O que se sabe até agora e o que se pode dizer do conflito armado dentro do Palácio do Planalto, que colocou de um lado o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, de outro o vice-presidente, general Hamilton Mourão:

1) Tem uma bomba econômica e social que pode explodir. Já estamos com algo entre 25 e 30 milhões de desempregados e subempregados, e se o crescimento for mesmo zero, como já têm consultorias prevendo, pode descarrilhar para 40 milhões. Nesse caso, será a maior crise da nossa história.

2) Tem um presidente da República que chegou ao poder praticamente sozinho, contra tudo e contra todos os vetores relevantes do establishment. Segundo suas próprias palavras, não nasceu para ser presidente, mas para ser militar. De qualquer forma, tudo indica que esteja dando o melhor de si e ainda tem o voto de confiança da maioria dos eleitores. De concreto, o governo até agora tem um plano financeiro de ajuste fiscal da escola monetarista, que passa pela reforma da Previdência, mas nenhum projeto de produção econômica e de emprego. Ademais, o presidente ainda não conseguiu forjar um projeto estratégico coerente e um rumo visível para seu governo. Muito menos organizar uma maioria política. Por isso o caos aparente.

 

3) Tem um Congresso Nacional tomado por marinheiros de primeira viagem e hegemonicamente dominado por organizações criminosas. Suas práticas já foram chamadas ironicamente de “franciscanas” (é dando que se recebe), mas que desde a Era FHC vem sendo tratada com certa naturalidade sob o nome pomposo de “presidencialismo de coalizão”, forjando escândalos como o do Mensalão e do Petrolão. Tudo indica que a maioria do atual Congresso não está nem aí para as grandes prioridades nacionais. Ao contrário, buscam se locupletar. Muitos deles estão chantageando o governo em busca de cargos para saquear a coisa pública. O pior é que tem ministro relevante que acha isso natural e pragmático como estratégia de aprovação da pauta das reformas estruturais necessárias.

 

4) Tem um vice-presidente de personalidade extremamente forte, espírito independente, eloquente em suas ideias e que já declarou em entrevista seu projeto (legítimo) de se candidatar à Presidência. Esse vice tem informações privilegiadas sobre um possível Apocalipse em andamento. Por temperamento, desde antes de tomar posse o vice vem apresentando opiniões dissonantes às do presidente e se descolando da imagem do titular. Como resultante prática, o vice vem se credenciando politicamente perante à maioria de centro, com viés para a centro-esquerda. Ele não o faz com discrição, ao contrário. Há muito que ele emite a impressão de que se apresenta como solução viável para o caso do titular se inviabilizar. A solução Mourão já virou até conversa de botequim. Tem até políticos articulando o parlamentarismo, no qual o vice seria o primeiro-ministro.

 

5) Por esse conjunto de razões, há um grupo significativo de pessoas que cercam o presidente, começando por seus três filhos fiéis-escudeiros, que acreditam que o vice estaria conspirando para derrubar o titular. Não estaria apenas tentando se descolar, se viabilizar, criar uma boa imagem para as eleições de 2022. Mas sim conspirando para precipitar um eventual impeachment, ou o parlamentarismo. Os filhos estariam convencidos, por exemplo, que o ex-ministro Bebianno estaria nessa conspiração contra o presidente. Por isso foi demitido.

 

6) Diante desse clima pesado, os filhos (e talvez o próprio presidente) estão reagindo do jeito que eles sabem: com máxima transparência na busca do apoio de seus eleitores de raiz, fazendo uso de franco-atiradores kamikazes como Marco Feliciano e Olavo de Carvalho. Mourão, por sua vez, tem se apresentado como “O Pacificador”, tal qual Caxias, buscando aplainar arestas, como a criada com os árabes por conta do anúncio da mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém. Ou a missão de consertar o Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País) do chanceler Ernesto Araújo na questão da Venezuela.

 

CONCLUSÕES E CONSELHOS:

 

7 – Bolsonaro & Filhos – Esqueçam os eventuais erros ou supostas ambições do Mourão, parem de lavar roupa suja em público e usem 100% do tempo para atravessar o Vale das Sombras. E daí que ele se disse a favor do aborto? E daí que ele tenha acenado com palavras amenas ao Jean Willys, o bobo da corte da esquerda? É quase certo que o vice esteja de fato tentando ajudar, talvez esteja se deixando embevecer pela vaidade, pois o poder é afrodisíaco – como observava o velho Ulysses Guimarães. Mas é quase impossível que esteja mesmo conspirando. Pois ele é acima de tudo um militar forjado e identificado com a Instituição chamada Exército Brasileiro. Ademais, está ciente que o Destino lhe colocou no posto de vice com a missão histórica de resgatar a imagem das Forças Armadas. O mais inteligente a fazer é puxar Mourão para ser o braço esquerdo de Bolsonaro, designar funções específicas ao vice e lhe dar algumas missões relevantes, tal qual a da Venezuela. De qualquer forma, deixem o assunto “ambições do Mourão” para ser tratado em 2022.

 

8 – Mourão – Controle um pouco seu temperamento idealista e voluntarista. Inspire-se desavergonhadamente em Marco Maciel, o vice de FHC. Pelo menos até que a poeira baixe, até que a relação com o presidente e sua família (“meu sangue”, como ele definiu), não fale, não apareça, não converse. Cumpra a missão de ser o “sub” de Bolsonaro, como ele definiu. Fato é que vice precisa ser discreto. E apoie o presidente com esforço redobrado para que ele atravesse o Vale das Sombras. Busque ser o “O Pacificador” somente quando o presidente pedir. Em 2022 (ou 2026), o Sr. poderá ser o candidato in pectore de Bolsonaro, caso esteja escrito em teu Destino.

 

9 – A herança maldita que temos que enfrentar requer reformas muito profundas e medidas amargas. Em uma democracia, só um governo de “salvação nacional” (ou “união nacional”) conseguirá aprovar a pauta. Significa que o clima geral precisa ser de pacificação, tendendo ao consenso. Mas o clima é de discórdia, de divisão, de desconfiança e de perseguição. A começar pela família do presidente com seu vice. É hora de buscar cooptar os melhores quadros da nação. Presidente, livre-se urgente dos seus ministros xing ling, como esses do Itamaraty e do Turismo (de doidivanas, deixa só a Damares, que caiu no gosto do eleitorado conservador), e recomece com quadros de alto nível. No Senado, temos pelo menos quatro grandes políticos querendo ajudar: os senadores Tasso Jereirassi, Esperidião Amin, Antônio Anastasia e Simone Tebet. Na burocracia estatal (Forças Armadas, Itamaraty, Fazenda, etc) tem outros tantos. Inspire em Castelo Branco e cerque-se dos melhores homens e mulheres disponíveis na nação.

 

10 – Srs. Presidente & Vice – Escutem mais os conselhos moderados de Augusto Heleno, Villas-Boas e Santos Cruz, dentre outros. Sobretudo o sábio, sereno, seguro e sofisticado gênio estratégico de VB. E encontrem urgente um novo conselheiro político e o instalem no Palácio, com sala ao lado do gabinete do presidente, melhor ainda se puder entrar sem bater. Algum pensador relevante, conservador obviamente, mas nada de gurus ou guris. Sugiro cá o professor Paulo Kramer, que esteve em vossas fileiras, por sinal, contudo não está mais. Só assim conseguiremos atravessar o Vale das Sombras.