Por Hugo Studart
A polêmica instaurada pela morte de Marcelo Rezende merece algumas considerações. Ao descobrir que estava com câncer, ele fez quimio convencional. Para logo a seguir buscar um tratamento alternativo e reafirmar sua fé em Deus. Muitos interpretaram sua opção como a busca um milagre divino, rejeitando a medicina. Conheci Marcelo; tinha um pensamento sofisticado; longe do vulgar.
1) A Civilização Ocidental vem sendo construída em um eterno dilema entre reconhecer Deus ou o Homem como centro do Universo. Quando diante de momentos críticos, como a iminência da morte, essa questão fundamental emerge em grande potência: Entrego meu Destino das mãos de Deus? Ou luto com todas as minhas armas? Teria eu um Destino já escrito, maktub? Ou minha vida é resultado das escolhas humanas? Haveria um meio termo entre a Espiritualidade e o Homem?
2) Nossa civilização nasceu e foi construída, hegemonicamente, no imaginário do progresso sem fim, expresso pelo mito de Prometeu. Trata-se do mesmo arcanjo caído dos judeus, Lúcifer, de Mefistofeles, o espírito do progresso de Goethe, do Anjo da História de Benjamin. Foi Prometeu quem roubou o fogo sagrado do Conhecimento e o entregou para os homens. Zeus, furioso com a perda da inocência humana, então condena seu titã predileto a viver a eternidade na Terra. Toda a mitologia grega é, em síntese, a história do homem em aliança com Prometeu e em rebelião contra os deuses. O homem não quer mais aceitar o Destino traçado pelos deuses (as forças da natureza). Então começa a fazer uso do conhecimento que lhe foi dado por Prometeu (agricultura, metalurgia, medicina, etc) a fim de tentar controlar o próprio Destino.
3) Do lado oposto, temos o imaginário judaico-cristão, que nos manda entregar tudo nas mãos de Deus, como se o homem não tivesse, também, o livro arbítrio. Deus qué, Deus sabe… e que seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu.
4) É certo que Marcelo Rezende passou por esse dilema ao descobrir que estava com câncer no fígado e no pâncreas. Em verdade, com metástase avançada. De início, fez quimioterapia. Aí avaliou que a medicina o estava matando mais do que curando, segundo uma de suas entrevistas. Então buscou um tratamento alternativo baseado na alimentação.
5) Meu pai vem passando pelo mesmo dilema. Eu insisti muito para que fizesse um tratamento alternativo, também baseado na alimentação e radioterapia, muito menos agressiva. Mas ele optou pela cirurgia. Agora vai voltar à quimio. Em seu caso, fez a opção inversa à de Marcelo.
5) O que vem causando frisson, contudo, é o fato de Marcelo, quando constatou que chegara aos estertores da vida, ter reafirmado sua fé no Criador. Isso vem sendo interpretado como se tivesse rejeitado a medicina humana na esperança de encontrar um milagre divino. Ora ora ora, Marcelo me era muito mais complexo do que essa vulgaridade.
6) Para começar, me parece que ele optou pela qualidade de vida. Ou seja, diante da metástase (irreversível) instaurada, aceitou serenamente a morte e optou pela redução do sofrimento físico. Os antigos chamavam isso de “morte com dignidade”. Ou seja, Marcelo optou pela maior dignidade possível diante do inevitável.
7) Quando disse que acreditava na força divina, avalio que estivesse, simplesmente, buscando a conciliação com a espiritualidade. E qual o problema acreditar que temos um Criador? Se consola acreditar que Deus existe, se consola acreditar que nossa alma possa vir a ser acolhida por algo maior, então é maravilhoso buscar consolo em nossa horas finais. Que “seja feita a Vossa vontade”, “Pai, em tuas mãos eu me entrego”. Isso é algo muito mais profundo do que segurar uma biblia nas mãos e dizer que algum deus vai operar um milagre.
8) Há uns 20 anos, entrevistei o poeta e polemista Bruno Tolentino. Cheguei em seu apartamento minutos depois dele ter recebido o resultado da biópsia: câncer. Quis a providência que a primeira pessoa a escutar o poeta em suas reflexões sobre a vida após o aviso da morte fosse um repórter.
— Chegou a minha vez e eu vou ter que encarar mesmo esse negócio… Estou com muita saudade de Deus, há muito que ele não me aparece. Talvez agora possa me dar mais atenção.
Suas reflexões:
— Há situações extremas, como a do encarceramento ou a iminência da morte, em que a criatura se confronta com questões fundamentais. Então caem as máscaras e a introspecção torna-se inevitável. Essa solidão é produtora de poesia, ou de desespero.
Avalio, meus caros amigos, que o jornalista optou por morrer com poesia. Suba em paz, Marcelão. E que esse Deus com quem você se reencontrou te acolha na Luz.
Em tempo – orientei um TCC sobre Marcelo, no qual a (agora) jornalista Ana Karoline Lustosa buscou compreender e interpretar sua linguagem singular, sempre oscilando entre o trágico e o cômico. Foi nesse momento que consegui constatar a consciência e a sofisticação do pensamento desse jornalista.
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