O fratricídio no Grupo Folha pode ser sintetizado assim: o irmão mais forte quer cometer eutanásia na empresa-mãe, o jornal Folha de S.Paulo, a fim de aumentar a rentabilidade de dois filhotes nos quais ele tem maioria das ações, o portal UOL e a corretora PagSeguro. Me parece que estão perdendo a “alma” da empresa. Esse é o caminho do suicídio empresarial.

Existem conceitos tradicionais no mercado como “Missão”, “Visão” e “Posicionamento”. Outro, mais recente, é o “Propósito”. Este nasceria de uma questão fundamental: “para que tal empresa existe?”. Propósito pode também ser chamado de “alma”, de “essência da vida”. Em outras palavras, “quem sou” e “de onde vim” — o que conduz às questões-chaves “onde estou” e “para onde vou”.

A editora Abril começou a cometer suicídio quando descobriu que as revistas jornalísticas davam prejuízo mas, em compensação, um dos ramos do grupo, a distribuidora Dinap (criada para distribuir a revista Veja na época da ditadura, driblando assim os Correios dos militares) tornara-se a maior empresa de logística do país. Então algum desses executivos pescados no mercado resolveu parar de editar revistas para investir em logística em nome de lucros rápidos. Levou sua parte em dinheiro e caiu fora, deixando uma empresa em coma terminal.

O mesmo erro está sendo cometido pelo Grupo Folha da Manhã. Quando o Velho Sr. Frias era o comandante, o lucro do grupo vinha das granjas de frango que ele mantinha no interior. Sua frota de caminhões levava jornais e trazia frango para a Ceagesp. A frota nunca voltava vazia. Mas o velho Frias jamais perdeu a alma, jamais caiu fora do seu Propósito: publicar um grande jornal diário.

Sabemos todos que a transição do impresso para o digital vem agonizando há duas décadas as editoras de conteúdo. E ninguém tem a fórmula de saída do atoleiro. A maior parte está tentando sobreviver se adaptando no misto impresso-digital. Outros, migrando para o digital. Têm ainda os que voltaram a investir no impresso com grande sucesso.

Luiz Frias apostou no UOL, enquanto o primogênito Octavinho permaneceu no comando do jornal. O fratricídio chegou quando a irmã Cristina assumiu o posto de Octavinho, falecido meses atrás. Muita baixaria. Acredito que Luizinho esteja perdendo a alma do negócio.

Entre suas razões e argumentos, o de que a Folha estaria muito politizada, ou seja, com forte viés de esquerda em um governo de direita, e que ele precisa do Banco Central para a sobrevivência do PagSeguro. É até verdade. Contudo, trata-se de um argumento menor.

Primeiro porque desde 1984, quando Octavinho assumiu a direção com seus “menudos” da USP, a Folha posicionou-se na centro-esquerda do espectro ideológico, deixando o Estadão na centro-direita. E cada um tem seu público fiel, hoje, metade para cada lado.

A questão é que o impresso está precisando dos lucros do digital para sobreviver. E Luizinho tem a maioria das ações dos negócios digitais. Então eu pergunto: será que o UOL sobrevive sem a equipe, a história e o carisma da Folha?

Minha aposta é que, ao optar pela eutanásia da Folha, Luiz Frias optou igualmente pelo suicídio do UOL.