Lula e o Prometeu acorrentado

A entrevista do Lula lembra muito o mito retratado por Ésquilo na peça “Prometeu Acorrentado”. Prometeu é o personagem principal da mitologia clássica, o titã predileto de Zeus, até que roubou o fogo sagrado do Conhecimento e entregou para os homens. Zeus fica furioso e o condena a viver a eternidade acorrentado ao Tártaro. Na peça de Ésquilo, de início somos levados a estabelecer forte empatia com o titã, principal responsável pela criação da Civilização. Chegamos a acreditar que Prometeu, o Condutor da Luz, ama a Humanidade mais do que os deuses.

Até que o mensageiro Coro aparece para informar que Zeus está disposto a perdoá-lo, a reduzir sua pena e até a soltá-lo, desde que admita seus erros e volte a obedecer o sistema estabelecido pelos deuses. Mas Prometeu não se curva, em hipótese alguma. Não admite erro algum. Ao contrário, reafirma seus atos e coloca toda a culpa em Zeus e nos deuses.

É nesse momento que o drama tem uma virada. A empatia com o público acaba e vislumbramos nu, sem máscaras, de corpo inteiro, um Ser arrogante, soberbo, vaidoso, escroque, uma empáfia sem fim. Somos levados à conclusão de que Prometeu é mantido acorrentado não pelo erro de entregar o fogo sagrado aos homens, pois esse crime Zeus estava há muito disposto a perdoar. Mas pela soberba, pela determinação de continuar afrontando as leis dos deuses com máxima a arrogância.

Seu Destino é terrível. Todos os dias os abutres aparecem para devorar seu fígado. É no fígado que guardamos as emoções negativas, o ódio, o rancor, a inveja e outras químicas pesadas. À noite, o figado se regenera, para no dia seguinte os abutres voltarem para devorá-lo.

A mitologia hebraica tem um personagem muito semelhante, Lúcifer, que era arcanjo predileto de Deus até que roubou o fogo sagrado da consciência e entregou aos homens — e por essa razão Deus o condenou a passar a eternidade preso na Terra, entre os homens. A Bíblia hebraica quase nada fala desse Condutor da Luz. Não sabemos, assim, qual o Destino final do ex-arcanjo.

No mito grego, contudo, o titã Prometeu termina acorrentado ao Tártaro, cultuando a soberba, em chororô e mimimi eterno contra os supostos erros alheios. Mas nada de fazer autocrítica.