Caros amigos engajados na campanha contra a Globo: alerto que vocês podem estar sendo usados como inocentes úteis para entregar a hegemonia da Comunicação e da política para o bispo Edir Macedo. Explico:

1) A Globo é uma herança do regime militar, nascida em 1965, uma concessão do marechal Castelo Branco. Por 20 anos, a Globo serviu como porta voz dos generais, inclusive no período da ditadura descarada, 69-76.

2) Hoje a Globo pertence ao Bradesco. O percentual de participação do banco é informação secreta, poucos sabem. Mas é segredo de Polichinelo no mercado que a participação do banco é extremamente forte, talvez até mesmo majoritária. Ademais, há uma teia de interesses econômicos e políticos em todos os Estados: Sarney no Maranhão, Sirotsky no Sul, ACM Neto na Bahia… e por aí vai.

3) A Globo já nasceu sob suspeição de também ser um braço dos interesses americanos no Brasil por ter firmado acordo com o grupo Time-Life. Carlos Lacerda foi quem primeiro denunciou o acordo; contudo, muito rápido, a bandeira foi tomada pelas esquerdas.

4) Desde seu nascimento até a chegada de Bolsonaro ao poder, ou seja, por mais de 50 anos, a Globo sempre foi o Grande Satã das esquerdas no Brasil. Durante a campanha das Diretas Já, as esquerdas criaram a palavra de ordem “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

5) A Globo sempre teve por princípio ético ser chapa branca, ficar ao lado do governo, seja ele qual for. Roberto Marinho e seus filhos sempre tiveram “faro” para mudar de lado na hora certa. Assim, colocou-se ombro a ombro com todos os generais presidentes, com Tancredo e Sarney, com Collor, Itamar, Fernando Henrique e até com Lula e Dilma.

6) A Globo ficou de fato contra Bolsonaro na última eleição (Alckmin era o candidato in pectore). Como antes já havia ficado contra Collor e contra Lula — mas depois se compôs com todos os presidentes vitoriosos.

7) A Globo precisa ficar de bem com o governo, seja ele qual for. Pois a rede nacional tem 127 emissoras próprias ou repetidoras, que estão sempre precisando de renovação da concessão do governo. Fora as emissoras de rádio.

8) Quando Bolsonaro venceu, a adesão foi instantânea. O Jornal Nacional mais parecia a Hora do Brasil tamanha a bajulação da Globo com Bolsonaro e com “Dona Michele”. Mas Bolsonaro continuou distribuindo porrada na Globo como se ainda estivesse em campanha.

9) Um pouco antes da posse, a Globo entrou fundo no caso da rachadinha de Flavio Bolsonaro. Acredito que estivesse mostrando os dentes para tentar negociar um bom acordo de convivência. Estratégia usual na politica e no mercado.

10) Quando Bolsonaro tomou posse, a Globo tentou fazer um acordo de boa convivência usando como interlocutor o tal do Bebiano. Mas Carluxo, o Bolsokid-02, descobriu e denunciaram ao pai a conversa marcada entre Bebiano e um diretor da Globo. Foi considerado alta traição. Daí para frente, Bolsonaro só vem aumentando a guerra e vice-versa.

11) No início de 2019, apenas 4% do faturamento da Globo era originário dos governos federal e estaduais, somados. Portanto, não é verdade que a Globo se engajou contra Bolsonaro porque ele cortou as verbas de publicidade.

12) Todas as emissoras de televisão do planeta estão se derretendo por conta de uma série de fatores, como internet, smartphone, Netflix, YouTube, etc etc etc. Como a Globo é a maior do Brasil (e já foi a 4ª maior emissora do mundo), e tem custos altíssimos de produção para manter um padrão de qualidade top top internacional, a emissora está sentindo a crise mais forte. Como (quase) todas as demais, a Globo precisa se reinventar urgente.

13) A Record de Edir Macedo, o pastor mais honesto do Brasil, é a única que não precisa de anúncios privados ou dos governos para sobreviver. Pois o negócio do pastor é arrecadar dízimos nos cultos da seita. A Record tem uma dupla função nessa cadeia de negócios: 1) propaganda subliminar para estimular as doações para o bolso do Edir Macedo; 2) Lavar dinheiro do Edir Macedo.

14) Mas a Record precisa muito do apoio do governo para impedir fiscalizações da Receita e do Banco Central. Pois se fiscalizar, vai todo mundo preso. Por isso Edir Macedo se esforça para criar uma bancada parlamentar forte, que estará sempre (tal qual era a Globo) apoiando o antigo governo, o atual governo e o futuro governo, seja ele qual for.

15) Ahh, mas a Globo é de esquerda e só faz novelas e programas com a tal pauta “globalista”. É a mais absoluta meia-verdade. Os donos (Marinhos, Bradesco e outros) e os diretores não são de direita nem de esquerda, são apenas de interesses econômicos e políticos.

16) Mas é verdade que o jornalismo e o núcleo de novelas são hegemonicamente de esquerda, como em qualquer outro veículo de comunicação (exceto Record). Até meados dos anos 80, o Partido Comunista Brasileiro PCB tinha núcleos de militantes extremamente fortes na Globo. A partir dos anos 90, o PT tomou a hegemonia. De qualquer forma, há muitos jornalistas e artistas liberais, conservadores ou de direita, tais quais Alexandre Garcia, Regina Duarte e Carlos Vereza (todos eles cresceram na Globo, mas já saíram). É uma questão de competência também organiza-los.

17) Essa guerra de Bolsonaro contra a Globo e vice versa é um jogo de perde perde. A publicidade do governo é irrelevante para o tamanho da Globo. Mas a campanha de Bolsonaro e seus seguidores contra a emissora decerto terá um efeito corrosivo devastador na credibilidade da emissora.

18) Como resultado, vai cair seu preço. O comprador que há muito está de olho é o mexicano Carlos Slim. Em questão de tempo, a maior e melhor empresa de Comunicação do Brasil deve escorregar para mãos estrangeiras e interesses globais.

19) Ainda como resultante, a Record deve ascender em prestígio, audiência e faturamento. Talvez até ultrapasse a Globo — algo difícil, mas não impossível. E teremos no Congresso Nacional, Assembleias, prefeituras e governos estaduais, cada vez mais supostos pastores com mandato. Quem sabe, assim, um dia algum laranja de Edir Macedo venha a ascender ao Palácio do Planalto?

20) Em conclusão, se eu pudesse dar um conselho a Bolsonaro (que não escuta mais nem o Heleno), diria para arrumar algum acordo honroso com a Globo. E usava e abusava do padrão Globo de qualidade como parte de uma estratégia maior de ascensão das empresas e produtos brasileiros no mercado global. Faria como Castelo, Costa, Medice, Figueiredo, Sarney, etc: usaria a Globo.

(Hugo Studart)