Definitivamente, não considero normal um homem público receber favores de empresas privadas. Ainda mais um presidente da República. Certa vez recebi uma cesta de Natal escandalosa do dono da Hyundai, Carlos Alberto CAOA. Tinha uísque 12 anos, champagne Veuve Clicquot, caviar, etc. Coisa pra mais de 1 mil dólares. Eu era então diretor da IstoÉ em Brasília. Fiquei puto. Liguei para o assessor de imprensa, um velho amigo, e fui logo dizendo: 

“Que porra é essa?”. 

Constrangido, ele explicou que fora iniciativa do próprio CAOA, que ele fora contra, que o patrão era um emergente deslumbrado, que mandara para outros 10 jornalistas, etc. Então pediu para não devolver a cesta pois seria ele, o assessor, a ficar mal. Ok. 

Chamei meus repórteres, contei o caso e disse que decidira dividir a cesta entre todos. A faxineira foi a primeira a pegar (toda a comida). Separei o uísque para a redação. Cada um pegou um pouco. Não me lembro qual foi minha parte.

Ora, eu era um empregado de uma empresa privada, recebendo presente de empresário privado. Ainda assim, considerei um absurdo me enviar cesta de mais de 1 mil dólares. Longe de mim querer parecer mais honesto do que o homem mais honesto do Brasil. Mas o fato é que uma cesta daquelas obviamente denotava interesses reptícios. A CAOA queria o quê com este  jornalista? 

Naquele mesmo ano, o marqueteiro Nizan Guanaes enviou um artesanato com Oxóssi e Ana Tavares, ex-assessora de FHC, então assessora da Vale, enviou um porta retratos com a foto de uma muda de mogno — e uma placa com meu nome no pé da árvore. Junto, um folheto explicando que Vale estava criando um bosque na Amazônia onde plantara mais de 500 árvores, cada uma delas batizada com o nome de um jornalista. Ana é genial em sua capacidade de lidar com os coleguinhas. 

Guardo até hoje esse porta-retratos da Vale. Já a cesta do CAOA, também resguardo para meus alunos, como exemplo, nas aulas sobre ética. Na esperança de que eles também não considerem normal um presidente da República pedir para uma empreiteira lhe arrumar um Triplex-zinho brega no Guarujá e ainda reformar seu sítio em Atibaia.