Por Hugo Studart
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Esses garotos da natação, Ryan Lochte à frente, levaram por demais a sério a máxima “não existe pecado ao sul do Equador”. Em sua antológica encíclica Sublimus Dei, de 1537, o papa Paulo III afirmava que os habitantes da América recém-descoberta não eram animais, mas seres humanos de alma pura e receptiva à fé em Cristo, que viveriam em uma espécie de Paraíso, nús como Adão e Eva, contudo livres de todos os pecados. Mas o que restou no imaginário europeu foi a associação entre os trópicos e a sensualidade.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Há gerações que os jovens americanos, produto em uma sociedade hipócrita e farisaica, descem a Cancún ou Acapulco para perder a virgindade. Ou tomar o primeiro porre. Hoje, fazer o primeiro mènage, ou experimentar o primeiro ecstasy. O Rio de Janeiro, por sua vez, é a Babel do imaginário do Norte, uma terra sem pecados, onde nem mesmo Deus existe e, portanto, “onde tudo é permitido” — parafraseando Dostoievski.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Depois de conquistarem uma penca de medalhas (teriam sido 9?), esses jovens americanos, tomados pelos hormônio e glória, deveriam ter direito a uma noitada inesquecível na Cidade Sem-Pecados, mulheres, bebidas, um porre homérico… Mas não podiam. Eles têm patrocinadores, têm responsabilidades, uma imagem a zelar.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parece que tomaram apenas um porre de merda e um lugar idem. E fizeram uma grande merda: a comunicação falsa de crime. Molecagem de irresponsáveis. Levaram por demais à sério a suposta impunidade reinante no Brasil. Deu merda. E ainda vai dar mais. Eles sabem que teria dado shit se tivessem cometido esse mesmo crime nos Estados Unidos. Terão que pagar pelo erro; ainda não sabemos como. Uma pena. Teria sido mais fácil contar a verdade: que tomaram um porre merecido pela penca de vitórias. Mas aí, como ficaria a imagem deles diante dos patrocinadores?