Essa história que vou lhes narrar testemunhei com meus próprios olhos e ouvidos. Aconteceu em 1987, um pouco antes da morte do poeta Carlos Drummond de Andrade. O poetinha estava a lançar um novo livro, “Moça deitada na cama”, na qual ousou descortinar luxúrias que resguardavas nas memórias. Um editor da revista Veja leu e resolveu publicar uma crítica de próprio punho. No jornalismo brasileiro, quando se escreve sobre instituições sagradas, como era o caso de Drummond, a expressão “crítica” costuma vir acasalada a sufixos bajulatórios.
Mas aquele editor quis ser ácido, corrosivo. Caprichoso, solicitou à Sucursal do Rio uma foto especial, com o poeta sentado em um banco na praia de Copacabana, na alvorada, de forma que a luz marcasse a silhueta daquele crânio singular. Assim foi feito. Na semana seguinte, chegou uma carta de Drummond à Redação de Veja. Uma epístola sobre estética e ética (e elegância), na qual tecia algumas considerações sobre sua opção pelo erótico. Também defendia o direito do jornalista gostar ou odiar sua obra.
Ao final, suplicava algo como: Quando quiserem falar mal de mim ou dos meus poemas, tenham total liberdade. Mas nesses casos, por favor, não me peçam para acordar de madrugada a fim de fazer uma fotografia para ilustrar algo contra mim mesmo.
Usem uma foto de arquivo.
Aquela carta foi publicada apenas em parte. O final foi suprimido para poupar o editor. Não tenho o texto exato de Drummond; apenas guardei na memória o sentido geral do conteúdo (e por essa razão optei por não reproduzir entre aspas). O fato é que aquela queixa do poetinha suscitou entre os repórteres uma discussão sobre os limites da ética jornalística – sobretudo da elegância. Foi um debate breve, entre muxoxos, posto que o editor era poderoso e, a rigor, trabalhávamos em uma organização que beirava o totalitarismo. O que me interessa é que guardei a história sobre usar e abusar de um personagem a respeito de quem pretendemos criticar.
POLÊMICA COM A FENAJ “LIVRE”
Isto posto, venho lembrar que, na última quarta-feira 21, publiquei em minha página no Facebook uma postagem na qual relato que a Federação Nacional dos Jornalistas Livres, Fenaj, promoveu um Congresso no qual pegou dinheiro do governo Temer e dos tucanos com o objetivo premeditado de mobilizar a categoria contra o “golpista” Temer e a “direita” tucana. Usei o adjetivo de “espertalhões” para classificar os dirigentes sindicais da minha categoria. Corrijo agora: não foi exatamente esperteza. Foi algo muito mais profundo, a falta de fundamentos éticos, ou de “bons modos” – fazendo uso de uma frase de Lenin:
“A burguesia nos legou duas coisas fundamentais: os bons modos e o bom gosto” (Lenin).
Também cobrei transparência financeira. Que prestem contas dos valores que captaram com os patrocinadores, sobretudo o que pegaram do Banco do Brasil, da Petrobras e do governador tucano Marcone Perillo. Que também prestem contas do que gastaram com passagens, hotel, alimentação e brindes. Por fim, que digam o que pretendem fazer com as sobras da campanha, pois captaram três vezes o valor que gastaram.
A Fenaj reagiu no mesmo dia divulgando, no site oficial, uma “Nota de esclarecimento e repúdio” contra mim. E ainda começa colocando em dúvida que eu seja jornalista: “Sem qualquer fundamento, esse senhor, que se identifica como jornalista, divulga numa rede social informações caluniosas e injuriosas ao Sindicato, à Federação e a seus dirigentes, em fato relacionado ao 37º Congresso Nacional dos Jornalistas, realizado em Goiânia de 25 a 28 de agosto”, etc, etc, etc.
Para tentar esclarecer os fatos e me repudiar, a nota faz uso, por quatro vezes, do recurso “NÃO, NÃO É VERDADE” (em caixa alta e negrito). Assinam a nota a nova presidente da Fenaj, Maria José Braga (ela usa “PresidentA”, com P maiúsculo e A para demarcar o gênero); e o novo presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás, Luiz Antonio Spada.
Assim, retornei à apuração dos fatos. Não por causa do repúdio dos dirigentes sindicais da minha categoria. Mas sobretudo para esclarecer (e tranquilizar) as dezenas de amigos que me empenharam apoio e solidariedade pública.
MAQUIAVELISMO VULGAR
Em resumo, esse caso, abaixo detalhado, diz respeito sobretudo à Ética.
O tema do Congresso foi “Jornalismo ético: a sociedade quer e precisa”. Ocorreram cinco painéis, onde foram abordadas questões como Jornalismo e cidadania, os compromissos éticos dos jornalistas, a formação profissional, o caminho para o exercício ético da profissão e um novo marco regulatório para uma comunicação democrática, plural e ética.
Na prática, pouco ou quase nada se debateu sobre a ética que a sociedade precisa, ou sobre jornalistas, jornais ou jornalismo — profissão que está derretendo de forma fulminante sob o olhar atônito e apaspalhado de nossos dirigentes sindicais. Todos os painéis, todas as palestras, todas as intervenções, sem exceção, foram permeados e fundamentados no discurso oficial do PT. Qual seja: o de que houve um golpe parlamentar para depor a presidenta Dilma, que o governo de Michel Temer seria ilegítimo, sustentado por corruptos fascistas.
“Fora Temer! Fora Temer! Fora Temer” – gritavam os coleguinhas (já de rugas e cabelos brancos) ao longo de três dias, sem parar. “Fora golpista!”
Também abriram espaço para discutir o impeachment de Dilma e uma palestra sobre tortura militar. Houve um momento no qual um jornalista do Pará, um senhor com cerca de 70 anos chamado Donato, tentou argumentar que não foi golpe. Provocou um grande tumulto. Foi cercado de militantes petistas que o chamaram de “direita” e o calaram com agressões verbais – exatamente como faziam os fascistas. Mas Donato não chegou a sofrer agressões físicas. A turma do deixa-disso acabou levando-o para fora do recinto. No dia seguinte, ele estava de novo no Congresso, doravante, sem maiores incidentes.
“Fora Temer! “Fora golpista!”. E nada de discutir ética a fundo. Muito menos o jornalismo em desmanche assustador. Afinal, como certa feita disse Hegel, “se a realidade não se adequa às minhas ideias, foda-se a realidade”.
Ora, a Fenaj tem todo direito de ter sido uma entidade pelega por 13 anos. Danem-se os jornalistas que votaram e ainda votam na pelegada. Os painelistas são livres para pensar e pronunciar o discurso que lhes aprouver. Os delegados e observadores, por sua vez, têm todo o direito de berrar as palavras de ordem que lhes acalentar o coração.
O que se questiona é o fato desse delírio catártico de nossos sindicalistas foi patrocinado justamente por aqueles a quem eles, desde o início, sabiam de caso pensado que iriam falar mal – como no caso da mal-falada Veja contra o incensado Drummond. Em outras palavras, pediram dinheiro ao governo Temer e aos tucanos para que patrocinassem uma mobilização classista para organizar uma luta justamente contra Temer e os tucanos. E mentiram, omitiram premeditadamente a verdadeira finalidade do evento, anunciado sob a dissimulação de um título pomposo e supostamente neutro: “Jornalismo ético: a sociedade quer e precisa”.
Quando o dinheiro da Petrobras, do Banco do Brasil e do governo tucano de Goiás saiu, às vésperas do evento, dirigentes sindicais chegaram a tentar discutir a pertinência ética da entidade que representa os jornalistas receber dinheiro dos “golpistas”. Contudo, a presidenta da Fenaj, Maria José Braga, muito rápido abafou a discussão, com argumentos como “o que importa é a luta”, tudo sai dos nossos impostos, e falácias do tipo – e vamos em frente! Muito rápido seus argumentos prosaicos da presidenta disseminaram-se entre os demais dirigentes. Contudo, os demais acabaram optando pela omissão. E vamos em frente!
O fato é que, por convicção ou omissão, Maria José e seus sindicalistas amestrados optaram pelo maquiavelismo em sua versão mais vulgar – aquele no qual se acredita que os fins justificam os meios. No caso, o fim é a luta contra o governo golpista. Os meios, arrumar dinheiro com o governo golpista.
Weber nos legou os conceitos de “Ética por Convicção” e “Ética por Conveniência”. A conclusão que se leva desse episódio é que as convicções dos dirigentes sindicais da nossa categoria passam longe do tema do Congresso: “Jornalismo ético: a sociedade quer e precisa”. Contudo, peço que respondam, prezados senhores, do que a sociedade quer e precisa: convicção ou conveniências?
PRESTAÇÃO DE CONTAS
Outro ponto essencial a levantar é o financeiro. Uma semana antes do evento, os dirigentes da Fenaj festejavam o fato de que todo o evento estava pago. Ou seja, o dinheiro das inscrições, somado ao patrocínio privado (Unimed, Federação do Comércio e Federação das Indústrias de Goiás) já havia garantido a realização do Congresso. Seria um evento simples, mas não haveria prejuízo nem para a Fenaj, muito menos para o Sindicato dos Jornalistas de Goiás.
Quando entraram os patrocínios dos “golpistas” e dos tucanos, a organização do evento pode inserir alguns pequenos luxos, como coffee break (dois) coquetel (um) e uma festa de encerramento, com banda de música ao vivo.
O problema é que os patrocinadores “golpistas” disponibilizaram dinheiro para muito mais do que cafezinho com acepipes e festinha com dança de salão. De acordo com uma confidência da presidenta Maria José a seus pares, teria entrado três vezes mais dinheiro do que as despesas. Repito, para que não haja dúvidas. Ao fim e ao cabo, o dinheiro que entrou dos patrocinadores “golpistas” teria proporcionado uma receita três vezes maior do que as despesas. Obviamente, uma informação bombástica como essa, não ficaria mais do que 15 minutos confinada ao petit-comité da presidenta. Ainda mais se tratando de jornalistas – cujo imaginário popular costuma rotular de “fofoqueiros”. Muito rápido, a informação sobre o 3 X 1 transformou-se em segredo de Polichinelo entre os dirigentes sindicais de Brasília.
Não adianta aparecer com a falácia petista de que “não há provas” do que estou afirmando. Ou de que eu “precisaria provar” o que escrevo. Não estou cá fazendo acusação alguma, mas somente e tão-somente revelando uma informação de bastidor (em off, como de diz no jargão jornalístico) para meus coleguinhas sindicalizados. Estou há muitos anos longe da profissão e do sindicato. Contudo, cabe aos jornalistas militantes decidir fazer bom (ou mau) uso dessa informação.
Pois outra questão ética essencial diz respeito à prestação de contas. Ora, ora, Maria José e seus adeptos precisam prestar contas para a categoria. De cada centavo que entrou. De cada centavo que saiu. Precisa dar conta, também, das chamadas “sobras de campanha”. Há fortes indícios de que as despesas giraram entre R$ 100 mil e R$ 120 mil – conforme resta detalhado abaixo. É só multiplicar por três que dá para saber o que teria sobrado.
O certo é invocar um dos fundamentos da democracia que a Fenaj tanto apregoa: a transparência. O problema é que a atual diretoria da Fenaj não gosta de dar explicações sobre seus atos, especialmente sobre seus gastos. Alegam, em suma, as tais Razões de Estado, ou Segredos de Estado, conceituadas pelo mesmo Maquiavel cujos fins justificam os meios.
AS FONTES
Apesar de a Fenaj questionar que eu seja ou tenha sido jornalista, esclareço preliminarmente que tive minha iniciação na carreira na virada dos anos 70 para 80, quando o pessoal do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, conseguiu formar uma frente ampla com os liberais e tomar dos pelegos o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, tendo à frente, como presidente, o maior repórter político de todos os tempos, Carlos Castelo Branco, o Castelinho – a quem conheci quando trabalhava no Jornal do Brasil e por quem babava.
Resguardo alguns bons e velhos amigos no movimento sindical. Um deles é dirigente e sabe muito do que ocorreu nos bastidores do 37º Congresso Nacional dos Jornalistas. Mais não digo para preservar a fonte de informações. Ou seria o “fonto”?
Ele(a) me relatou que há dois dias nossos dirigentes da Fenaj não param de especular sobre quem seria meu informante? Ou informanta? Adianto que não há única fonte. E que algumas informações que já tenho evitarei publicar justamente para não ajuda-los a identificar a fonte.
O PATROCÍNIO:
1 – O 37º Congresso ocorreu em Goiânia e foi promovido pela Fenaj em parceria com o Sindicato dos Jornalistas de Goiás.
2 – Como todo evento, é sempre um risco financeiro. Precisa do dinheiro das inscrições e, se possível, de patrocinadores. Federação e Sindicato bancaram os custos iniciais com suas reservas financeiras. É para isso que existem.
3 – Meses atrás, a Fenaj pediu os patrocínios do Banco do Brasil e da Petrobras. Ainda era o governo do PT, que vinha há 13 anos patrocinando, sem problemas, esse tipo de evento com dinheiro das Estatais. A Fenaj pediu R$ 150 mil para cada um. Faz parte do jogo pedir verbas além do necessário para, ao fim e ao cabo, ficar com dois terços do solicitado, em média. Por vezes com metade, raramente, com o valor total. Ocorre que Dilma caiu e o governo Temer represou os patrocínios. Sobretudo para eventos de petistas. Assim, o pedido da Fenaj acabou represado.
4 – O sindicado de Goiás, por seu turno, também correu atrás de patrocinadores locais. Pediu também R$ 150 mil para o governador Marcone Perillo, do PSDB. O tucano Marcone é um inimigo histórico tanto do petismo local, quanto do sindicato dos jornalistas. Ainda assim, o sindicato pediu dinheiro ao inimigo.
5 – De acordo com a nota da Fenaj, o sindicato também pediu patrocínio à Unimed Goiânia, à Federação do Comércio do Estado de Goiás e à Federação da Indústria do Estado de Goiás. Ainda de acordo com a nota, as três entidades (duas delas patronais) teriam bancado as passagens aéreas. Mas não revela nem o valor do repasse, nem os gastos com as passagens.
6 – O Congresso começou numa quinta-feira à noite e terminou no sábado à noite (retorno, ao longo de domingo). De acordo com minhas fontes, haveria um pouco mais de 150 pessoas no Congresso – e menos de 200. Segundo a nota da Fenaj, teriam sido 300 participantes. Ok, que tenham sido 300, e não “um pouco mais de 150”. Afinal, esse número cabalístico (ainda que não seja exato) remete nossos sindicalistas ao imaginário de uma resistência heroica, como se fossem os 300 de Esparta.
7 – Até a última hora, os dirigentes correram atrás dos patrocínios Estatais. Todos os três saíram na semana do Congresso.
8 – Quando Dilma caiu e o governo do “golpista” Temer entrou, o departamento de marketing do Banco do Brasil avaliou tecnicamente insuficiente a justificativa para o patrocínio de R$ 150 mil. E engavetou o pedido. Mesmo porque, com Temer, ainda que “interino”, ninguém queria arriscar a própria pele liberando dinheiro para um evento que, sabe-se lá, poderia ser petista. O mesmo aconteceu na Petrobras, onde havia outro pedido de patrocínio de R$ 150 mil.
9 – Mas, como dito, os dirigentes da Fenaj correram atrás de aliados políticos para tentar liberar pelo menos parte das verbas. De acordo com a nota da Fenaj, o “Banco do Brasil, em contrato assinado, comprometeu-se em disponibilizar R$ 30 mil, que ainda não foram repassados à FENAJ. Petrobrás, também em contrato assinado, comprometeu-se em disponibilizar R$ 50 mil em patrocínio, que também ainda não foram repassados”, acrescenta a Fenaj. De acordo com uma de minhas fontes, a direção da Fenaj estaria escondendo a verdade. Tanto o Banco do Brasil, quanto a Petrobras, acabaram liberando valores próximos a R$ 100 mil. Que pode ter sido mais. Em pelo menos um dos casos, em parcelas.
10 – No caso do dinheiro tucano, os sindicalistas chegaram a cercar o governador Marcone Perillo no aeroporto. Reclamaram que os R$ 150 mil ainda não haviam saído. Marcone avisou que não iria dar tudo, mas somente R$ 100 mil. Então telefonou para um secretário e mandou soltar o dinheiro. De acordo com a nota da Fenaj, “o governo de Goiás colaborou com cerca de R$ 70 mil para pagamento das despesas de hospedagem e alimentação, pagos diretamente ao hotel onde foi realizado o 37º Congresso Nacional dos Jornalistas”.
11 – Os organizadores cobraram pelas inscrições. Valores: R$ 380 por cada delegado; R$ 190 por cada observador. Consideremos que haveriam 300 participantes, segundo a contabilidade criativa dos nossos dirigentes sindicais. Como eram cerca de 80 os delegados, a arrecadação com inscrições teria alcançado algo muito próximo a R$ 40 mil.
AS DESPESAS
12 – De acordo com minhas fontes, teriam sido pagas cerca de 100 passagens aéreas, sendo cerca de 80 para os delegados e as demais para os palestrantes e os dirigentes da Fenaj. Melhor não especular sobre preço médio de passagens do Oiapoque ao Chuí. Mesmo porque, segundo a nota da Fenaj, foram pagas por empresas privadas (Unimed) e patronais (Federações do Comércio e das Indústrias de Goiás). De acordo com minhas fontes, ocorreu exatamente isso. Os três patrocinadores de fato ratearam as passagens, pagando diretamente às companhias aéreas, sem que o dinheiro triangulasse pelas contas da Fenaj ou do Sindicato.
13 – A outra grande despesa foi com hotelaria. Os delegados e dirigentes sindicais foram todos alojados no Plaza Inn Augustus Hotel, no Centro de Goiânia. Os palestrantes e os dirigentes, cerca de 20, em apartamentos individuais. Os delegados, em quartos com dois ou três pessoas. Os organizadores pagaram as estadias deles. Quanto aos observadores, tiveram se que virar.
14 – Pelo site Booking.com, a diária Augustus Hotel sai hoje a R$ 160 entre quinta-feira e domingo. O preço de três diárias em apartamento duplo, custa R$ 510 o pacote, com taxas de intermediação. Assim, o hotel para cerca de 100 pessoas (50 apartamentos), a preço de mercado, sai a R$ 26 mil. Decerto nossos dirigentes souberam negociar um bom abatimento para um grupo tão significativo.
15 – O almoço dos delegados e dirigentes sindicais foi pago pela organização do congresso. Ou seja, três almoços para cerca de 90 pessoas, 270 refeições. Arredondemos para 300 refeições, ao custo de R$ 30 cada = R$ 9 mil. Teve ainda o coffee break, sexta-feira e sábado. No mercado, sai em média a R$ 20 por cabeça. Considerando que os 300 da Fenaj usufruíram do cafezinho com acepipes, o custo chega a R$ 12 mil, a preço de mercado. Ou seja, cerca de R$ 20 mil somando três almoços e dois cafés.
16 – A soma do hotel com a alimentação, por valores de mercado, chega a R$ 47 mil. E ainda deve-se considerar o aluguel do salão de eventos; por isso, mais prudente arredondar para R$ 60 mil. Assim, o valor de mercado é coerente com aquele informado pela Fenaj. De acordo com a nota da Federação, o governo de Goiás “colaborou com cerca de R$ 70 mil para pagamento das despesas de hospedagem e alimentação, pagos diretamente ao hotel onde foi realizado o 37º Congresso Nacional dos Jornalistas”.
16 – Por fim, na noite de sábado, ocorreu uma festa de despedida em uma casa de eventos, com um bom coquetel e uma banda tocando música ao vivo. Não tenho maiores informações sobre o tamanho da festa, nem o que foi oferecido, muito menos o cachê do conjunto. Mas vamos em frente.
CONTRAPARTIDA
Nesse tipo de evento, os patrocinadores sempre exigem alguma contrapartida. Em geral, a logomarca em banners, sites e no material de apoio a ser distribuído entre os participantes – bloquinhos de anotações e sacolas.
Como o patrocínio dos “golpistas” e dos tucanos demorou muito a sair, os organizadores mandaram imprimir o material apenas com as logomarcas da Unimed-GO, Federação do Comércio e Federação das Indústrias do Estado de Goiás. Até aí, aplausos para nossos dirigentes. Havia um grande banner no fundo do palco; uma sacola de lona preta, caneta vermelha, bloco de anotações e um folder com informações sobre os painéis e oficinas. Foi esse o material distribuído, no primeiro dia, à maior parte dos delegados e ouvintes.
Quando foi confirmado o patrocínio do Banco do Brasil, da Petrobras e do governo Perillo, então mandaram imprimir um novo material, com novas logomarcas. O mais curioso é que Maria José chegou a cogitar não inserir a logomarca dos novos patrocinadores, contudo, prevaleceu o bom senso.
Assim, a partir do segundo dia, foi distribuído um novo pacote com sacola, caneta e bloco de notas. Unimed e o governo de Goiás constavam como “Apoio”. Está escrito: “Goiás, Estado Inovador” e “Goiás Turismo – Agência Estadual de Turismo”. Já a Petrobrás e o Banco do Brasil constam como “Patrocínio”. Curiosamente, não constavam as logo das entidades patronais.
É curioso, também, que a Unimed e patronato tenham bancado cerca de 100 passagens aéreas, ida e volta; que o governo de Goiás tenha entrado com “cerca de R$ 70 mil”, de acordo com a nota oficial da Fenaj – que restem apenas como “Apoio”. Já a Petrobras, que segundo a mesma nota teria entrado com R$ 50 mil “ainda não pagos”, e o Banco do Brasil, com outros R$ 30 igualmente não pagos, acabaram aparecendo como “Patrocínio”.
Ou seja, meros R$ 30 mil valem constar nas peças de divulgação como patrocinador. Já R$ 70 mil vale um mero título de apoiador. Em tempo: no banner principal do Congresso, aquele que ficava atrás do palco, não constaram as logomarcas dos patrocinadores golpistas, nem do apoiador tucano.
A TROIKA
Esse 37º Congresso Nacional dos Jornalistas teve a honra de ser materializado por um trio de coleguinhas. À frente, Maria José Braga, de Goiânia, eleita por voto direto presidenta da Fenaj. A seu lado, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Goiás, Cláudio Curado Neto. Maria José e Cláudio são casados. Fechando a troika — tal qual aquela de Stalin, Bukharin e Rikov – temos Luiz Antônio Spada, novo presidente do Sindicato, que assinou a nota de repúdio contra mim junto com Maria José. Relevante esclarecer que Cláudio passou a presidência a Spada durante o Congresso Nacional dos Jornalistas.
Maria José foi repórter de Cidades do jornal O Popular, das Organizações Jaime Câmara, o maior grupo de Comunicação de Goiás. Seu marido Cláudio enveredou pelo campo da assessoria para políticos. Quanto a Spada, também tem sua carteira de trabalho carimbada por O Popular. Dos tempos de repórter, antes de ganhar imunidade sindical, restaram vagas lembranças entre os coleguinhas de que escrevia com certa dificuldade.
Desde 2001, o trio vem se revezando nos cargos de presidente ou de vice do Sindicato. Primeiro, Maria José, presidente entre 2001 e 2004 (naquela época, ainda era presidente, não presidenta). Spada a sucedeu entre 2004 e 2007. E foi reeleito entre 2007 e 2010, tendo Cláudio como vice. Entre 2010 e 2013, foi a vez de Cláudio ser o presidente. Adivinhem quem foi seu vice? Ganha um caramelo quem apontou para Spada. Cláudio foi reeleito para o mandato de 2013 a 2016, agora tendo Alexandre Alfaix de Assis como seu vice. Por fim, durante o Congresso, Cláudio entrega o poder de volta a Spada, mantendo Alfaix como vice.
Durante esses anos de hegemonia da troika, o sindicato protagonizou muitas polêmicas relativas à falta de transparência na prestação de contas. Jornalistas chegaram a formalizar pedidos de auditorias para as viagens de Spada; outros, chegaram a se desligar alegando desmandos.
Aos coleguinhas, resta a informação de que nossa nova presidenta vem dessa escola. Como já não faço mais parte da categoria (mudei de sindicato, agora sou professor), não tenho legitimidade para exigir uma rigorosa prestação de contas relativas ao Congresso Nacional dos Jornalistas. Contudo, posso deixar a sugestão: busquem aber o que entrou de patrocínio. O que saiu de despesas. E, sobretudo, onde estão as “sobras de campanha”?
(Lembranças de Julho de 2016).
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