Por Hugo Studart

 

1 – O pulo-do-gato ocorreu em 2003, início do governo Lula e no contexto da montagem do Mensalão, quando o presidente delegou ao até então desconhecido deputado a missão de controlar a bancada do PMDB do Rio de Janeiro. Em troca, Cunha levou a diretoria Financeira do Real Grandeza, fundo de pensão de Furnas. Tinha relativa liberdade para “operar” negócios, ou seja, roubar. Com o dinheiro arrecadado, cabia a Cunha “ajudar” deputados do Rio no que fosse preciso. Ou seja, Lula ijá começou feudalizando a roubalheira e o mensalão.

2 – Vale lembrar que Eduardo Cunha surgiu no firmamento na campanha presidencial de 1989. Chegou junto de PC Farias, o tesoureiro do azarão Fernando Collor, quando ele ainda começava a crescer nas pesquisas. Arrecadou para PC junto aos empresários do Rio. Com a vitória, foi nomeado presidente da Telerj com a missão de “operar” para PC e Collor. Era um avião, competente na função de fazer negócios pessoais com empresas públicas. Foi ganhando asas…

3 – Quando começou a crise que levaria ao impeachment, Cunha aproveitou o caos instalado e parou de repassar dinheiro para PC e Collor. Foi assim que fez aquilo que os economistas chamam de “acumulação primitiva de capital”, sem o qual nação ou empresa alguma consegue sua arrancada.

4 – Nas eleições de 1994, tinha dinheiro para comprar votos por meio de acertos financeiros com deputados estaduais e líderes comunitários. Em Brasília, permaneceu no baixo clero ao longo de oito anos. FHC nunca lhe deu qualquer pelota. Enfim, era deputado da base aliada mas não teria conseguido montar qualquer esquema no governo para “operar”.

5 – Como já dito, foi Lula quem lhe deu a chance de crescer na política. Seus bons resultados “operando” com o Real Grandeza eram tamanhos, que Lula foi lhe concedendo novos feudos. Primeiro o fundo de pensão inteiro. Depois, passou a “operar” com a empresa-mãe, Furnas.

6 – No segundo mandato de Lula, Eduardo Cunha passaria a operar junto a todo setor elétrico, especialmente nas hidroelétricas da região Norte. Na sequência, passou a participar da Organização Criminosa que assaltava a Petrobrás. Lula lhe deu autonomia para “operar” com negócios da Petrobras na Africa.

7 – Em paralelo, sua influência política crescia em Brasília, a$$ertando a vida dos colegas deputados. Virou vice líder e, quando Lula abriu os olhos, já era o Líder do PMDB, com forte influência em outros partidos da base aliada. O segredo do sucesso de Cunha? Ora, dinheiro. Cunha era muito habilidoso de arrumar doações ou pagar dívidas de campanha dos colegas.

8 – Veio o primeiro mandato de Dilma Roussef. Cunha continuava nadando de braçada tanto nos negócios dos fundos de pensão, quanto do setor elétrico, como também no Petrolão. No Congresso, nadava de braçada, con$olidando $ua influência na Câmara dos Deputados.

9 – Em 2014, durante a campanha da reeleição de Dilma, ocorreria o rompimento entre ele, o Chefe e a Gerenta. Primeiro brigou com Lula, quando ele decidiu tirar seus negócios do Petrolão na África e entregar para um sobrinho, Taiguara de Tal, que até então era um vidraceiro. Cunha ficou furioso. Na derradeira conversa com Lula, teria mandado o ex-presidente “tomar no cú”, com todas as letras. E ainda prometido: “Vou te fuder, juro que vou te fuder”.

10 – Meses depois, Dilma já reeleita, ela e Lula decidiram tirar o Real Grandeza das mãos de Cunha e entregá-lo aos “operadores” petistas. Cunha reagiu criando problemas para Dilma na Câmara. Foi quando a presidenta mandou chama-lo ao Palácio. Dilma recebeu-o de pé, com os braços cruzados e seu jeito meigo de ser. O diálogo teria sido idem:

— Quero saber qual o interesse que o senhor tem no Real Grandeza.

Cunha teria dado um sorriso irônico antes de responder:

— O mesmo que a senhora e o Lula tem na Previ e na Petros: fazer negócios.

11 – Sempre cínico, frio, ele ainda teria feito o gesto popular de quem se refere a dinheiro, esfregar os dedos polegar e indicador. Dilma ficou furiosa. Colocou-o para fora de seu gabinete sem qualquer pudor. Era dezembro de 2014. Cunha chegou ao Congresso anunciando sua candidatura à Presidência da Câmara. Quando fevereiro de 2015 chegou, Cunha ganhou de lavada a eleição na Câmara.

12 – Ao longo de 2015, Cunha pintou e bordou com Dilma. O pedido de impeachment chegou logo no início do mandato. Mas Cunha segurou por quase um ano em sua gaveta. Ora ameaçava, ora segurava a onda. Dilma lhe devolveu vários feudos, a começar pelo Real Grandeza. Os petistas, por sua vez, começaram canonizando o companheiro Cunha. Quando ele aceitou parte da denúncia contra Dilma, dando início ao impeachment, passou a ser demonizado.

13 – Foi nesse contexto que, ao longo de 2015 e 2016, o PT tornou Cunha figura conhecida, o “criminoso predileto” de muitos brasileiros, segundo as palavras de Roberto Jefferson.

14 – Cunha será cassado e, provavelmente muito em breve será preso. O mesmo destino deve ter sua mulher Cláudia Cruz. Resta a dúvida sobre o alcance e o estrago de sua possível delação premiada.

Nos últimos meses, Cunha vinha anunciando a bravata de que levará junto 150 paramentares. É bem difícil que isso aconteça. Afinal, seria burrice ele se auto-delatar como corruptor de parlamentares, em casos que não estão sendo investigados. O mais provável é que centre sua delação em Lula, Dilma e nos esquemas que participou na Petrobrás.