Acabo de encontrar uma preciosidade perdida nas entranhas de meus arquivos. Trata-se de um texto sobre a jornalista Ana Tavares de Miranda, que foi Secretária de Imprensa do presidente Fernando Henrique Cardoso entre 1994 e 2002 — e, antes disso, desde a campanha de 1982 para o Senado. Datado de 06 de fevereiro de 1998, o texto foi originalmente escrito para a revista Imprensa, nos tempos que eu era titular de uma coluna sobre os bastidores da mídia.

As anotações indicam que eu produzia um perfil da jornalista, obviamente inconcluso, jamais publicado. Em tempos no qual o presidente da República escolhe alguém como o publicitário Fábio Wajngarten para cuidar de sua Comunicação, torna-se pertinente rememorar quem foi e, sobretudo, como agia Ana Tavares, em minha avaliação, a melhor profissional que já passou pelo posto nas últimas quatro décadas. Vamos lá:

“Não, por favor, assessor não é notícia”, reagiu ela quando soube que seria notícia de Imprensa. “Mas eu sou apenas uma carregadora de mala; quem deve aparecer é a autoridade; no dia em que assessor virar notícia deixa de ser assessor”, insistiu Ana Tavares. “Você é meu amigo há tanto tempo… tenho certeza de que conseguirá convencer o editor da revista de que eu não sou notícia”, apelou.

Não é gênero, podem ter certeza. A secretária de Imprensa da Presidência da República, a mulher que cuida da imagem pessoal de Fernando Henrique, uma das jornalistas mais poderosas do país, tem horror de aparecer. É discretíssima, tanto no estilo profissional quanto nos hábitos pessoais. Chega nos limites da timidez.

Recusa-se a dar entrevistas ou a participar de programas de TV. Costuma almoçar no próprio gabinete. Veste-se sóbria, no estilo clean, com saia e camisa em tons pastéis, meia fina, sapato baixo. Sem maquiagem, ressalte-se. O único adorno visível é a corrente que segura os óculos quando fora do rosto. Gosta de usar cabelos negros e longos; parece ser sua única vaidade. Nada mudou no estilo Ana Tavares quando ela passou a ter um gabinete no Palácio do Planalto.

Entre os amigos e assessores de Fernando Henrique, Sérgio Motta ocupa o primeiro lugar na hierarquia do poder –e do coração. José Serra é há 20 anos outra estrela de primeira na vida do presidente. A seguir vêm um clube seleto de pessoas (menos de dez), como os ministros Paulo Renato e Eduardo Jorge, Ana Tavares e o secretário particular Eduardo Graef. Ana Tavares tem mais poderes que boa parte de seus antecessores no Planalto.

Ela é hoje espécie de grilo falante do presidente. Mesmo porque há poucas pessoas dispostas a dizer verdades a Fernando Henrique. Quando em momentos de improvisações, em viagens internacionais, por exemplo, o presidente olha sempre para ela a fim de saber se deve ou não falar com os jornalistas. A afinidade é tanta que o diálogo se dá com os olhos. Em Brasília, poucos são os que podem entrar a qualquer hora no gabinete presidencial. Eduardo Jorge é um deles. Ana Tavares também. Mas ela espera ser chamada.

Não quis cuidar da publicidade ou mexer com dinheiro. Se dá cerimoniosamente com o embaixador Sérgio Amaral, o porta-voz da Presidência. Estilos muitos diferentes.

Atende em média, no mesmo dia, 72 telefonemas. Não deixa nunca sem resposta. Se não pode falar, pede aos jornalistas Tadeu Affonso ou Geraldo Moura, seus assistentes, que resolvam o assunto.

Uma das poucas unanimidades. Ninguém teve algum motivo para falar mal. Não faz questão se ser amiga, mas faz questão de não deixar inimigos.

PS – Quando terminou o governo FHC, criou uma empresa de Comunicação que tinha como principal cliente a Vale (então Rio Doce). Conseguia mediar uma excelente relação entre jornalistas e empresa. Tem uns 10 anos que não tenho notícias de Ana. Se alguém as tem, peço compartilhar.

PS 2 – Procurei muito na internet uma foto de Ana Tavares. Ela conseguiu a façanha de se manter oculta até no Google. Se alguém tiver, peço que me envie.