vai ter que obedecer meu pai”.

Ainda não foi definido quem vai para o lugar de Mandetta. Circulou o nome de outro militar, Flávio Rocha, assessor especial do presidente, que acumula a função de Secretário de Assuntos Estratégicos, dentre outras tarefas. Já é público que Bolsonaro entregou a Rocha a missão de finalizar um plano de abertura do isolamento social horizontal.

O general de exército Antônio Miotto, Comandante Militar do Sul, foi chamado a Brasília. Seu novo postou deverá ser no Palácio do Planalto.

Ainda não vazou se ficará no lugar de Flávio Rocha ou do general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo da Presidência. É público que Bolsonaro está insatisfeito com o desempenho de Ramos na coordenação política do governo.

Vale lembrar que, na segunda feira passada, Bolsonaro anunciou pelo Twitter a substituição de Mandetta pelo deputado Osmar Terra. Chegou a enviar a decisão para o Diário Oficial. Mas o quadrunvirato de oficiais generais do Palácio (Braga Neto, Heleno, Ramos e Rocha) o convenceu a segurar o ministro por mais um tempo. Ficou a impressão no imaginário político de que Bolsonaro está sob tutela de uma junta militar.

No domingo, na entrevista ao Fantástico, da Globo, Mandetta desafiou abertamente Bolsonaro. Ainda não tenho informações seguras sobre a reação do presidente e dos generais. Mas são fortes os movimentos de bastidores por um sucessor.

Osmar Terra era o predileto de Bolsonaro, mas não dos militares. Pesa contra ele a reação contrária da opinião pública e do Congresso por estar defendendo o fim do isolamento social com argumentos supostamente científicos. O problema maior é de ordem política. Terra é do PMDB. Sua nomeação não agrega o apoio nem votos de seu partido. E ainda provoca reações do DEM, partido de Mandetta.

Arthur Weintraub, assessor de Bolsonaro (e irmão do ministro da Educação), vem instigando o presidente contra Mandetta, fazendo o papel do antológico conselheiro Chalaça nos tempos do imperador Pedro I. O novo Chalaça está se desdobrando em emplacar o médico Luciano Azevedo, que serviu no Exército assim que formado e que atualmente faz sua primeira pós-graduação em Administração Hospitalar no Hospital Albert Einstein. Seu currículo é miúdo, mas as articulações são grandes.

Weintraub também tem estimulado o próprio nome para ministro da Saúde, aquela história do se-colar-colou. Afinal, há um ano colou para seu irmão mal-educado, até hoje ministro da Educação.

A médica Nise Yamagushi corre por fora. Bolsonaro tem falado diretamente com ela, sem intermediários. Já é decisão tomada que vai adotar sua proposta de ministrar hidroxicloroquina mais dois antibióticos nos primeiros cinco dias depois dos sintomas, com os contaminados ainda em casa. O chanceler Ernesto Araújo (sim, ele está nas articulações) é um de seus defensores.

Nas redes sociais, Yamagushi tem sido abertamente defendida pela turma de influencers amigos de Carlos e de Eduardo Bolsonaro, como também pelos discípulos do guru Olavo de Carvalho. Ainda não saberia avaliar se tais apoios a ajudam ou atrapalham. Por outro lado, ela tem sido muito atacada pela comunidade acadêmica de São Paulo por não ser uma pesquisadora “científica”, o que é verdade, e sabotada ao máximo pelo Chalaça.

Neste momento, são essas as possibilidades no tabuleiro. Ludhmilla Hajjar, diretora de Ciência e Tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia, também teria sido sondada, segundo O Antagonista. Pode aparecer uma nova opção; pode até ser que Mandetta fique até maio, mas é muito difícil.

Apostaria em um militar na Saúde. Primeiro porque Trump já entregou essa “operação de guerra” ao comando direto de um almirante. Ademais, sob a tutela militar, na atual conjuntura, emprestaria credibilidade ao iminente término do isolamento social.

Alguém há de questionar: “Ah, mas o que um militar entende de Saúde?”. Essa mesma pergunta foi feita muitas vezes pelos colunistas políticos quando FHC nomeou o economista José Serra para o Ministério da Saúde. Paradoxalmente, Serra foi o melhor ministro da Saúde da história recente do país. Talvez o melhor da história.

Quanto ao Mandetta, tem todas as credenciais para virar secretario do Doria ou um excelente comentarista da grande imprensa. Ele é de fato um excelente comunicador, transmite credibilidade. Todos nós nos sentimos aliviados ao escutá-lo. Também gostávamos muito de escutar o Antônio Brito. Lembram-se dele? Foi até fortemente cogitado para a Presidência da República.

Mas lembro que Mandetta foi um ministro da Saúde no mínimo medíocre. Nada fez em mais de uma ano, nada, nada, nada. Parece que ter recrutado bons assessores para lidar com a peste do Apocalipse. Aplausos nesse ponto.

Se tivesse conseguido contemporizar com o presidente, cujo temperamento é de fato extremamente difícil, poderia permanecer na ribalta e se credenciar para vice em 2022. O mais provável, agora, é que seja candidato a governador ou senador pelo Mato Grosso do Sul. Rodrigo Maia já lhe acenou com a vaga de candidato a governador do Rio. A ver.