Tenho imenso orgulho de ser jornalista — e faço questão de gritar meu orgulho neste momento no qual a profissão está sob ataque cruel das religiões ideológicas, todas elas. Exerci a profissão por exatos 25 anos nos grandes veículos, quase sempre no jornalismo investigativo, sempre batendo firme nos poderosos, sem observar a coloração partidária. Até que o Destino, quase sempre generoso, por vezes traiçoeiro, me transformou em historiador e professor. Saí há algum tempo do jornalismo. Mas acho que o jornalismo jamais saiu de mim.

Meus pais esperavam que eu fosse diplomata. Mas precisava de dois anos de uma faculdade qualquer antes de prestar concurso para o Instituto Rio Branco. A ideia era Direito ou Economia. Juro que nunca soube por qual razão, quando diante da inscrição do Vestibular, quando ainda requinho do Colégio Militar do Rio de Janeiro, o Destino empurrou minha mão para marcar “Jornalismo”. Passei para a UFRJ. Meu pai foi transferido para Brasília e eu para a UnB.

Ao completar 18 anos, em junho de 1979, decidir trabalhar. Achava uma vergonha receber mesada. Servia qualquer coisa. Tentei revisor, digitador, gráfico.. mas só me apareceu vaga de repórter de Cidades do Correio Brasiliense. Comecei aí. Era magricela e todo espinhento. O editor chamava-se Edgar, barbudo e bem barrigudo.

Perguntou se eu sabia o que era um lead? Não! Mas permitiu que eu saísse com a repórter Christina Bravo. Na volta, ela escreveu a matéria dela; eu, a minha. Parecia um ofício burocrático, um horror. Edgar foi lendo e rabiscando. “Não é isso, não se faz assim … É, até que não escreve tão mal”. Amassou minha matéria e jogou na cesta de lixo. “Volta amanhã”. Uhuuu!!!

Amei tanto a profissão que, quado chegou o momento de prestar concurso para o Itamaraty, sequer me lembrei daquele projeto.

Formado, trabalhei como repórter, editor, colunista ou diretor nos principais veículos de Comunicação do país, tais como Jornal do Brasil, Estadão, Folha, revistas Veja, Dinheiro e IstoÉ, dentre outros. Só não trabalhei no grupo Globo, mas gostaria de ter trabalhado. Ganhei os principais prêmios de Jornalismo, como Abril e Esso. Acredito que tenha dado certo. Acredito que tenha sido um bom jornalista.

Usufrui de grandes mestres na profissão. O primeiro foi Claudio Lyseas, que logo substituiu Edgar no Correio. Depois, no saudoso JB, Cléber Praxedes, o Crécré, vivia a me proteger dos arroubos do chefe Ricardo Noblat. Tive ainda a honra de trabalhar diretamente com quatro grandes jornalistas: no Estadão, Carlos Chagas e José Neumanne; na Veja Elio Gaspari e J.R. Guzzo, o mestre dos mestres.

Entristece imensamente quando assisto aos ataques grosseiros e injustos dos religiosos ideológicos à “midia”. Primeiro eram os petistas, que nos tratava como PIC, Partido da Mídia Golpista. Agora os bolsonaristas atacam os mesmos veículos e os jornalistas que insistem em publicar os fatos. É a Extrema-Mídia.

Para mim sempre será a “imprensa”. Ou melhor, Imprensa Livre, aqui grafada com maiúscula. Parabéns a cada jornalista livre que cumpre com coragem seu dever de registrar os fatos e criticar os erros do poder. Parabéns à Imprensa Livre.

Já não sou jornalista.
Contudo, o bom Jornalismo ainda me habita.