Acordei lembrando de algumas cenas de ontem. Lula, o líder político mais carismático de nossa história, buscando uma resistência épica, acreditando até o fim que poderia promover levantes populares. A seu lado, como braço esquerdo, a senadora Narizinho, e como braço extremo esquerdo, o senador Lindinho. Ele, dando entrevistas alucinadas com o nariz sujo de pó branco. Ela, uma aloprada, sendo flagrada em vídeo com o nariz no pescoço do ex-presidente e reclamando do “cheiro de cachaça”.

Procurei na internet os nomes dos fundadores do PT, o primeiro partido realmente de massas do Brasil, que tanto idealismo despertou em minha geração. Estavam lá, ao lado de Lula, os sindicalistas mais importantes do Brasil: Olívio Dutra, Jacó Bittar, Alemão, Vicentinho… Do braço político dos pais-fundadores, parlamentares de coragem e altivez na luta pacífica contra a ditadura, a começar por Airton Soares e Paulo Delgado. Ou protagonistas da resistência armada, ex-guerrilheiros como César Benjamin, Fernando Gabeira e Alfredo Sirkys.

Entre os intelectuais fundadores, os mestres Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico) e Paulo Freire; Antônio Cândido, Lélia Abramo, Hélio Pellegrino e Mário Pedrosa, todos eles personalidades respeitáveis em todos os tempos e espaços. Também estava lá a professora Marilena Chauí, outrora unanimidade, agora polêmica.

Nenhum deles estava no altar-palanque ao lado de Lula; a quase totalidade há muito já se foi, ainda nos tempos do escândalo do Mensalão. Naquelas imagens, observei sobretudo as ausências. Onde estava Jacques Wagner, pré-candidato do PT à Presidência? Onde estavam dirigentes como Tarso Genro e Patrus Ananias, ambos antigos postulantes à Presidência da República? Onde estava Ciro Gomes, o principal candidato a receber como legado os votos de Lula? Onde estava a professora Maria da Conceição Tavares, outra fundadora, a grande-mãe dos economistas petistas? Nenhum deles quis atrelar sua imagem à do líder caído.

Peguei na estante a obra de Edward Gibbon, “Declínio de Queda do Império Romano”, em busca de similaridades históricas, sobretudo no último capítulo, a Queda de Constantinopla, no qual o autor escreve que “existiu mais orgulho e glória na resistência do último Constantino do que em todos os demais césares bizantinos”. Infelizmente não encontrei similaridades com a queda de Lula. Mas queria encontrar.

Voltei às imagens das quase 50 horas nas quais Lula buscou resistir e emprestar dignidade épica à sua iminente prisão. Estavam lá Dilma Rousseff, Gilberto Carvalho, Jandira Feghalli, Manuela D’Ávila, Guilherme Boulos, Luiza Erundina, Eduardo Suplicy e Roberto Requião, este último, uma das figuras mais patéticas da política brasileira. Li (mas não vi) que o elegante José Eduardo Cardoso andou ajudando nos bastidores. Talvez não quisesse ser avistado.

De intelectuais de renome, somente Marilena Chauí prestou solidariedade pública. De sindicalistas, Vicentinho colocou uma faixa na fachada do sindicato.

Lula atravessou os últimos momentos de sua queda cercado o tempo inteiro de Narizinho e Lindinho. Ela, reclamando do cheiro de cachaça; ele, limpando pó branco do nariz (decerto era resquício de tapioca) enquanto berrava bravatas alucinadas sobre luta sangrenta.

Lula seguiu para a PF dentro de um carro da PF com placa prefixo FDP — decerto não foi mera coincidência. E partiu para a prisão em Curitiba à bordo de um monomotor Caravan, aeronave segura, mas que balança de forma constrangedora, a mesma que transporta traficantes condenados. A Polícia Federal tem jatinhos que poderiam emprestar um pouco mais de dignidade à queda de um ex-presidente. A FAB tinha aviões à disposição. Mas a PF quis humilhar Lula, tal qual Júlio César fez com o grande chefe gaulês Vercingetórix, que desfilou acorrentado e esfarrapado pelas ruas de Roma antes de ser executado.

Somente dois políticos conhecidos correram à Curitiba a fim de recepcionar a chegada de Lula: Lindinho e Narizinho.

Folheei mais uma vez as páginas de Gibbon atrás de alguma similaridade com a queda do último Constantino. Procurei nas histórias de outros protagonistas de “Declínio e Queda do Império Romano”. Mas infelizmente só encontrei ausências. Triste página na história do líder mais carismático de nossa história.

Sic transit gloria mundi.