Até hoje muitos bons amigos enviam informações sobre a confusão entre o pastor Marco Feliciano e a influencer Patrícia Lelis. Muitos me perguntam se não me arrependo de ter entrado nessa história. Não, não me arrependo. Pois não importa o desfecho deste ou daquele caso. Mas sim o que fazemos de certo ou de errado ao longo da caminhada

Por Hugo Studart

Até hoje muitos bons amigos enviam informações sobre o caso Feliciano-Patrícia, ou perguntam se eu não estaria arrependido por ter entrado nessa novela. Já refleti bastante: Não, não me arrependo.
Explico com a imagem abaixo. Sob o ponto de vista ético, o jornalista deveria ter fotografado ou levado o menino? E o que teria acontecido depois disso? O jornalista deixou que o abutre saciasse sua fome? Estou aqui discutindo a tal “neutralidade jornalística”. Interfere de perto? Ou apenas observa de longe (“neutro”) o curso “natural” dos acontecimentos? Iluminismo ou relativismo?

É fácil tomar posição quando o dilema é entre a fome do abutre ou da criança. Contudo, a discussão torna-me delicada quando os protagonistas são um hipócrita contumaz, com folha corrida de assédio sexual, e uma pilantra arrivista, com traços de psicopatia.

Weber criou os conceitos de “ética por convicção” e “ética por conveniência”.

Na primeira, adotada sobretudo pelo Iluminismo, busca-se aplicar os conceitos morais, apesar das consequências. Exemplo disso é a liberdade de expressão. Mesmo depois do massacre do Charlie Hebdo, os franceses marcharam, convictos, pelo direito à livre expressão do pensamento. No caso do dilema entre o abutre e a criança, estariam convictos sobre de que lado ficar: do ser humano, ainda que isso fosse contra o curso “natural” dos acontecimentos.

Já os ingleses e americanos, adotaram a “ética por conveniência”. Principais alvos da Jihad, há muito que aplicam a auto-censura e uma dura lei de Segurança Nacional, sobretudo depois que as Torres Gêmeas tombaram ao chão.

As esquerdas pós-modernas também optaram claramente pela “ética por conveniência” quando pregam o relativismo cultural (ou culturalismo). Em casos concretos, defendem o direito de algumas etnias indígenas praticarem o infanticídio, do islã extirpar o clitóris de 150 milhões de mulheres ou de apedrejarem mulheres acusadas de adultério.

Transportemos esses conceitos para o caso Feliciano X Patrícia.

1) Eu tinha a informação de que uma jovem jornalista (por acaso ex-aluna) estava tentando denunciar uma suposta tentativa de estupro praticada pelo deputado federal Marco Feliciano. Ela, que buscava algum jornalista para denunciar o caso, me contou alguns detalhes (não muitos). O que mais chamou a atenção é que, segundo ela, estaria sofrendo ameaças de morte.

2) Conversei então com amigo de dentro do movimento evangélico no Congresso. Pessoa bem informada e da confiança absoluta. Ele me confirmou que a história tinha forte elementos de ser verdadeira, mas que a bancada evangélica tentava blindar Feliciano e desmoralizar a garota por conta de seu passado de mentiras. Mais: que Feliciano havia designado seu chefe de gabinete (Bauer), um ex-policial ligado a grupos de extermínio, para negociar um acordo de silêncio. E que a negociação estava em torno de R$ 300 mil. Contou ainda que o pastor Everaldo, presidente do PSC e ex-candidato a Presidência da República, estava ajudando Feliciano, inclusive a levantar o dinheiro. Revelou outros casos de assédio sexual de Feliciano, conhecidos pela bancada evangélica e, inclusive, por sua esposa. Por fim, que a garota tinha provas, troca de mensagens no WhatApp e gravações.

3) Viajei e, quando retornei, descobri que Patrícia já havia contado sua história para o jornalista Leandro Mazzini, que mantem coluna política no UOL em uns 30 jornais. Não foi por mim que ela chegou a ele. Procurei Mazzini, um bom amigo, e ele relatou por fone os detalhes da história e das provas que a garota tinha entregue. Era uma troca de mensagens no Telegram, extremamente comprometedora, segundo o colega, na qual Feliciano admitia sexo forçado enquanto ela dizia “não”. E uma gravação de 1 hora com o chefe de gabinete admitindo os erros de Feliciano e buscando fazer um acordo de silêncio. Mazzini explicou que ainda não publicara porque aguardava que Patrícia formalizasse a denúncia com um Boletim de Ocorrência. Mas que estava achando muito estranho a atitude dela de não fazer BO. Ok, o caso estava nas mãos de um bom jornalista. Passei apenas a aguardar de longe pelos acontecimentos.

4) Mais alguns dias e meu velho amigo de “dentro” do movimento evangélico no Congresso me procura com informações preocupantes. Apareceu em Brasília o jornalista Emerson Biazon, assessor de crise Celso Russomano, e convenceu Patrícia a seguir com ele para São Paulo. Sem fazer BO. Contou ainda que a mãe da garota (a quem ele conhece) não sabia de nada do que estava acontecendo. Por fim, se mostrou extremamente preocupado com a vida da garota. Chegou a lembrar do caso do goleiro Bruno, que tinha muito menos a perder do que Feliciano, candidato a vice de Bolsonaro na campanha presidencial de 2018.

5) Numa manhã de segunda feira, esse mesmo amigo avisou que a garota estava desaparecida em São Paulo. Há três dias que não dava notícias. Nem atendia ao telefone de ninguém. Liguei para o Mazzini, cuja prudência o deixava recalcitrante em publicar a história sem BO.

6) Foi nesse momento que decidi publicar por conta própria, neste espaço no Facebook. Então contei o que sabia. Inclusive o valor de R$ 300 mil que estava sendo negociado em troca do silêncio.

7) O resto da história é conhecida. O post ficou menos de duas horas no ar (foi derrubado por denúncias de evangélicos ao FB). A guria veio a público me desmentir. Então o Mazzini publicou à noite reportagem revelando o teor da troca de mensagens entre Feliciano e Patrícia — sua primeira de muitas matérias sobre o caso.

8) Daí para frente, foi um novelão sem fim. Todos os indícios apontam para uma tentativa de estupro no apartamento do Feliciano, ainda que alguns pontos da história precisem de maior consistência (como a data). Esse caso, contra Feliciano, está sendo apurado pela polícia de Brasília, e acompanhado pela Procuradoria Geral da República.

9) Todos os indícios apontam, também, para o fato de que a garota preferiu usar o episódio para obter vantagens indevidas. Ganhar dinheiro, cargo ou fama. Há um segundo inquérito correndo em São Paulo, para apurar sua denúncia de que Bauer a teria mantido em cárcere privado, sob as ordens de Feliciano.

10) Feliciano está administrando o assunto com extrema competência. Sua estratégia é desmoralizar sua acusadora. Conseguiu, em SP, um delegado aliado, que livrou por completo Bauer e Biazon da história — e está indo com toda a carga em cima da acusadora. Inclusive acaba de pedir sua prisão por tentativa de extorsão de R$ 300 mil. E ela, por sua vez, está se enrolando cada vez mais. Mente, vai e volta. Talvez reste presa e Feliciano livre, leve e solto.

Então retornemos ao início: os amigos até hoje me perguntam se eu não estaria arrependido de ter entrado nesse caso. No fundo, querem me perguntar se eu não estaria arrependido de ter defendido uma pilantra, mentirosa e arrivista. Nesse caso, estaria eu aderindo ao conceito weberiano de “ética por conveniência”.

É quando penso na imagem do abutre e da criança, ambos famintos. Deveria o jornalista que flagrou essa cena apenas observar, com a tal “neutralidade jornalística” — permitindo nos instantes seguintes o curso “natural” dos acontecimentos? Afinal, o abutre também é um protagonista com o direito natural de saciar a fome.

No caso de Feliciano e Patrícia, hoje sei que um deles é abutre — mas a outra não tem nada de criança. Contudo, deveria eu apenas observar, com “neutralidade”?

Não!. Por todas as razões acima expostas, não me arrependo de ter publicado o primeiro capítulo da história. Ao contrário, saio deste episódio professando ainda mais a “ética por convicção”.

Já me perguntaram: e se eu não tivesse publicado? Ora, pode ser que hoje a garota estivesse morta, atropelamento, assalto… Pode ser também que estivesse com R$ 300 mil no bolso e um programa na Record.

Por isso não importa o desfecho deste ou daquele caso. Mas sim o que fazemos de certo ou de errado ao longo da caminhada.