“Um país se faz de homens e livros”, disse Monteiro Lobato, o célebre escritor, editor e homem de ação, numa de suas frases mais célebres. E Lobato nunca teve tanta razão quanto hoje, num país de educação claudicante, onde 95% dos alunos saem do ensino médio sem conhecimentos básicos em matemática, 78,5% sem saber português num nível adequado e 40% dos universitários são considerados analfabetos funcionais. A falta de qualificação é apontada por estudos econômicos como o maior empecilho à produtividade na indústria brasileira hoje.

Sem precisar conhecer Lobato, os países mais ricos sabem perfeitamente como o livro é fundamental – não apenas para a educação como para o desenvolvimento do país. É o caso dos Estados Unidos e da França, onde o livro chega a ser considerado um caso de segurança nacional.

Quando a Amazon entrou na França, ameaçando o mercado tradicional do livro, os franceses aprovaram uma lei para proteger editoras e livrarias, impedindo que oferecessem no meio virtual descontos maiores e preços mais baixos, para evitar a desestruturação do mercado livreiro e editorial do país. “Nós verificamos mais uma vez o consenso que existe em relação à economia do livro, para não dizer uma unanimidade”, afirmou na ocasião a ministra da Cultura francesa, Aurélie Filippetti . “É o sinal da ligação profunda entre a Nação e o livro, a ideia de que ele é a essência da França, da sua história e do seu futuro.”

A mesma importância ao livro se dá nos Estados Unidos, onde todo o sistema educacional é baseado na leitura. Lá se ensina matemática, ciências e história, mas o fundamento do ensino está no fato de que as escolas obrigam os alunos a exercitar diariamente a leitura, o entendimento do texto, a síntese e a redação. Com isso, os americanos obtém como um padrão educacional nacional não apenas a noção da língua como a clareza e a organização do pensamento – os elementos que levam o país à sua objetividade e pragmatismo na ciência, na tecnologia e na administração pública e dos negócios.

Os americanos, maiores produtores de alta tecnologia do mundo, sabem que, para alcançar esse ponto, é preciso começar pela base – o livro. Sinal disso é que, quando foi perguntado pela revista Veja qual receita daria para transformar o Brasil num país com grande capacidade tecnológica, Bill Gates, fundador e mentor da Microsoft, respondeu: “Construam mais bibliotecas”.

Por ironia, a inteligência americana, baseada no livro, foi também a causa da expansão do meio digital, que provocou no país a queda do mercado livreiro tradicional, num efeito dominó. Depois da hecatombe inicial, as livrarias começaram a voltar, já que o livro digital não eliminou o impresso – ao contrário, assim como o DVD e agora o Netflix não acabaram com o cinema, as livrarias vão se recuperando.

No Brasil, o mercado livreiro se encontra neste momento na etapa do dominó. A Saraiva, maior rede de livrarias do país, reduziu de mais de uma centena para 80 a sua rede de lojas e declarou dever cerca de 100 milhões de reais às editoras. A Livraria Cultura, segunda maior rede, que já havia incorporado a FNAC, entrou em concordata. Juntas, Saraiva e Cultura representam quase metade do mercado de livros vendidos no varejo em todo o país. Com sua crise, as editoras também foram atiradas numa situação crítica.

Seria a hora de o Brasil entender o livro também como segurança nacional e adotar medidas para salvar não apenas um mercado, como um elemento essencial para a estruturação de um país com um futuro melhor. Hoje, o governo compra cerca de 150 milhões de livros didáticos e paradidáticos para distribuição gratuita em escolas públicas – escolas privadas fazem também compras diretas. É um negócio muito maior que o mercado de varejo, o que sustenta hoje as editoras, mas não tem surtido resultado, ou não é suficiente. Mesmo a receita com compra de governo pode retroceder, com a transformação gradual do material didático impresso em sistemas de ensino onde o conteúdo é distribuído digitalmente.

Há uma boa notícia. A crise das grandes livrarias, conforme se sabe no mercado, não é uma crise de demanda. As vendas de livros se mantém estáveis, apesar da estagnação econômica. Saraiva e Cultura entraram em parafuso por motivos mais empresariais que em função de mudanças disruptivas do negócio.

A Saraiva, sobretudo, sempre foi forte no mercado digital, de onde chega quase metade de seu faturamento. No entanto, viu-se nos últimos anos submetida a mudanças sucessórias, com a morte de seu antigo executivo, Ruy Mendes Gonçalves, e o afastamento do seu sócio majoritário, Jorge Saraiva. A saída de executivos, sem reposição adequada, acelerou a crise.

A Cultura também fez um  movimento mal calculado. Aumentou sua rede, abrindo grandes lojas, com vistas a fazer uma abertura de capital em bolsa, bem no momento de dúvida quanto ao futuro do negócio livreiro. Isso afastou possíveis compradores e esse grande passo deu no vazio.

De certa forma, o Brasil é mais parecido com a França do que com os Estados Unidos. A França não quer ser um país onde as notícias são do New York Times, o conteúdo é organizado pelo Google, a propaganda é feita pela Ogilvy, os livros são produzidos pela Random  House e distribuídos pela Amazon.  Os franceses sabem que a proteção da inteligência é uma questão de segurança e garantia da soberania e da identidade nacional.

Para isso, é preciso proteger as companhias estratégicas. Num país em que a instrução é entendida como essencial para um salto de desenvolvimento, editoras e livrarias  são essenciais. Estão para a educação como a Embraer está para a tecnologia – empresas num mercado global, mas considerado de interesse nacional.

A crise do meio editorial pode ser resolvida com uma injeção de capital e uma melhor administração. O mercado de varejo, embora menor que o do livro didático, não é menos importante. Por ele, continua o desenvolvimento educacional mesmo após a escola, algo também fundamental.

Na França, um país de leitores, o governo achou necessário intervir. No Brasil, se quiser ter afinal o país feito de homens – e livros -, é o que, a um custo muito baixo para um benefício muito grande, o governo também poderia fazer.

 

Reproduzido em: A República