Uma breve análise das táticas de guerra do atual governo

 

Há muito tempo que os executivos descobriram a adaptação das estratégias militares para o mundo dos negócios. Vale o mesmo para o governo e a política.

O núcleo militar no Palácio (sob a liderança dos generais Heleno, Santos Cruz e Villas-Boas) optou pela estratégia do cerco, a mesma que Aníbal e Átila usaram em seus respectivos cercos à Roma. Lenta, gradual e segura, busca poupar recursos e vidas das tropas aliadas. Mas também busca poupar adversários a fim de usá-los nas próprias fileiras. Alexandre da Macedônia e Júlio César era especialistas nessa estratégia.

Foi por isso que os generais convenceram Bolsonaro a não fazer terra-arrasada na tomada do poder. Entraram no governo apenas com Secretários Nacionais e os principais diretores de área. A ordem geral era identificar os melhores quadros da administração e ir trocando a turma aos poucos.

Quando ficou patente que o colombiano Ricardo Vélez não servia para ministro da Educação, os generais poderiam tê-lo trocado imediatamente por algum quadro mais qualificado que estava à mão. Contudo, optaram pelo cerco, demitindo todos os seus principais assessores e aguardando que se rendesse espontaneamente, ou seja, aquela máxima “pede prá sair”, não deu certo, apenas esticaram a crise para além do suportável e o colombiano agarrou-se ao cargo de forma patética.

Onyx Lorenzoni, por sua vez, tem um estilo completamente diferente do núcleo duro dos generais: a guerra relâmpago, tipo blitzkrieg de Hitler, inspirada na estratégia de Juliano César quando deixou a Gália e navegou pelo Danúbio para a conquista relâmpago de Constantinopla. No dia que tomou posse, Onyx demitiu todos, absolutamente todos os assessores do Ancien Regime. Atirou primeiro e perguntou depois. Ernesto Araújo está fazendo o mesmo no Itamaraty.

No caso da Conquista do MEC, Onyx deu lições de Arte da Guerra nos generais. Eles estavam há semanas avaliando os melhores nomes para o MEC sem chegarem a um nome perfeito. O próprio Onyx já havia se insinuado para o cargo.

Na tarde de domingo, quando Bolsonaro, irritado com os políticos cogitou entregar o ministério de porteira fechada para o guru Olavo de Carvalho, Onyx sacou seu assessor Abraham Weintraub do bolso do colete e o emplacou de susto. De início, seria em aliança com os olavistas e militares. No terceiro dia, antes que os demais aliados acordassem, Onyx conquistava a porteira fechada, nomeando primeiro (e perguntando depois) todos os secretários nacionais do ministérios.

Nesse caso do MEC, Onyx fez uso da mesma estratégia de Alexandre quando derrotou pela primeira vez o rei Dario III na Batalha de Issos. Tinha apenas 25 mil homens contra um exército 150 mil persas, e ainda estava em posição tática de inferioridade, ao pé do morro. Alexandre mandou os hoplitas da infantaria ateniense marcharem para a esquerda, atraindo o exército persa. Quando avistou o rei Dario a descoberto, lançou-se à frente das cavalarias tebana e macedônica direto ao rei.

Paulo Guedes tem uma terceira estratégia, que lembra as de Napoleão, num meio termo entre o cerco e as conquistas relâmpago. Ele gostaria de aproveitar esse início de governo para promover uma revolução na gestão administrativa, enxugando a máquina ao mínimo do mínimo, expurgando as nomeações políticas, privatizando tudo o que for possível no menor espaço de tempo possível.

Ou seja, estabelecendo com a nova ordem com rapidez e nomeando o maior número possível de pessoas da sua confiança nos postos chaves, exatamente como fez Napoleão. Mas também, pragmaticamente, aproveitando os melhores quadros técnicos da antiga administração em aliança do novo com algo do velho, como fez Napoleão. Mas Guedes ainda não conseguiu convencer Bolsonaro a seguir por esse caminho.

Aguardemos os próximos capítulos dessa Arte da Guerra.