A polêmica da hora diz respeito à afirmação de Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, de que o nazismo seria um movimento de esquerda.

Respondo de antemão: essa discussão perdeu o sentido desde que Hannah Arendt publicou, em 1951, a primeira edição de “Origens do Totalitarismo”, obra monumental na qual abstrai esse maniqueísmo vulgar, esquerda versus direita, e comete a heresia de propor o conceito do totalitarismo.

De acordo com a pensadora, nazismo, fascismo e comunismo são muito semelhantes entre si pelo que têm de pior – oito características que os definem como regimes totalitários, sobretudo a proposta messiânica, a visão maniqueísta do mundo e as práticas radicais. Ela escreveu que as organizações de vanguarda que fundamentavam esses três movimentos eram “seitas esotéricas”.

Com a atual ascensão da direita conservadora em todo o mundo – no Brasil com Jair Bolsonaro – as esquerdas têm procurado reagir chamando os adversários de nazistas e fascistas. Uma óbvia fraude retórica. Estes, por sua vez, em contragolpe, têm apresentado a narrativa de que o nazismo seria de esquerda. Outra fraude histórica e discursiva.

Isso porque o Partido Nazista, em seus primórdios, guardava muitas características de movimento de esquerda. Seu primeiro nome foi Partido dos Trabalhadores Alemães, ou seja PT. Era formado essencialmente por operários desempregados, aqueles a quem Marx chamava de lumpem proletariati, todos eles tomados de mágoas por conta do Tratado de Versalhes, ao qual os alemães chamaram de diktat (imposição) tamanhas as penas e humilhações impostas aos derrotados.

O PT alemão durou pouco mais de um ano. Já em 1920 passaria a se chamar Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), abreviatura Nazi.

Mas fique bem claro: mesmo enquanto PT, o partido jamais foi de esquerda. Ao contrário. O partido foi criado como um meio de chamar os trabalhadores para longe do comunismo e reaquecer seu nacionalismo (völkisch).

Inicialmente, a estratégia política nazista focou em combater as grandes empresas, a burguesia e com uma forte retórica anticapitalista. Em muitos aspectos, discursos similares aos do PT brasileiro e suas legendas de apoio, PSol e o PCdoB.

Somente após a chegada de Hitler ao poder, em 1933, a retórica anticapitalista e antiburguesa foi sendo amenizada para ganhar a adesão das grandes indústrias. Foi quando o discurso começou a mudar para o antissemitismo e o antimarxismo.

Da mesma forma que os ideais e os discursos messiânicos não fazem de Lula ou de Nicolás Maduro uns nazistas, o fato de Hitler ter emergido do proletariado, ascendido com o proletariado e (de início) ter atuado para o proletariado, não faz do nazismo um movimento de esquerda. Mesmo porque o nazismo sempre se autodeclarou de direita.

Em conclusão, é até compreensível (ainda que condenável) que durante a campanha eleitoral os petistas tenham cometido o exagero discurso de chamar Bolsonaro de fascista. Igualmente compreensível (mas condenável) que os bolsonaristas tenham em muitos momentos exagerado na retórica sobre os perigos da volta do PT ao poder.

Faz parte do jogo, ainda que tenha sido jogo baixo.

Contudo, não é aceitável que supostos intelectuais, professores universitários ou diplomatas forjados na douta escola de Rio Branco se deixem encantar pelas fraudes narrativas. Mito, ideologia e política estão em um campo. Mas Ciência, História e Lógica estão em outro.